Dona Inês

“Os netos são as coroas dos anciãos, como os pais são a glória dos filhos…” (Livro dos Provérbios 17,6)

Rua Bacuri, número 175. Uns diziam que o bairro ali chamava-se Campo Grande. Outros, que ali era Casa Amarela (inclusive os Correios). Outros afirmavam que era Apipucos. Eu achava que poderia ficar mais para “Nova Descoberta” ou “Alto do Mandú”. Mas seja qual bairro fosse, era ali a casa da minha avó (materna, pois a paterna eu nunca conheci): Dona Inês. Para os sobrinhos, “Tinês” (nós, pernambucanos, gostamos de engolir algumas letrinhas). Para os filhos, era simplesmente mãe. Para nós, os netos, era a nossa “voinha”!

Eu nunca poderia deixar de escrever um artigo sobre ela e sobre as pessoas que moravam ou freqüentavam a famosa Rua Bacuri. Minha avó significou muito para mim, e seus ensinamentos até hoje estão guardados “a sete chaves” na minha memória. Aquela mulher tinha, sim, muitas coisas para ensinar! Legou-me muitos valores que já não vemos hoje serem tão ensinados assim. Ela soube passar pela vida dura, de maneira alegre e feliz!

Não me recordo da doença da qual ela morreu. E olha que eu já era grande e estava no quartel. Mas, eu acho que ela morreu de saudade. Essa é minha particular opinião. Partiu logo depois dos irmãos. Acho que se sentiu só. Lembro-me de que a partir da morte de tio “Vino” e de tio Fernando (seus irmãos) minha avó foi perdendo aquele amor que tinha pela vida. Acho que quando se chega a uma certa idade, é difícil conviver com a perda de pessoas queridas. O passado se torna maior que o presente, e as lembranças, maiores que o dia-a-dia…

Ela sempre amou a vida, mesmo morrendo de saudade. E esse amor foi uma das melhores coisas que ela me deixou como herança. Ela era uma entusiasta! Entusiasmava-se sempre que via alguém entusiasmado! Era uma pessoa que você sabia que iria apoiá-lo. Levantá-lo! Fazê-lo andar para frente! “Voinha” não admitia retrocessos! Quando acontecia algo, por mais que ela falasse, no final sempre era algo positivo, animador, desafiante!

Lembro-me, com alegria, dos dias em que minha mãe dizia: – “Vou à casa de mãe!”
Pronto, eu já queria ir junto. A casa de minha avó era uma espécie de parque de diversões e ela, claro, era a dona de tudo aquilo. A rua em que ela morava (na qual eu morei quando bebê, e, na qual, hoje, reside tio Fernandinho) era uma festa. O vizinho da frente era seu Zeca, irmão de Jaime, que acabou casando com minha tia, irmã da minha mãe. Jaime era como se fosse meu segundo pai. A casa do lado era a casa de Rita. Esposa do outro irmão da minha vó: “Titonho” (este morreu quando eu era criança). Rita teve muitos filhos e filhas. Miguel, Jú, Pitato, Toinho, Onilda, Menininha, Zefinha, Lequinha, Anginha, Lulu e alguns que morreram quando crianças, mas que também fazem parte da família, e que certamente estão no céu. Ali, naquela rua, todos eram conhecidos, era uma grande família espalhada em várias casas.

Na mesma rua também tinha dona Dida. Que lembrança boa! Eu serei eternamente grato a essa senhora, pois cuidou de mim muitas vezes. Também tinha dona Francinha, que vendia um picolé de frutas cujas fôrmas eram potes de iogurte. Era um picolé grande, que você nem imagina. Imagine um picolé feito num copo de iogurte?

Perto da casa de Dona Inês, moravam mais dois irmãos dela: Tio Vino e sua turma (que também era grande) e Tio Fernando (com um outro tanto de filhos)… Morei nessa rua por duas vezes. Mas era pequeno e não lembro de muita coisa. Uma vez, fui vizinho da minha avó. Da outra, morei na própria casa dela, num período difícil para os meus pais. Ali, naquele local, vivia-se o verdadeiro sentido da palavra solidariedade. Uns ajudando os outros. Uns dando força aos outros. Cada um na sua luta, cada um lutando para garantir o progresso dos seus, mas todos unidos. Quando eu era pequeno, minha mãe tinha de sair para trabalhar, e muitas vezes, fiquei na casa de “voinha”, na casa de Dona Dida, com minhas primas mais velhas tomando conta de mim…

Lembro-me com muito carinho dessa gente boa, porém me lembro com muito mais carinho de “voinha”. Como disse antes, ela teve uma vida dura, difícil. Meu avô era alcoólatra. Minha mãe dizia que ele era um doce de pessoa, mas que sofria desse mal terrível, do qual tantos brasileiros sofrem. Teve quatro filhos. Minha mãe era a mais velha, e teve de trabalhar dos quatorze para os quinze anos, para ajudar minha avó a sustentar as despesas casa. Minha avó costurava para fora. Assim, ela criou os quatro filhos… Na raça! Na luta! As duas mulheres (minha mãe e minha tia), ela conseguiu, nem tanto pelo dinheiro, mas pelo apoio e pela perseverança, vê-las formadas com curso superior. Já os homens, não chegaram tão longe no sentido acadêmico, mas são homens de bem, graças a Deus, pessoas maravilhosas, com famílias maravilhosas.

Minha avó era doce, muito religiosa, muito alegre… Apesar da idade, muito viva. Amava um bom passeio. Não perdia um. Pouco antes da hora do almoço, comia um “tiquinho” para esperar chegar a hora. Depois, mais outro “tiquinho”. Apesar de não poder comer de tudo, pois tinha diabetes, comia assim mesmo. E se disséssemos que ela não podia, a resposta era: “Só ‘tô’ comendo um ‘tiquinho’…” Ninguém resistia à sua carinha de: “Só um tiquinho”…

Essa era dona Inês. Minha avó. Aparentemente uma mulher frágil, mas quem a conheceu, de fato, pode testemunhar: Uma verdadeira guerreira! E o melhor de tudo: Nunca perdeu a alegria.

Eu ainda me lembro com alegria dos presentes que ela ganhava no seu aniversário. Se ela os ganhava repetidos, guardava-os para dar de presente a uma outra pessoa que fizesse aniversário. Assim, economizava na compra de presentes. Lembro-me, de forma engraçada, desses fatos, e como ela era carinhosa em nunca chegar a uma festa de aniversário, sem um presente, ainda que fosse um dos seus (geralmente eram talcos)….

“Voinha” sempre gostou de cantar músicas religiosas. Tinha um caderno com as músicas de que ela gostava. À tarde, sentava-se na rede, e ficava ali, cantando… Quantas vezes, eu dormi a escutando cantar!

“Da cepa brotou a rama…
da rama brotou a flor…
da flor nasceu Maria…
de Maria o Salvador…”

Com seu jeito simples, ela me ensinou a ser honesto, humilde, acolhedor, alegre, feliz, simples como ela… Foi ela quem me deu os meus primeiros livrinhos religiosos infantis, meu primeiro livrinho de Catecismo, minha primeira Bíblia, que guardo até hoje, com sua dedicatória… Sempre que passava nas editoras católicas, comprava um livrinho para o “netinho”… Quando meu primo Danilo nasceu, ele ganhou os mesmos livros que eu havia ganhado… Os mesmos, sem tirar nem pôr. Era uma coisa pedagógica. Se, hoje, sou um homem de oração, devo muito disso à Dona Inês. Ela era uma mulher de oração. Participante ativa da Paróquia, ali, do Alto do Mandú, junto com Tio Fernando. Ela estava sempre presente nos terços, nas missas, nas novenas…

Ainda me recordo de um quadro que ela me deu com uma oração que começava assim:
“Querido Deus, gosto muito de você,
Gosto do papai, da mamãe e de todos os meus amiguinhos…”

Nele, o menininho se ajoelhava, aos pés da cama, de mãos juntas. Eu fazia o mesmo…

A primeira oração que aprendi foi com ela. Era assim:
“Anjo de minha guarda, minha doce companhia,
Não me desampare nem de noite, e nem de dia”…

Dona Inês era como muito dessas senhorinhas que existem nas paróquias. Passam, às vezes, até despercebidas por nós. Chegam, sentam-se, rezam, quietinhas, seus terços, rosários, novenas, depois se vão, tão silenciosamente como chegaram. Por causa das orações delas, muita gente se converteu no mundo. Essas anônimas, mas poderosas intercessoras estão, graças a Deus, espalhadas pelo mundo, com seus terços nas mãos, com uma fé viva que dá até gosto de ver. É realmente de se admirar…

Ela não era dessas que gostava de aparecer nem de sair por aí gritando: “Olha para mim, veja como tenho fé!”… Mas sua fé era quase que inabalável. Quando na Canção Nova falamos de viver da providência, lembro-me de que ela vivia muito isso também. Esse total depender de Deus.

E, graças a Deus, que ela rezava, pois com todas as lutas que precisou enfrentar durante a vida, só com Jesus! Sua fé era muito concreta. Não era em nada “desencarnada”. Ela agia, para resolver as situações, mas rezava, sabendo que sem Deus nada acontecia. Ela foi uma das maiores “pechincheiras” que eu já vi na vida… Mas ela precisou aprender e fazer isso, pois o dinheiro era pouco. Lá era como em muitas casas no Brasil. A carne era contada. Um bife para cada um. E olha que ele era a metade do tamanho normal, e batido, batido, batido… Mas era assim que ela administrava a vida…

Mas, para mim, a maior qualidade de “voinha” era a sabedoria dela diante da família. Ela a amava com o olhar, com o sorriso… Sabia a hora certa de ser firme, de ser dura, e de ganhar os outros fazendo seus dramas (era dramática até não querer mais. Quando ela fazia aquela cara de choro, era uma coisa irresistível)… Sabia a hora certa de pedir com jeitinho… Essas coisas que só a vida ensina… Essas coisas que a mulher aprende… Mulher que é mãe, que é dona de casa, chefe de família…

Já não se vê mais essas qualidades hoje em dia. Atualmente, todo mundo quer ganhar pela força. As mulheres não sabem argumentar, pedir, e o famoso “jeitinho” delas está cada vez mais raro. Hoje, a “mulherada” quer ganhar tudo no “grito”. Já não se faz mais mães de família como antigamente. As pessoas não sabem ceder. Não entendem o termo “perder para ganhar”. Mas, “voinha” sabia muito bem o que era isso. E nos ensinava…

Quantas vezes eu a via dizendo:
– “Liane (chamava ‘mainha’ assim), tenha calma, tenha paciência!…”
– “Jane (o nome de minha tia), calma!…”

Assim, Dona Inês formava a sua família… E todos centralizavam a vida ao redor dela. Depois que ela faleceu, podemos ver o seu legado. Homens e mulheres de bem. Netos todos de bem (inclusive eu). Sinto muita falta dela. Não tínhamos muito essa coisa de beijo e abraço, mas a sua presença, o fato de saber que ela estava perto… Disso eu sinto falta. Era presente em toda a família…

E agora falo para você, amigo leitor, que tem os avós vivos: “Aproveite” bem deles. Olhe, agora, o que eles construíram. Olhe o “para que” eles deram a vida: Por seus pais, por você, por sua família. Ame-os. Escute-os. Aprenda com eles.
Acolha a experiência e o carinho deles. E passe mais tempo com eles!

Se você já não os visita há algum tempo, aproveite e vá à casa deles. Mesmo que tenham sido ausentes em alguma fase de sua vida (infância, adolescência, juventude…), busque-os… Vá atrás deles. “Beba” da riqueza que são os seus avós. Você, que é pai, cultive o amor e o respeito de seus filhos para com eles… É importante criar esse laço. É importante ser esse elo entre netos e avós. Também é seu papel!

Fico triste quando vejo alguém brigando com a mãe ou com o pai. Porém, o que mais me corta o coração, é ver um jovem ou uma jovem brigando com a avó ou o avô. Às vezes, até os maltratando… Primeiro, porque numa discussão desse porte, já se fere o princípio do respeito ao mais velho. Segundo, porque é alguém que já fez tanto por você ou por seus pais, e agora precisa de amor, de acolhida e de carinho… Não necessita da estupidez de um jovem, que mal veio ao mundo e já se acha dono da verdade! Para mim, é estranho ver jovens que não têm laços afetivos com os avós… De fato, amigo, isso me corta o coração.

É muito diferente a criança que cresce em contato com os avós, da que o faz longe deles. Tal diferença é psicologicamente comprovada. Louvo a Deus por essa referência ainda existir na minha família. Hoje, minha tia é vovó. E uma vovó maravilhosa. Também pudera, veio de uma boa escola. Os jovens que não têm contato com os avós perdem o respeito para com os mais velhos… E isso é péssimo! Muitas vezes, acham que são os donos do mundo, que sabem tudo e que conhecem tudo. Acham-se a “última coca-cola do deserto!” Desprezam a opinião dos avós, são duros, não têm caridade com os mais velhos… Paciência, então, é uma coisa que não existe. A situação dos idosos no Brasil já é muito difícil. Imaginem se não formarmos os jovens para aprender a amá-los e a respeitá-los, principalmente os que estão em suas casas? Como eles, que são o futuro da humanidade, irão cuidar de nossos vovôs e vovós? Acho que a grande dificuldade dos velhinhos de hoje começa em casa. Não são respeitados… Não são amados. Amaram tanto, deram tanto por nossos pais e, às vezes, por nós, e não são correspondidos.

Quando minha avó era viva, com grande prazer, eu tocava violão para ela, cantava suas canções, ficava ali com ela. “Gastava” (ganhava) meu tempo com ela. Claro, que como jovem e adolescente, muitas vezes, não “gastei” o tempo que poderia ter gasto com ela. Mas tenho consciência de que fui, sim, um bom neto. Não só eu, como todos os meus primos… Mariana, Eliana, Danilo, Carolina, Catarina…

Aprendemos com os nossos pais a amar e respeitar nossos avós. Precisamos ensinar os jovens e crianças de hoje a amar e a respeitar os mais velhos, a começar pelos nossos, os que estão em nossa casa, os que são da nossa árvore genealógica… E isso só irá acontecer quando os pais derem testemunho disso e formarem seus filhos com essa intenção. Por favor, pais, façam isso! Sei que alguns de nós crescemos com certas “pendências” a serem resolvidas com nossos pais. Isso também precisa ser resolvido, pois são pais. Nossos pais! Contudo, as crianças não podem viver afastadas dos avós, porque você quis que fosse assim. Avô e avó são importantes para o crescimento da criança. A experiência que a criança tem com o avô é diferente da sua! Não jogue seus traumas para seus filhos… Ao contrário, seja adulto, e não uma criança num corpo de adulto!

Por favor, netos, amem seus avós! Ame-os em vida! Não guardem gestos de carinho para manifestá-los na frente de um caixão.

Dedico esse texto a todos os vovôs e vovós do meu Brasil, e à minha árvore genealógica.

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