SANTUÁRIO DA VIDA 👫🏻

Família: a escola do amor verdadeiro

Queremos, hoje, nos entreter sobre o maior valor social da história, que é exatamente a família; toda a família, mas ainda mais a família cristã. O Padre Zezinho, em suas composições, tem ideias muito felizes e, em uma das suas canções mais bonitas sobre a família, ele diz: “…hoje eu vejo a maravilha de se ter uma família”, e emenda, triste: “quando tantos não a têm”.

Sabemos que a família, hoje, mais do que nunca, é atacada de todos os modos, especialmente pela opinião pública. E pelo fato de ela ser atacada, isso nos vem dizer que ela tem um grande valor; é uma das maneiras, até, de ver que é um grande valor, pois não se ataca o que não nos intriga ou o que não nos causa problemas. Então, parece que se quer mesmo esfacelar a família para que todas as ideologias, sistemas políticos, sistemas econômicos e a matança de crianças através do aborto sejam lícitos, e a isso se opõe exatamente o baluarte da sociedade, que é a família.

Foto: liderina by Getty Images

Os desafios e a ilusão do amor livre

Os ataques, naturalmente, não são a única das problemáticas que afligem a família. Hoje há muitos jovens que dizem: “Mas eu vou ter família para quê?”. É visto como um risco muito grande; acreditam que não dá certo ou que é um risco se amarrar sem poder se desligar depois e sem se sentir à vontade. O próprio fato de sentir esse risco já deixa a pessoa com uma suspeita de que seria melhor deixar a família de lado. Além desse medo de enfrentar o risco, a opinião pública conseguiu construir uma espécie de sistema onde se prega que vale muito mais o “amor livre”. Portanto, valoriza-se o amor apaixonado, o sentido de viver de paixão em vez de ter o verdadeiro amor; e a paixão, depois, desanda para o erotismo e este, como sabemos, desanda para os abusos de ordem sexual de todo tipo. Esta é uma lógica que, infelizmente, acontece.

A essência do amor verdadeiro

Gostaria de saber se o mundo sabe o que é o amor verdadeiro. Já perguntei a grandes assembleias se havia alguém que pudesse dar um testemunho de amor verdadeiro, exclusivamente altruísta, desinteressado e no qual não entrasse nada de egoísmo, ainda que fosse um egoísmo bem leve, e até hoje não encontrei quem tivesse essa coragem.

O exemplo supremo de Cristo

Gostaria de lembrar, por exemplo, um amor absolutamente puro: o de Cristo, absolutamente santo e absolutamente amor. Ele se faz presente na Eucaristia sob a forma de pão para alimento da humanidade e sob a forma de vinho para dessedentar a sede de infinito que temos. Ele, o Senhor do céu e da terra, assume a aparência de algo material, e este é um tipo de amor puro.

Outro exemplo de amor verdadeiro, total e de doação sem resquício de egoísmo, temos no alto da cruz, quando Cristo oferece toda a sua vida, o seu corpo e seu sangue e, no final, ainda reza pelos próprios algozes: “Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem”. Naquela hora, ninguém mais pode duvidar do amor absolutamente gratuito e desinteressado de Jesus.

A primazia da família sobre a sociedade

Afirmei que o maior valor social da humanidade é a família e, de fato, ela é anterior à sociedade. Grandes pensadores como Aristóteles, o maior filósofo da Grécia, já diziam: “A família é uma instituição anterior à própria sociedade”. Por isso, qualquer lei da sociedade contra a família é nula e inválida, porque é posterior à própria família. Portanto, legislar contra a família, como é o caso do aborto, do divórcio e coisas semelhantes, resulta em leis nulas por natureza, por serem posteriores à constituição da família, que é estabelecida pela própria presença de Deus dentro da história.

A família como imagem de Deus e semeadeira de vida

Na família, temos a beleza da imagem de Deus: o Pai, o Filho e o clima de amor. Temos, na família, normalmente, a presença de uma criança. Pensei longamente sobre o que a criança afinal é: todos os gestos e atitudes de amor passam, por mais sublimes que sejam, exceto um — aquele que se transforma em um outro ser de vida eterna. A criança é a perpetuação de uma atitude de amor que não passa nunca.

A aliança que os dois cônjuges estabelecem entre si não é um simples contrato; é um elo de amor e de vida. A família é, lindamente, a nossa melhor escola: a escola das virtudes sociais e humanas. Nela, aprendo a beleza da alteridade, da fraternidade e da solidariedade; aprendo a comensalidade, que é o comer à mesma mesa. Ah, se os homens entendessem que é preciso comer à mesma mesa e que todos têm direito ao mesmo pão e à mesma substância alimentícia que se distribui à farta pelo mundo, só que desigualmente! A simplicidade que existe na família é outro encanto, com sua linguagem própria e familiar. O sentido do bem comum também se aprende dentro da família, ou não se aprende mais.

A transmissão da fé e das vocações

Os valores cristãos, como a oração, começam normalmente dentro da família e desde pequeno. A própria fé é recebida como uma tradição santa e sacra que os pais nos passam pela graça e virtude de Deus. As vocações para os diversos ministérios em prol do bem comum e da Igreja, especialmente em prol da santidade das pessoas, são recebidas na família; ela é a primeira sementeira, o primeiro seminário das vocações. Não se pode falar de pastoral da juventude se não começarmos a tratar os jovens dentro da família numa perspectiva de serem apóstolos e pessoas qualificadas dentro da sociedade e da Igreja. Grandes empenhos proféticos devem ser feitos em prol da família, sabendo que ela é a imagem de Deus e copia a própria imagem de Cristo doando-se pela Igreja. Cristo dá à Igreja tudo: seus ensinamentos, sua vida e seu sangue; enfim, dá o seu “eu” todinho e, dessa doação, nascem milhões de filhos e filhas que são os cristãos. Este é o modelo da verdadeira doação que a família deve propiciar em sua constituição.

Acolhida, segurança e o compromisso matrimonial

É fundamental que a porta paterna nunca se feche. Essa acolhida cordial, de que o mundo moderno tanto precisa, é o ideal de uma sociedade. A segurança que temos dentro da família é um porto, um amparo e uma tutela que ninguém nos pode tirar se houver um grande liame familiar. Saber viver e saber morrer pela família é a maior doação e o altruísmo total que nela impera; um aprendizado que é anterior ao que se aprende na escola.

Ao abençoar matrimônios, recordo que as flores simbolizam a beleza da família, mas elas murcham, a comunidade de amor e de vida não pode murchar jamais. Os cônjuges, ao darem-se as mãos pela vida afora, encontram a estabilidade. A aliança no dedo recorda que as duas pessoas estão vinculadas para sempre, porque “o que Deus une, ninguém pode separar”. O juramento de fidelidade — “eu te amarei até a morte, em todas as circunstâncias da vida” — é o toque final do amor comprometido.

Conclusão

Poderíamos falar muito sobre a família, mas é preciso vivê-la. É necessário ter um coração, um espírito e uma noção real do que é viver em família. Desejo que todas as famílias sejam bonitas e abençoadas. Como é bom ter uma família!

 

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Dom Eusébio Oscar Scheid (in memoriam)
Arcebispo Emérito do Rio de Janeiro