A pedagogia da fé

Acabamos de celebrar mais uma Semana Santa. Desta vez veio cedo. Pelos cálculos do calendário, só em 2228 teremos de novo uma Páscoa no dia 23 de março. Mas não é preciso esperar tanto para nos dar conta de que ainda falta integrar melhor na religiosidade popular a rica celebração pascal, sobretudo a vigília pascal. É interessante ter presente que a “restauração” da Semana Santa precedeu a reforma litúrgica proposta pelo Concílio. Foi ainda em 1955 que o Papa Pio XII tomou esta iniciativa, que recolocou para a liturgia comum as ricas cerimônias que há muito tempo não faziam mais parte da tradição popular católica.

Este fato ajuda a compreender por que, sobretudo a celebração da noite de Páscoa, ainda apresenta dificuldades de assimilação por parte das comunidades. É um desafio para todos, quem sabe especialmente para os que se dedicam a acompanhar mais de perto a implementação da reforma litúrgica, encontrar maneiras adequadas de colocar a rica simbologia pascal mais ao alcance do povo, como propôs o Concílio, pouco depois da restauração feita por Pio XII. Mesmo que aos poucos a noite de Páscoa venha recuperando o lugar que merece nas celebrações da Semana Santa.

A maneira como os Evangelhos narram a ressurreição de Jesus é um modelo exímio do que poderíamos chamar de pedagogia da fé. Aquele “primeiro dia da semana” é paradigmático de todo o Evangelho. Ele se apresenta carregado de indícios que convidam a razão a refletir, e de sinais que nutrem a inteligência dos que já aderiram à fé. Assim é o Evangelho. Um respeitoso convite à razão e um substancioso alimento para a fé.

A narrativa da ressurreição cobre por inteiro aquele dia, desde a madrugada, até altas horas da noite. Isso se constitui num primeiro símbolo, cheio de significado.

Diz o Evangelho que Madalena foi cedo ao sepulcro, quando ainda estava escuro, em plena madrugada. Chegou tarde! Jesus já tinha ressuscitado. Por mais que madruguemos, Deus sempre nos antecede. “Deus nos amou primeiro”, constata João, um dos que naquela manhã correram logo ao sepulcro.

A madrugada da ressurreição é um convite a nos lançarmos cedo na busca do mistério da vida. Mas, por mais que nele mergulhemos, nunca o esgotamos. É o que simboliza a aparição do Senhor noite a dentro, depois de um longo dia, cheio de sobressaltos e de confirmação progressiva da esperança. A noite ainda abrigava a certeza definitiva, que permanecia inacabada e aberta a novas interrogações.

O mistério da vida nos incita a mergulhar em sua profundidade, sem que nele percamos nossa identidade pessoal. Mas o Evangelho, em sua pedagogia, apresenta também indícios para aqueles que ainda não abriram a porta do coração à gratuidade da fé. Pela insistência como é mencionado, o primeiro destes indícios é o sepulcro vazio. Ele se constituiu, com certeza, em fator de argumentação e de intriga. O Ressuscitado não se deixava perceber. Mas o seu sepulcro estava lá, vazio!

No seu primeiro sermão, no dia de Pentecostes, Pedro usa o argumento: o túmulo de Davi lá estava, e todos podiam saber que dentro dele se encontrava o corpo sepultado. Mas o túmulo de Jesus estava vazio, como todos podiam comprovar! Mas existe outro indício, que tem peso ainda maior que o sepulcro vazio. É de ordem cultural, mas nem por isto desprovido de grande significado histórico. Trata-se da mudança do sábado para o domingo. Ela seria impensável, sem um fato de todo contundente que a justificasse. Ainda mais tendo presente o rigor em guardar o sábado. O que teria levado os cristãos a este atrevimento impensável de trocar o dia santificado? A fé responde com serenidade: foi por causa da ressurreição de Jesus. A razão ajuda a perceber o alcance do fato. E cada um é convidado a se posicionar com coerência e abertura de espírito.

O Evangelho nutre a fé e respeita a razão. Sobretudo o Evangelho da ressurreição!

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