Trova: sua história e mensagem
O poeta é um fingidor
finge tão completamente
que chega a fingir que é dor
a dor que deveras sente.
Fernando Pessoa, Autopsicografia

Crédito: Garsya by Getty Images.
Os versos de Fernando Pessoa compõem uma trova moderna perfeita, com sete sílabas poéticas em cada verso, dadas as elisões que acontecem entre vogais chamadas fracas, contadas até a última tônica, e rimando o primeiro com o terceiro e o segundo com o quarto. Consciente ou não, a trova de Pessoa contém uma rima rica, pois usa um advérbio e um verbo (completamente e sente).
A trova possui uma longa e bela história. Há várias conceituações, mas a trova moderna definida pela União Brasileira de Trovadores (UBT) é rígida. Ainda que haja vários exercícios para lidar com a contagem de sílabas, o mais importante é que ela tenha valor poético completo. A mensagem deve ser clara, normalmente única. A trova não é usada, portanto, para divagações inconclusivas, muito frequente em outras formas poéticas. Além da rígida correção gramatical, precisa ter um fecho, um achado em seu quarto e último verso. O leitor é levado a uma pequena história, afirmação ou reflexão e termina a leitura satisfeito, atendido pela mensagem que se quis transmitir.
O site Falando de Trova (https://falandodetrova.com.br/), mantido a duras penas por José Overney, é o mais completo agregador de informações e exemplos de trova, usado inclusive em tese acadêmica sobre o assunto. Ali são apresentados todos os concursos promovidos pela UBT. Os concursos são um excelente exercício para a trova, pois são todos de inscrição gratuita, sem restrições de idade, moradia ou qualquer outra condição individual ou social. Apenas – como regra – impõem um tema a ser seguido, que é uma palavra ou expressão que necessariamente precisa constar da trova.
A dificuldade de compor a trova é perfeitamente assim ilustrada por Adelmar Tavares, cuja vida está muito bem resenhada no Falando de Trovas (https://falandodetrova.com.br/adelmartavares):
Ó linda trova perfeita,
que nos dá tanto prazer,
tão fácil, – depois de feita,
tão difícil de fazer.
Adelmar Tavares
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Os três tipos de trova e exemplos
Pode-se pensar que a modalidade está em desuso, mas atividades junto aos mais jovens resultam em trovas amorosas muito ricas. Os adolescentes parecem gostar de externar suas paixões por meio delas.
As trovas se dividem em três tipos. Dois se agrupam em filosóficas e líricas, que são aquelas mais sérias, com caráter mais reflexivo ou amoroso, tipicamente. As de humor, o terceiro tipo, carregam forte tom de ironia, mas sem serem escrachadas, ofensivas ou desrespeitosas. Seguem exemplos próprios para ilustrar:
Noite de música e versos
neste encontro da saudade,
nos sons estamos imersos
para viver de verdade.
Adilson Roberto Gonçalves
Depois de um verso chinfrim,
aos poucos eu percebia
que as vozes dentro de mim
eram tudo poesia.
Adilson Roberto Gonçalves
Carnaval na juventude
era minha apoteose,
hoje, meu joelho só alude:
ficaram a artrite e a artrose!
Adilson Roberto Gonçalves
O Dia do Trovador é comemorado em 18 de julho, data de nascimento de Luiz Otávio, pseudônimo de Gilson de Castro, o cirurgião dentista que foi responsável pela ampla divulgação da trova nos anos 1950 e por fixar os princípios da trova moderna entre nós. Sua bela história pode ser conferida no site https://www.ubtcuritiba.com.br/luizotavio, junto com o de sua companheira, Carolina Ramos, que, aos 102 anos, continua trovando.
Adilson Roberto Gonçalves, pesquisador, cronista, poeta, trovador, membro da UBT-Campinas, mantém o Blog dos Três Parágrafos.




