TRIBUNAL DE JUSTIÇA

Por que os poderes da democracia ficaram evidenciados?

Quais são as prioridades da democracia e o que é a justiça humana?

Nos últimos anos os poderes que caracterizam a democracia ficaram em evidência de forma muito significativa, seja pelas tarefas que lhes são atribuídas pela legislação ou seja pela exposição de seus membros, num verdadeiro caldeirão de fatos e posições, com as respectivas notas dadas pela opinião pública e pelos meios de comunicação. Em tempos de ebulição política, cujo escoadouro esperamos encontrar nas próximas eleições, vemos homens e mulheres julgados a cada dia, tantas vezes condenados à revelia, outras vezes com suas eventuais culpas jogadas debaixo dos tapetes!

Um dos poderes, o judiciário, é hoje mais conhecido do que antes, deixando até saudade da discrição com que, magistrados, já foram reconhecidos e elogiados como instância última e definitiva na avaliação dos atos de pessoas e instituições. E justamente aqui, encontra-se uma das mazelas de nosso tempo, a excessiva exposição de pessoas constituídas em poder, justamente para significarem referências éticas, morais e sociais. Há um significativo desgaste, lamentável por deixar tanta gente perdida no emaranhado de leis, recursos, apelos e outros procedimentos. Nosso apreço e respeito pelos magistrados, lhes sirvam de apelo para que evolua, para o bem, sua atuação na sociedade; superando aquilo que hoje nos escandaliza, quando identificamos posições incoerentes com os valores maiores que esperamos vê-los representarem.

Por que os poderes da democracia ficaram evidenciados -

Foto Ilustrativa: sedmak / by Getty Images

Festa de Cristo Rei

A Solenidade de Cristo Rei, com, a qual, a Igreja nos brinda, traz consigo reflexões que podem iluminar o exercício do poder entre nós cristãos e também como luz a ser oferecida à sociedade. Deus é bom, justo e verdadeiro. Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, Princípio e Fim, Senhor da História e de todas as almas. Acolhê-lo como Senhor é condição de salvação e de felicidade. “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas as coisas vos serão dadas por acréscimo” (Mt 6, 33). Esta é a escolha mais digna e acertada de toda pessoa humana.

Todos os homens e mulheres deverão apresentar-se diante do Senhor, ao final de sua caminhada terrena, pois “está determinado que os homens morram uma só vez, e depois vem o julgamento” (Hb 9, 27). É o que chamamos “juízo particular”, no confronto alegre e ao mesmo tempo doloroso e purificador.

No final de tudo, sabemos que: “Deus pôs tudo debaixo de seus pés. Ora, quando ele disser: ‘Tudo está submetido’, então, o próprio Filho se submeterá àquele que lhe submeteu todas as coisas, para que Deus seja tudo em todos” (Cf. 1 Cor 15, 27-28). Quando a Obra estiver completa, no tempo só sabido por Deus, todos estaremos diante do Juiz Universal: “Quando o Filho do Homem vier em sua glória, acompanhado de todos os anjos, ele se assentará em seu trono glorioso. Todas as nações da terra serão reunidas diante dele, e ele separará uns dos outros, assim como o pastor separa as ovelhas dos cabritos” (Mt 25, 31-32).

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E aqui se encontra nossa alegria e nossa responsabilidade. Alegria porque o Reino de Deus é dado, vem do alto. Responsabilidade, pois pede nossa resposta corajosa e pronta. Passaremos pelo fogo do cadinho que será o confronto com o Senhor, mas será um exame totalmente libertador, pois aquele mesmo que é Juiz, é Pastor e Senhor  Misericordioso. A nós, na prova final, será exigido o que Ele revela  no Evangelho: “Em verdade, vos digo: todas as vezes que fizestes isso a um destes mais pequenos, que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes!” (Mt 25, 40). Temos toda a vida para exercitar a única coisa que não passa, o amor aos irmãos, consequência do amor a Deus e da procura do Reino de Deus acima de tudo.

O que falta na justiça humana?

O núcleo da proposta de Deus, que é o reconhecimento de sua presença, na certeza de que Ele nos vê e valoriza todos os pequenos gestos, sem exceção, com os quais O reconhecemos e servimos. Aos olhos de Deus, todos os subterfúgios, artimanhas, recursos, tudo fica “nu” diante dele. O amor de caridade, nascido de Deus, é o único capaz de restaurar as  relações humanas e sociais. Nele está a possibilidade de purificar, se as pessoas o aceitarem de coração aberto e sincero, todas as maldades e falcatruas existentes. Nele é possível puxar de novo o fio da meada, de tudo o que nos escandaliza na sociedade atual.

Sem as riquezas éticas e morais vindas do Evangelho, continuaremos a patinar na lama das opções ideológicas correntes; e os poderes humanos, sejam quais forem os sistemas políticos, estarão fadados ao fracasso. Permitam-nos dizer, com toda força: só o Reino de Deus, só o Reino de Jesus Cristo, fará com que as organizações humanas se consolidem. Ele não rouba nada de ninguém, não  prejudica as justas aspirações de dignidade, participação e liberdade, antes as eleva ao nível mais alto, do tamanho da  eternidade e as fazem preencher os vazios do coração humano.

Rezemos: Deus eterno e todo-poderoso, que dispusestes restaurar todas as coisas no vosso amado Filho, Rei do universo, fazei com que todas as criaturas, libertas da escravidão e servindo à vossa majestade, vos glorifiquem eternamente. Amém!


Dom Alberto Taveira Corrêa

Dom Alberto Taveira foi Reitor do Seminário Provincial Coração Eucarístico de Jesus em Belo Horizonte. Na Arquidiocese de Belo Horizonte foi ainda vigário Episcopal para a Pastoral e Professor de Liturgia na PUC-MG. Em Brasília, assumiu a coordenação do Vicariato Sul da Arquidiocese, além das diversas atividades de Bispo Auxiliar, entre outras. No dia 30 de dezembro de 2009, foi nomeado Arcebispo da Arquidiocese de Belém – PA.

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