O cuidado é algo a ser praticado durante toda a vida
A ação de cuidar é um movimento inexplicável que parte daquilo que é mais profundo e que está no interior da Criação de Deus. Os animais, por exemplo, com sua consciência reduzida, em relação ao ser humano, mas com grande instinto de conservação, cuidam de seus filhotes até o momento de serem capazes de autodefesa.
Entendemos, assim, que o cuidar gera e mantém a vida. O ser humano, com sua consciência desenvolvida, sua ampla capacidade racional, compreende que o cuidado vai além dos dias sucessivos ao nascimento, ou seja, é algo para se praticar durante toda a vida e, mais ainda, quando alguém está nos seus períodos de maior fragilidade (nascimento, doenças ou próximo à morte).

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Mas podemos nos questionar sobre por que cuidamos. Ou ainda, qual seria o melhor tipo de cuidado? Para essas respostas, podemos mergulhar na imensidão dos mistérios de Deus.
Primeiramente, recordar que Deus cuida constantemente de nós sem jamais se cansar. O cuidado de Deus vai além de um cuidado físico, revela-nos que somos realmente importantes para seu grande Projeto de Salvação. Não somos mais um no mundo, mas somos seus filhos e filhas. O cuidado que Deus tem por nós, sua criação, revela-nos o grande ponto-chave do cuidar: a dignidade humana.
Cuidar não é somente um auxílio para o crescimento, como fazem os animais, mas cuidar é, constantemente, auxiliar e fazer aparecer na vida do outro essa importância que ele possui porque é também uma criatura de Deus. Desse modo, cuidamos durante toda a vida porque temos uma dignidade que não se perde jamais, nem mesmo com a morte.
Qual seria o melhor cuidado?
E o melhor tipo de cuidado, qual seria? Certamente, aquele cuidado que vai além de um aspecto meramente físico, mas um cuidado espelhado no cuidado de Deus, ou seja, um cuidado integral (corpo e alma), como nos revelou Jesus Cristo ao curar integralmente aqueles que necessitavam de seu auxílio.
Infelizmente, vemos muitas formas de cuidar que acabam colocando em primeiro plano não essa ideia de dignidade humana vinda de Deus, mas uma ideia de cuidado baseada em situações sentimentais ou econômicas. Aqui, corremos o risco de nos diminuirmos como ser humano, abafando a nossa dignidade.
Não podemos jamais reduzir uma vida humana em um sentimento, ou seja: cuido desta pessoa específica porque é alguém que eu gosto; ou ainda: não cuido dessa pessoa específica porque é alguém que eu não tenho bons sentimentos.
Nem podemos jamais reduzir o cuidado a aspectos econômicos como, por exemplo, cuido melhor porque esse tem condições de me pagar.
Quando entramos por esses caminhos, o cuidado humano perde o seu porquê e se torna apenas uma empatia ou um exercício profissional. É aqui que a chamada ética e bioética entram, para nos fazer enxergar novamente a beleza do cuidar da vida humana e como devemos nos comportar diante dela, não em apenas critérios protocolares, mas com a ideia de que, antes de olharmos para o como vamos ajudar, olhemos para a Pessoa que ali está necessitada de nosso auxílio. Eis o ponto central do verdadeiro cuidado: a Pessoa humana.
Pontos práticos que promovem a dignidade da pessoa humana
Olhar para a pessoa que precisa de nosso cuidado nos move interiormente a fazer algo. E é neste ponto que o fazer algo não tem como objetivo apenas o sarar ou mudar uma situação, mas, muitas vezes, o fazer algo é estar próximo a passar juntos por esse período de enfermidade.
Muitas vezes, o cuidar não será sinônimo de curar. Haverá situações em que o curar não é possível, mas o cuidar sempre será. Por isso, cuidar é também reconhecer a fragilidade do corpo humano e aceitar seus limites.
No âmbito dos pacientes com doenças graves e terminais, por exemplo, cuidar nunca será o fazer de tudo para manter uma vida, mas aqui o cuidar ganha o papel de se fazer o possível para atingir o bem daquela pessoa. Este é um ponto interessante, o “Bem” e a “Dignidade” do outro devem ser sempre a estrela polar que guiará nossas ações de cuidado.
O cuidado integral nos revela um verdadeiro caminho pelo qual devemos trilhar. Para isso podemos usar como direcionamento aquilo que chamamos de um cuidado personalista, ou seja, um modo de cuidar que nos apresenta alguns pontos práticos que promovem a dignidade da pessoa humana: autonomia, beneficência, não-maleficência e justiça. Esses quatro princípios devem nortear as decisões de quem cuida do outro.
A autonomia nos revela que a pessoa fragilizada tem sua voz que deve ser ouvida e orientada.
A beneficência nos recorda a prática de boas ações diante do cuidado, ou seja, fazer o bem para a pessoa fragilizada.
A não-maleficência nos recorda que nossas ações de cuidado não podem gerar como resultado o mal ao outro.
A justiça nos recorda que o outro merece o tratamento adequado e que esse deve ser feito sem discriminação de qualquer tipo.
Com isso, utilizando esses princípios bases, podemos direcionar nossas atitudes para um melhor cuidado, sem faltas ou excessos.
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Cuidar requer intensidade e espiritualidade, proximidade e humanidade.
Por fim, o cuidado integral da pessoa humana nos direciona também ao cuidado daquilo que não se vê fisicamente: atenção ao emocional e ao espiritual da pessoa fragilizada. Muitas vezes, o sofrimento interior se torna maior do que a dor física, e é nesse ponto que devemos cuidar melhor.
Cuidar de tudo aquilo que se passa no interior daquele que está fragilizado. Jesus assim agia. A espiritualidade é essencial e deve acompanhar o tratamento terapêutico.
Confiar em Deus, seja qual for o destino diante da doença, é um importante passo para a cura física e espiritual. É triste quando alguém fragilizado não tem esperança nem perspectivas futuras. Viver se torna mais pesado do que a própria doença ou fragilidade.
Por isso o cuidar nos coloca neste movimento de enxergar além da doença. Não é criar esperanças falsas, mas dar ao outro o sentido da verdadeira Esperança: Deus. Se Deus nos criou e cuida de nós o tempo todo, Ele está nos guardando e nos protegendo.
Cuidar, portanto, é um ato que requer conhecimento; não apenas conhecimento teórico ou técnico, mas intensidade e espiritualidade, proximidade e humanidade. Façamos a nossa parte no verdadeiro cuidado. Cuidemos como Deus cuida. Sejamos os braços de Deus que atingem a vida do outro. O cuidado protege e gera vida, e não ameaça.
Pe. Rafael Spagiari Giron
Diocese de Amparo e Doutorando em Bioética pela Pontifícia Gregoriana em Roma



