⚖️ Equilíbrio

Maturidade emocional e amor cristão

A ligação da maturidade emocional com o amor cristão 

Uma realidade que podemos observar nas pessoas é que a maturidade emocional não chega com a idade. Deveria ser assim, ao menos é o que se espera de uma pessoa que com os anos aprendeu a agir de acordo com as virtudes, valores éticos, consciência reta, responsabilidade, controle, aceitação dos limites, e empatia. Entretanto, a idade não traz tudo isso, e, no decorrer da minha ação pastoral, na convivência e conhecimento de tantas pessoas, percebi esta “anomalia” que é a falta de maturidade emocional nas pessoas mais velhas. O amor é o centro e fundamento de nossa vida, nossa identidade cristã, pois o amor é o próprio Deus, o sentido de nossa vida. Perceber a ligação da maturidade emocional com o amor cristão poderá ajudar-nos no desenvolvimento de ambos em nossas vidas.

Créditos: Arquivo CN.

A maturidade emocional e o equilíbrio do amor: a si próprio, ao próximo e a Deus

O Portal do psicólogo traz uma definição interessante de maturidade emocional: “A maturidade emocional refere-se à capacidade de reconhecer, compreender e gerenciar as próprias emoções de maneira saudável e produtiva. Essa habilidade envolve a capacidade de lidar com desafios emocionais, construir relacionamentos saudáveis e tomar decisões conscientes. Uma pessoa emocionalmente madura consegue equilibrar suas emoções e reações, permitindo que ela enfrente situações estressantes com resiliência e empatia”. 

A maturidade emocional abarca o cuidado de si e do próximo, e isto só pode ser alcançado, para nós cristãos, se permitirmos que Deus faça parte da nossa vida e a oriente, então, para construir uma maturidade emocional precisamos equilibrar o amor a si próprio, o amor ao próximo e o amor a Deus. Este equilíbrio dá origem ao amor cristão, e tal equilíbrio ajudará a conquistar e a manter nossa maturidade emocional. 

Como podemos amar o próximo sem amar a nós mesmos?

Pensando no amor cristão recordei-me de uma conversa que tive com um irmão sacerdote a pouco tempo. Jesus resumiu a Lei em dois mandamentos: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração… Amarás teu próximo como a ti mesmo” (Mc 12,30-31); todavia, pensando na ordem das coisas escutamos do Apóstolo São João: “quem não ama o seu irmão, a quem vê, não poderá amar a Deus, a quem não vê” (1Jo 4,20); ora, a dedução clara e séria que na ordem, primeiro deveríamos amar o próximo como prova de amor a Deus, a ponto do Apóstolo Paulo dizer: “quem ama o próximo, cumpre plenamente a Lei” (Rm 13,8). 

 E na nossa conversa questionava-nos: e como podemos amar o próximo sem amar a nós mesmos? Chegamos à conclusão de que isso não era possível. Portanto, para um verdadeiro amor cristão, antes de amar o próximo é necessário amarmos a nós mesmos, ocasião em que poderemos amar o próximo e assim cumprirmos o mais importante dos mandamentos que é amar a Deus. Tudo isso para compreendermos bem a necessidade desse equilíbrio e a estreita relação da maturidade emocional e o amor cristão.

À definição de maturidade emocional

Retornemos à definição de maturidade emocional: “reconhecer, compreender e gerenciar as próprias emoções de maneira saudável e produtiva”, isto só pode ser alcançado através de um conhecimento profundo de si mesmo e só conhece verdadeiramente a si próprio quem se ama de verdade, e não é egoísmo, pois onde habita o egoísmo não pode habitar o amor. No pórtico de um templo em Delfos está escrito: “conhece-te a ti mesmo”, um escrito antiquíssimo que pode nos ajudar a refletir sobre o amor a si próprio. No Cursilho de Cristandade aprendi: “só se ama aquilo que se conhece”, então, só amamos a nós mesmos se nos conhecermos bem. 

Continua a definição: “essa habilidade envolve a capacidade de lidar com desafios emocionais, construir relacionamentos saudáveis e tomar decisões conscientes… com resiliência e empatia”

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E o amor ao próximo? 

Agora saímos da esfera pessoal e passamos à esfera relacional, onde podemos identificar o amor ao próximo, onde sempre estaremos cercados de grandes desafios e decisões para construirmos relacionamentos saudáveis, ou seja, a sabedoria de não usarmos o outro, mas construirmos uma amizade saudável e forte a ponto de nos ajudarmos mutuamente na caminhada deste mundo. 

E ainda, o amor da amizade pode ser elevado pelo amor cristão a um amor máximo do ser humano, como o amor de Davi pelo seu amigo Jônatas: “Choro por ti, meu irmão Jônatas. Tu me eras querido demais. Teu amor me era maravilhoso, mais que o amor das mulheres” (2Sm 1,26); o amor custodiado por Deus deveria chegar a esta altura, ao ágape, ao amor incondicional. 

E tudo isso recebe o verdadeiro sentido por causa do amor a Deus. Como conhecer e amar a si mesmo? São João Paulo II disse que, “Jesus revela o homem ao homem”, portanto, conhecer Jesus é a ocasião certa de conhecer-se a si mesmo e realizar a grande máxima do oráculo de Delfos. E o amor ao próximo? Para chegar à grande estatura deste amor de amizade tão sublime como o amor entre Davi e Jônatas, só é possível se Deus for o centro deste amor, senão o amor humano, por si só, poderá se perverter em falsos amores. Podendo ser o último na execução, mas o primeiro na intenção e a razão e o sentido de tudo, o amor a Deus deve ser puro e verdadeiro: “Nós amamos, porque ele nos amou primeiro” (1Jo 4,19).  

Pe. Fábio Carlos de Araújo, Sacerdote da Diocese de Anápolis-GO

Mestrando em Liturgia pela Pontifício Ateneu Santo Anselmo em Roma