Há doenças que nos levam a perder o rumo da compreensão sobre fatos e situações
O ser humano é capaz de tudo! Nietzsche já o dizia: “Homens convictos são prisioneiros”. A maior das prisões pode ser a pessoa em si mesma. Há pessoas que carregam dentro de si doenças e realidades tão traumáticas que, por diversas razões, se perderam dentro de um mundo irreal — ou mais do que irreal —, cheio de fantasmas.

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A perda da consciência pode estar atrelada a diversos fatores
Uma consciência psíquica e moral não se forma de um momento para outro. A pessoa reformula sua identidade na medida em que o tempo passa; precisamente por essa razão, o conceito que afirma sua verdade vai sendo pautado pelas suas decisões.
Contudo, uma pessoa não comete atrocidades na vida por se encontrar com uma forte dor de cabeça. A pessoa atroz parte de uma situação limítrofe que, por ausência de uma clara e condizente consciência, modifica o rumo do que parece real, mas para ela não é.
Um genocida pode pensar que, ao cometer tal genocídio, ele ou ela esteja fazendo o bem. Nenhum genocídio é admissível, mas, para o ser sem consciência moral e psíquica estabelecida, esse ato em concreto é até um ato altruísta. Vemos isso nas revoluções nas quais gerações inteiras foram dizimadas, raças tentaram ser destruídas e pessoas foram perseguidas por sua condição social ou racial. Atrocidades já foram cometidas em nome de Deus, da ciência e até de um sentimento fantasiado de terapia ou ajuda.
Todo crime atroz pauta-se na agressão profunda de quem possui dentro de si um desequilíbrio insuportável
Pessoas com tendências criminais dessa índole possuem, além de uma atitude cínica, um comportamento cruel.
O psiquiatra Sándor Ferenczi afirma que os estudos sobre as atrocidades se concentram na dimensão da violência interpessoal real, especialmente no abuso infantil e nos traumas decorrentes de catástrofes coletivas, como as guerras. De fato, há um problema de compreensão. No seu texto mais famoso, Confusão de Línguas entre os Adultos e a Criança (1933), Ferenczi explica que a atrocidade do abuso acontece quando o adulto impõe a linguagem da paixão (carregada de erotismo, culpa ou agressividade) a uma criança que só conhece a linguagem da ternura (brincadeira e afeto). O trauma não se resume apenas ao ato físico, mas à violação psicológica profunda dessa assimetria.
Atrocidades podem ser evitadas — claro que sim —; o que infelizmente não se evitará será a formação de uma consciência atroz em quem não é capaz de amar e saber-se amado.






