Com alegria e muita responsabilidade, eu me dirijo a vocês, meus irmãos em Cristo, a fim de refletirmos um pouco sobre o ser artista
Uma palavra que ao longo do tempo foi tendo um sentido e uma visão pejorativa para alguns, querendo se utilizar dessa palavra para definir o “estrelismo”, a fama, mas, será que o ser artista se resume a isso?

Crédito: gorodenkoff / GettyImages
Vejamos o real significado da palavra artista: “Vem do italiano artista, derivada do latim ars (que significa arte, técnica ou habilidade). A palavra significa, de forma direta, a pessoa que cria obras de arte ou exerce, com habilidade, vocação e sensibilidade, uma das belas-artes, como pintura, música, teatro ou dança”.
Na carta aos artistas, São João Paulo II nos diz: “Qual é a diferença entre «criador» e «artífice»? Quem cria dá o próprio ser, tira algo do nada — ex nihilo sui et subiecti, como se costuma dizer em latim — e isto, em sentido estrito, é um modo de proceder exclusivo do Onipotente. O artífice, ao contrário, utiliza algo já existente, a que dá forma e significado. Esse modo de agir é peculiar do homem enquanto imagem de Deus. Com efeito, depois de ter afirmado que Deus criou o homem e a mulher « à sua imagem » (cf. Gn 1,27), a Bíblia acrescenta que Ele confiou-lhes a tarefa de dominarem a terra (cf. Gn 1,28)” … e ainda: Por conseguinte, Deus chamou o homem à existência, dando-lhe a tarefa de ser artífice. Na criação artística, mais do que em qualquer outra atividade, o homem revela-se como «imagem de Deus», e realiza aquela tarefa, em primeiro lugar, plasmando a «matéria» estupenda da sua humanidade e, depois, exercendo um domínio criativo sobre o universo que o circunda. Com amorosa condescendência, o Artista divino transmite uma centelha da sua sabedoria transcendente ao artista humano, chamando-o a partilhar do seu poder criador. Obviamente, é uma participação que deixa intacta a infinita distância entre o Criador e a criatura, como sublinhava o Cardeal Nicolau Cusano: “A arte criativa, que a alma tem a sorte de albergar, não se identifica com aquela arte por essência que é própria de Deus, mas constitui apenas comunicação e participação dela”.
O poder da criação é exclusivo do Criador
Só Ele tem o poder de criar algo do nada. O artífice, por sua vez, capacitado por Deus, dá vida, forma, beleza a obra da criação. O salmista vem nos dizer: “Cantai-lhe um cântico novo, tocai a cítara com arte, bradai” (Salmo 33,3). Ou seja, uma vez que fomos capacitados por Deus, nós artistas temos o compromisso, a responsabilidade e o dever de nos esmerarmos em nossa arte, buscando estudar, aprofundar-se, evoluir cada vez mais, pois temos a missão de revelar o Belo, que é o próprio Deus. Por isso não há espaço para negligências, desleixo, preguiça. Não! Nós artistas temos um compromisso com a beleza; e já dizia o filósofo e escritor russo Dostoievski: “A beleza salvará o mundo”. A nossa arte tem a finalidade de elevar as almas para Deus, de proporcionar àqueles que nos são confiados o encontro pessoal com Jesus Cristo. Com certeza, padre Jonas nos diria: “Não é brincadeira, é coisa séria!” Parece que estou ouvindo o ecoar de sua voz nessas palavras de exortação a nós artistas. Trago aqui ainda São Tomás de Aquino, doutor da Igreja, pois, para ele, na sua obra Suma Teológica, a beleza depende de três pilares fundamentais ou condições objetivas: a integridade (perfeição), a proporção (harmonia) e a claridade (esplendor).
- Integridade (Integritas): Um objeto precisa estar completo e ter tudo o que lhe é devido. Se falta alguma parte essencial à sua natureza, ele se torna incompleto e, portanto, defeituoso ou carente de beleza.
- Proporção (Proportio): Também chamada de harmonia ou consonância. Significa que as partes de um ser devem estar devidamente ordenadas e em proporção correta entre si e em relação ao todo.
- Claridade (Claritas): Conhecida como esplendor ou luminosidade. Ocorre quando a forma e a essência da coisa brilham com nitidez, permitindo que a inteligência a reconheça e se encante com facilidade.
Em tempos de Inteligência Artificial, onde muitos tem se sentido “compositores”, eu questiono: onde está a alma do artista? Onde está a inspiração de um coração que busca, constantemente, a face do Senhor? Onde está a entrega sincera e generosa do artista que se derrama em suas composições? Aqui, falo aos músicos que tem “terceirizado” sua arte à I.A., que tem engessado suas composições, que não ouve mais a voz do Criador. Cuidado! Vimos nessa reflexão que a arte é um dom genuíno que nos foi dado por Deus.
Sejamos comprometidos com a nossa missão! Tenhamos um coração apaixonado pela arte e sejamos autênticos no transbordar da nossa arte.
Deus nos abençoe e nos inspire cada vez mais.
Juliana Moraes
Natural de Piracicaba/SP, é membro da Comunidade Canção Nova desde 2010 no modo de compromisso do núcleo e é também regente do Coral Canção Nova.






