Entre as dores e o automatismo do dia a dia, a verdadeira liberdade exige sair de si, desacelerar o olhar e assumir a responsabilidade pelas próprias escolhas
Nosso tempo é marcado pelo “subjetivismo relativista, sem normas, nem valores absolutos, fecha a pessoa no egoísmo, tornando-a prisioneira dos seus caprichos e prazeres, e, por isso mesmo, asfixiando-lhe a verdadeira liberdade e a capacidade de amar.” (Joseph Ratzinger, 2005).
O ser humano tem dificuldade de amar, sair de si, das suas dores e ir além. Sendo assim, as respostas perante a vida vão se tornando relativistas, automáticas.
Inevitavelmente, há dentro de nós essa dificuldade, por natureza, de amar o outro, respeitá-lo, ajudar aquele que é diferente de nós ou que não atende às nossas expectativas cômodas. Assim, o ser humano tende a fugir do sofrimento e dos incômodos da sua responsabilidade na vida, “a todo tempo o ser humano é impelido a fugir das suas responsabilidades” (Frankl, Sobre Sentido da Vida, p.123)

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Dessa forma, com nossa postura podemos dar ao outro a capacidade dele de existir, e assim nos construir! Ou podemos com nosso fechamento e respostas automáticas anular a capacidade de existência de ambos.
A dificuldade de contemplação também gera uma dificuldade de resposta
Hoje em dia, perdeu-se a capacidade de contemplar, de demorar o seu olhar acerca de si mesmo, do outro; postura, muitas vezes, resultante de um ativismo e um modo relativista de enxergar o mundo e o outro.
Dessa forma, somos convocados a aperfeiçoar a nossa capacidade de contemplar em todo tempo.
No verão de 1997, João Paulo II convidou a passar uns dias com ele, em Castelgandolfo, um casal de amigos poloneses, velhos companheiros de luta pela fé e pela liberdade, Piotr e Teresa Malecki. “O quarto deles – relata George Weigel – ficava mesmo por baixo do seu e, todas as manhãs antes de amanhecer, sabiam pelo baque surdo da sua bengala que já se tinha levantado. Certo dia, à hora do café da manhã, o Papa perguntou-lhes se o barulho os incomodava. Responderam-lhe que não, pois, de qualquer forma, já tinham de se levantar para a missa.
Mas, Wujek – perguntaram –, por que você se levanta tão cedo?
“Porque – disse Karol Wojtyla – gosto de contemplar o amanhecer”.
Quando se deseja contemplar uma bela paisagem, um amanhecer, a escalada de uma montanha, exige-se o sacrifício da disposição para contemplar algo que está fora de mim.
E assim é a resposta que precisamos dar frente a vida, precisamos sair do modo superficial e adentrar uma postura mais profunda, refletir mais as nossas ações, nossas respostas, nossa existência em si.
Enquanto vivermos, teremos o que perdoar e curar em nós; sendo assim, precisamos buscar os instrumentos que podem nos favorecer a viver melhor nossa caminhada de vida, de fé, procurando ajuda, terapia, retiros, atendimento, confissão, praticar hobbies, enfim, cuidar de si tendo atividades que levam a uma reflexão interior.
Como diz São João Paulo II: “A liberdade foi dada ao homem pelo Criador simultaneamente como dom e como tarefa; com efeito, por meio da liberdade, o homem é chamado a acolher e a realizar o bem na sua verdade, escolhendo e exercendo o bem verdadeiro na vida pessoal e familiar […]. A liberdade é autêntica à medida em que realiza o bem na verdade; só então ela é um bem. Se a liberdade deixa de estar ligada à verdade e começa a fazer-se depender de si mesma [“faço o que quero e porque quero” – dizíamos], colocam-se as premissas de nefastas consequências morais, cujas dimensões são, às vezes, incalculáveis”.
Como nos ensina Viktor Frankl, recebemos a identidade como uma graça se, esquecendo de nós mesmos, nos entregamos a uma missão
Se perdermos de vista nossa missão, também perdemos nossa identidade. Então, quando vivemos bem a nossa vida, a nossa identidade e missão, somos resgatados de nós mesmos e conseguimos viver com mais liberdade interior as nossas respostas, mesmo aqueles que já viveram dores profundas.
Com essa reflexão, convido você a ter de volta a autoridade sobre sua vida, colocando as dores, as memórias em seu devido lugar, porque nossas vivências são uma parte e não o todo da nossa existência.
No campo de concentração, por exemplo, nesse laboratório vivo e campo de testes que ele foi, observamos e testemunhamos alguns dos nossos companheiros se portarem como porcos, ao passo que outros agiram como se fossem santos. A pessoa humana tem dentro de si ambas as potencialidades; qual ser concretizada, depende de decisões e não de condições. (Viktor Frankl, Em busca de sentido, pg. 88)
Desde modo, a pessoa humana sempre tem em potência a capacidade de se portar com dignidade diante das circunstâncias da vida, do diferente; enaltecendo a sua essência de encontrar o sentido da vida que é a própria vida à medida que realiza os seus valores que restauram a sua dignidade.
Em princípio, portanto, toda pessoa, mesmo sob aquelas circunstâncias, pode decidir de alguma maneira no que ela acabará dando, em sentido espiritual: um típico prisioneiro de campo de concentração, ou então uma pessoa humana, que também ali permanece sendo ser humano e conserva a sua dignidade. (Viktor Frankl, Em busca de sentido, pg. 50)
Por fim, seja numa vida bem vivida cheia de amores e situações de paz, ou numa vida caótica marcada por dores e uma história ferida, em ambas existe a liberdade humana de escolher a forma como respondo em cada circunstâncias da vida.
Jamais deixe de enaltecer a sua essência, de encontrar o sentido da vida, que é a própria vida à medida que realiza os seus valores, restaurando a sua dignidade e marcando a sua existência e o legado que gostaria de deixar, afinal, quando partirmos desta vida, como gostaríamos de sermos lembrados?
Rafaela Rodrigues Marchiori Mendonça – (Rafaela Mendonça), esposa, mãe e missionária núcleo desde 2018 da Comunidade Canção Nova. Psicóloga, pós graduada em Análise Existencial e Logoterapia Frankiliana, atuante no setor do Núcleo de Psicologia interno da comunidade.

Referências bibliográficas:
Viktor Frankl, Em busca de sentido, pg. 50
Viktor Frankl, Psicoterapia e Existencialismo, pg. 63
George Weigel, Testemunho de esperança, citado, pág. 696
Homilia na abertura do Congresso Eclesial da diocese de Roma sobre a Família, no dia 07.05.2005
João Paulo II: Memória e identidade, Ed. Objetiva, Rio de Janeiro, 2005, págs. 54-5




