Além das aparências: a jornada em busca da identidade interior
Caro leitor, gostaria também de alertá-lo que, ao discorremos nesta obra sobre a descoberta de seu potencial, de suas habilidades e, a partir destas, as possibilidades que podem existir à sua frente, não estamos, de forma alguma, nos referindo a qualquer tipo de projeção para obtenção de sucesso ou fama, status social, conquistas ou reconhecimento por parte das pessoas, nem de maiores chances de adquirir recursos e bens materiais, financeiros.

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Muito pelo contrário, o discernimento sobre a própria vida é muito mais profundo do que tudo isso e trará um entendimento interior, num diálogo entre você e sua consciência, e entre você e o Senhor, na compreensão de quem você é.
O valor do ser sobre o realizar
Aquilo que o constitui como pessoa, quem você é no coração de Deus, está muito acima do que você pode executar, trabalhar, realizar ou do que pode significar para as outras pessoas ou ainda do quanto pode ganhar com isso. Para o Senhor, aquilo que você é será para sempre, não importa se você esteja ativo ou se esteja impossibilitado de desenvolver seus talentos. Deus o ama independentemente do que faz. Ele o ama desinteressadamente por aquilo que você é, simplesmente sem a obrigação de fazer nada.
Portanto, este texto não tem a pretensão de ser uma inspiração para você ser um vencedor aos olhos dos homens. Não! Tratamos aqui de identidade interior, de diálogo com Deus. Se esses dois quesitos o levarem a algum proveito na vida profissional, e, a partir daí, também a frutos financeiros e conquistas na vivência social, elas serão uma consequência, mas não a razão de vida que estamos propondo aqui.
A santidade no escondimento e o exemplo de Jesus
Aliás, para muita gente, a grande parte de nós, cumprir o próprio chamado significará viver uma vida comum no escondimento, longe dos holofotes da popularidade. Há muita santidade, muita felicidade e sentido existencial nos bastidores da vida. A maioria de nós irá levar uma vida comum aos olhos dos homens, e arrisco-me a dizer que Deus se agrada desse tipo de vivência. Jesus fugia da fama: “Quando Jesus percebeu que queriam levá-lo para proclamá-lo rei, novamente se retirou sozinho para a montanha” (Jo 6,15).
Ser reconhecido não é um mal por si mesmo. Jesus se esquivou da fama pela fama, que fizesse as pessoas enxergarem n’Ele algo diferente daquilo que era sua identidade. Muitas vezes, após realizar prodígios, o Mestre recomendava que não divulgassem quem Ele era. Vemos isso nos episódios da cura de um leproso (cf. Mc 1,44); dos demônios que expulsou (cf. Mc 1,34); na cura dos dois cegos (cf. Mt 17,9).
Ele não veio para ser o rei político que queriam proclamá-Lo. Embora a popularidade de Cristo significasse também a promoção no Reino dos Céus – quanto mais gente ouvisse dizer dos seus feitos, mais pessoas poderiam aderir a Sua palavra. Ele preferiu que os povos de todos os tempos conhecessem por uma experiência pessoal com a Sua misericórdia e com Seu amor. O conhecessem pela Sua morte e ressureição, verdadeiros dons de Seu amor, do Seu ser divino e salvador, e não pela ideia de obtermos prosperidade e favores, que, muitas vezes, acompanham os seguidores do Mestre.
Existem também pessoas famosas, como Monsenhor Jonas Abib, em que seu legado aponta para o Senhor e sua popularidade não é para ele mesmo. Em nosso mundo, será natural que algumas pessoas gozem de certa consideração e crédito do grande público.
Mas o que não podemos é viver em busca disso. Papa Francisco, Monsenhor Jonas, até mesmo alguns profissionais chegaram à notoriedade pela realização de sua vocação, buscaram ser aquilo que Deus desejou deles e não sonharam com a fama.
Dinheiro e sucesso: meios, nunca fins
Assim também é com o dinheiro. Não há mal em adquirir bens materiais e obter recursos financeiros. Eles são a materialização dos nossos esforços, dos dons que temos e que colocamos à disposição para servir a sociedade. Porquanto, a remuneração monetária é necessária para o nosso sustento e da nossa família. Mas não deve ser a finalidade última de nossa vida. Dinheiro não compra felicidade nem realização.
Recordo-me de uma bela lição que o pai de uma amiga me deu em minha juventude. Sua família tinha uma chácara e sempre convidavam nossa turma de amigos para passar os fins de semana com eles. Comíamos e bebíamos à vontade, além de usufruirmos dos aparatos que existiam nessa chácara. Eles nunca nos deixavam pagar nada.
Quando chegávamos lá, tudo para almoço e lanches sempre estava disponível. Vez ou outra, eu insistia com o pai dessa minha amiga para que ele nos deixasse contribuir, mas ele veementemente se recusava. Numa dessas vezes, ele me respondeu: “Vocês são amigos da minha filha, e gostamos disso porque vocês são boas companhias, vocês têm valores, e percebemos a amizade sincera de vocês com ela. Então, a razão de termos esse espaço é para cultivar isso para nossa família. Vocês também são a razão de possuirmos essa chácara, pois trazem alegria para nós. De que adiantaria ter esse lugar e tudo aqui se não fosse para dividir com nossos amigos? E isso não tem preço!”.
Aquele dia eu aprendi de forma “grandiosa”, por um testemunho concreto, de que o dinheiro deve estar a serviço do ser humano e não o contrário.
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O perigo da comparação na caminhada espiritual
Também não caia na tentação de se comparar com outra pessoa. Não fique olhando o que Deus dá a outro e não deu a você. Você já percebeu como temos a tendência de nos atermos à qualidade do outro e nisso acharmos que somos inferiores? Seu ser, a missão, os dons, o propósito de vida é o outro e a pedagogia do Senhor contigo também é diferente de qualquer outro indivíduo. Quando nos comparamos, nunca ou dificilmente levamos em conta as demoras e os sacrifícios que o outro teve que suportar para encontrar o seu caminho. A comparação não é nem nunca será um meio para se reconhecer.
Trecho extraído do livro “Entenda o plano de Deus para você”, de Sandro Arquejada.




