Série: Coração de Mulher

Uma mulher não precisa se fazer de vítima

Vítima é aquela pessoa que se sente inferior à realidade

Na realidade, existem dois polos bastante distintos entre eu e aquilo que não sou eu. Entre eu e o mundo que me cerca, entre eu e as circunstâncias, entre eu e as outras pessoas.

E a nossa postura na vida depende de como estabelecemos essa relação entre nós e os outros, entre os membros da nossa família e da sociedade, com as coisas, o trabalho etc. Depende de como estabelecemos essa relação entre nós e a realidade externa. A nossa maneira de sentir e viver depende de como cada um de nós internalizou essas duas partes da realidade.

Uma mulher não precisa se fazer de vítima

E uma das maneiras pelas quais aprendemos a nos relacionar com os outros é por meio de uma postura que podemos chamar de vítima, muito comum entre as mulheres.

E o que é a vítima? É aquela pessoa que se sente inferior à realidade. Sente-se esmagada pelo mundo externo, sente-se a coitada, a fraca frente aos acontecimentos.

Vítima é a pessoa que se acostumou a ver a realidade apenas nos seus aspectos negativos. Sempre sabe o que “não pode”, o que “não deve” e o que “não dá certo”. Sempre vê só a sombra da realidade. As vítimas têm uma incrível capacidade diagnóstica para perceber os problemas existentes, porém, uma incrível incapacidade estrutural de procurar o caminho e as soluções dos problemas, por isso os transfere para os outros.

Ela transfere para as pessoas, para as circunstâncias, para o mundo exterior seus sofrimentos sem conseguir assumir a responsabilidade do que lhe está acontecendo. Não assume o seu “pedaço” na vida e vive culpabilizando os outros pelo que está ocorrendo na sua vida e por seu modo de encarar a vida.

“Se o mundo não fosse do jeito que é, se tal pessoa não fosse do jeito que é, se o marido não fosse do jeito que é, se a esposa não fosse do jeito que ela é, se o filho não fosse do jeito que ele é, ela estaria completamente bem”, porque ela é a boa; os outros é que têm ineficiências e precisam mudar. Este é um jogo que se chama: “jogo da infelicidade da vítima”. A vítima é uma pessoa que sofre e gosta de fazer os outros sofrerem com o sofrimento dela. É a pessoa que usa as suas dificuldades físicas, afetivas, financeiras, conjugais, profissionais e sexuais –que fazem parte da natureza humana –, não para crescer, mas para chantagear as outras pessoas.

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As pessoas que se fazem de vítima estão sempre na postura de defensiva e de justificativa. Para não assumir seus erros, justifica-se, e de justificativa em justificativa paralisa-se, impedindo o seu próprio crescimento. A vítima é incompetente na sua relação com o mundo. Quando colocamos a responsabilidade total dos nossos problemas nas outras pessoas ou circunstâncias, nós tiramos a possibilidade de crescimento que existe em nós mesmos.

Muitas vezes, a vítima toma a postura de querer mudar as outras pessoas para não mudar a si mesma e encarar a sua realidade e o seu sentimento de solidão.

Isso acontece quando não nos percebemos responsáveis pela nossa própria vida em seus altos e baixos, no bem e no ruim, nas alegrias e nas tristezas. Quando defendemos a nossa felicidade a partir da maneira que os os outros agem. É quando condicionamos a nossa felicidade e paz interior ao comportamento e à ação dos outros. Sejam eles nossos amigos, nossos pais, nossos cônjuges, colegas de trabalho, nossa comunidade e outras pessoas com as quais nos relacionamos.

E como essas pessoas não agem de acordo com o nosso padrão, sentimo-nos coitados e sofredores. A melhor maneira de sermos infelizes é acreditar que compete a alguém nos dar felicidade, o que é uma grande mentira. E assim mascaramos nossa vida frente aos problemas. Usamos uma máscara para não assumir e não encarar a realidade difícil quando ela se apresenta.

Toda relação humana é um via de mão dupla; eu e a sociedade, eu e a família, eu e o mundo que me cerca. E o fato de que o mundo me apresenta aspectos negativos não quer dizer que eu seja perfeito e o resto do mundo imperfeito; e o fato de eu possuir uma ineficiência não quer dizer que os outros não a possuam.

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O maior mal que fazemos é usar as limitações de outras pessoas do nosso relacionamento para não aceitar a nossa própria parte escura. Assim usamos o sistema como “bode expiatório” à nossa acomodação e sofrimento.

A vítima transformou a sua vida numa grande reclamação. E sua forma de agir e de pensar é sempre de uma forma queixosa. É a maneira mais cômoda para não resolver os problemas. Quando usa seu próprio sentimento para controlar o sentimentos das outras pessoas,  coloca-se como dominada, como fraca, para assim dominar o sentimentos das outras pessoas.

O que mais lhe caracteriza é sua falta de vontade de crescer. Sofrendo de uma doença chamada perfeccionismo, que é a inaceitação ou intolerância com a imperfeição humana, ela desiste de seu próprio crescimento, torturando-se como uma imagem perfeccionista do que deveria ser e tortura também os outros pelo como as pessoas deveriam ser.

Há uma tentativa na vítima de enquadrar o mundo e as pessoas no molde que ela própria criou, e toda vez que temos um modelo ideal na cabeça, evitamos entrar em contato com a realidade . A vítima não se relaciona com as pessoas da maneira que elas são, mas da maneira como ela gostaria que os outros fossem. É comum querermos que os outros sejam aquilo que não estamos dando conta de ser; o filho, a mulher, o marido, os amigos, sejam aquilo que eu não sou.

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Para sairmos deste padrão de comportamento, precisamos entender que as dificuldades e limitações do mundo externos são apenas desafios ao nosso desenvolvimento. Portanto, se assumirmos o nosso pedaço no mundo e estivermos presentes, tudo vai tomando outro sentido; assim como quanto pior for um doente, mais competente dever ser um médico; quanto pior for o aluno, mais competente dever ser o professor; assim, quanto pior for o sistema e a sociedade que nos cerca, mais competente devemos ser enquanto pessoas que fazem parte dela. Quanto pior for meu filho, mais competente como pai ou como mãe; quanto pior o marido, mais competente deve ser a esposa; quanto pior a esposa, mais competente o marido e assim por diante. Portanto, deixar de ocupar o papel de vítima é parar de delegar ao mundo e às pessoas que nos cercam a causa de nossas atribulações e problemas.

Basta pararmos de olhar para a imperfeição externa e termos a coragem de assumir a nossa limitação humana, é sermos capazes de deixar o orgulho que está escondido sobre a máscara da falsa humildade. É saber aceitar que a morte acontece, que a morte antecede a vida, que a semente morre antes de nascer e que a noite antecede o dia.

Todas as evidências da nossa vida mostram que o erro existe em nós, nos outros e no mundo. Mas o neurótico é aquele que não quer aceitar o óbvio.

Faça uma escolha inteligente por si mesmo e para que suas relações interpessoais sejam mais saudáveis. Pare de distribuir culpas e de esperar que o mundo e as pessoas ao seu redor mudem. Comece mudando a si mesmo, aceitando-se e assumindo sua própria vida. Se não pode mudar as circunstâncias ao seu redor, mude a sua forma de olhar para elas, viva intensamente o momento presente como se fosse o primeiro dia de sua vida e também como se fosse o último, peça a Deus a graça de ter um coração grato e aprenda a reconhecer todos os incontáveis presentes que a vida lhe oferece todos os dias; seja grato pela natureza que lhe cerca, pela sua família, pelos seus amigos, tal como eles. Aos poucos, você vai perceber que um novo alvorecer lhe espera e, assim, a vida poderá ganhar um novo colorido e um novo significado.

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Judith Dipp

Formada em Psicologia, Judith foi cofundadora da Comunidade de Aliança Mãe da Ternura e voluntária num Centro de Atendimento e Aconselhamento para Mulheres ( Montgomery County Counselling and Carreer Center), em Washington, nos Estados Unidos.

Atualmente, é psicóloga da Escola Internacional Everest, do Lar Antônia e da Congregação dos Seminaristas Redentoristas, todos com sede em Curitiba (PR), cidade onde reside.

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