Viver o presente, sem perder a visão do futuro

Faz um ano e alguns dias que Dom Luciano se despediu desse mundo. Foi no dia 27.08.2006. Rendo-lhe homenagem levando até o leitor dessa coluna o depoimento de Dom Luciano sobre si mesmo, depoimento falado em língua italiana, que aparece na publicação da Arquidiocese de Mariana, comemorativa dos cem anos de elevação à Arquidiocese.

“Em primeiro lugar, sinto-me chamado a viver o momento presente, sem perder, é claro, a visão do futuro. Sou um homem apaixonado pelo presente, enquanto sei que o presente não volta mais. O passado tem um valor, sem dúvida, na unidade da pessoa, o futuro possui a novidade da surpresa, mas o presente, o que é? È aquele momento de transparência da consciência, no qual uma pessoa é chamada a entrar em comunhão com Deus no evento, a partilhar o sofrimento e a alegria na presença de Deus. Isso me parece bonito: de um lado, porque a pessoa tem sempre algo a fazer, sendo chamada a viver o desafio do momento presente; do outro, tem um pouco de paz, porque cada momento leva consigo uma beleza especial, um pouco da graça de Deus.

Outra característica minha é que me deixo envolver mais pelo sofrimento do que pela alegria, não porque o sofrimento seja maior que a alegria, mas porque, sabendo com certeza quanto no mundo o sofrimento esteja presente no coração dos homens, sinto vergonha de viver os momentos de alegria. Parece-me que a alegria que existe nesse mundo seja um sinal daquela mais plena que um dia teremos, mas que hoje o chamado mais forte seja o de partilhar com os outros os momentos difíceis, o sofrimento, e, exatamente, no momento presente. Partilhar com os outros o sofrimento faz crescer em nós a experiência do amor: sinto-me chamado a viver o presente e, no presente, a partilhar o sofrimento, a doença, a solidão e, depois, a consciência que uma pessoa pode ter do seu sofrimento, da sua pobreza.

Depois de um dia de trabalho, estou cansado; porém, embora saiba que no dia seguinte terei várias coisas para fazer, se encontro uma pessoa que sofre, sinto-me impulsionado a ir visitá-la à noite. Nem todos entendem o quanto seja importante para mim a vontade de conhecer a grandeza de certa situações que, talvez, segundo outras categorias humanas, parecem pequenas. Não entendem que essas coisas me dão uma força nova para enfrentar os compromissos no dia seguinte.

Outra característica da minha pessoa é uma mistura de amor por esta vida e de desejo da outra vida.. Amor por esta vida, porque há muito a fazer, desejo da outra, porque é este mundo, onde há o pecado, que nos faz sofrer. É a mistura do presente com o futuro prometido que impede à vida de ser plena, enquanto a empurra par aquilo que ainda não existe: da mesma maneira, faz aparecer a verdade do seu ser e, ao mesmo tempo, sua situação incompleta”.

Ressalto as razões por que Dom Luciano era um apaixonado pelo presente. O presente é o momento da graça. O tempo que passa será um grande vazio se não for preenchido de amor. Amar só é possível no “agora”. Esse “agora” define permanentemente nosso destino. Dom Luciano procurou fazer do tempo o processo de assumir-se em entrega a Deus e ao próximo, privilegiando os mais sofridos.
O amor a esta vida em Dom Luciano não era apego, era ainda desejo de fazer o bem e o desejo da outra vida era desejo de que o sofrimento dos outros pudesse ter um fim. Tudo o que Dom Luciano fez e foi nesta vida revela-nos uma alma mística. Pois o místico cristão, mais que todos, sabe de sua condição de pecador e das dolorosas purificações pelas quais deveu passar sob o fogo da experiência do Deus-Amor.

Precisamente por conhecer Deus assim, o místico cristão é o homem da comunhão e da solidariedade. Sua solidariedade se manifesta na presteza com que vai ao encontro daquele que sofre e se manifesta na entrega que faz de si a Deus em silenciosa e orante imolação implorando sobre o mundo sua misericórdia, nunca o castigo. É alguém inserido na história, atento ao drama humano, portador das verdadeiras respostas para as questões que afligem a humanidade. Por isso os místicos marcam a história e exercem uma influência que se estende para o futuro adentro. Assim foi Dom Luciano.

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