Reflexão

São João da Cruz e as terceiras moradas

Reflita sobre os ciclos espirituais das terceiras moradas

Como foi explicado no artigo anterior, as terceiras moradas ocupam um lugar especial no caminho espiritual e encerram dois importantes ciclos: a via ascética e, dentro dessa, a via iluminativa. Elas são, portanto, uma continuação lógica dessas duas “vias”. Mas, também, apresentam novas luzes que servem de preparação para a via unitiva ou mística, que irá iniciar-se a partir das quartas moradas.

Neste artigo, veremos como São João da Cruz, o doutor místico da Igreja, pode esclarecer como nos prepararmos, ainda nas terceiras moradas, para abrir caminho em nossa espiritualidade para a vida mística. Aqui, começamos a deixar o “leitinho” da fé para para sermos introduzidos na alimentação sólida (1Cor 3,2).

São João da Cruz e as terceiras moradas

Foto Ilustrativa: Wesley Almeida/cancaonova.com

Por que São João da Cruz nas terceiras moradas?

De fato, as obras de São João da Cruz são voltadas para a união mística com Deus que, segundo Santa Teresa, se iniciam nas quartas moradas. No entanto, existem dois tipos de purificações ou “noites” que a alma deve passar: uma ativa, na qual a alma vai ao encontro da purificação; outra passiva, na qual Deus mesmo traz a purificação necessária. Em ambos, que fique sempre claro, é Deus quem opera. Só Ele pode nos santificar. A diferença é a atitude do cristão em relação a essa santificação, uma atitude ascética, isto é, limpar o terreno para Deus agir ou mística, agir a partir das orientações de Deus.

Trataremos, neste artigo, da primeira noite ativa dos sentidos. Quem realmente estudou os conceitos tratados nesta série: Caminho Espiritual e as Moradas, imediatamente entende que, essa noite, por ser “ativa”, só pode ser parte da via ascética e servir de transição para a vida contemplativa ou “passiva” que se seguirá. Para os que quiserem aprofundar-se, a doutrina dessa noite encontra-se na obra “Subida do Monte Carmelo”, livro primeiro, e será citada para consulta como S-I, seguida do capítulo e do parágrafo.

Criai em mim um coração puro (Sl 50,12)

Se, para poder habitar no castelo interior da alma, isto é, ter uma vida espiritual, deve-se vencer os pecados mortais e desterra-los do coração nas primeiras moradas, o grande objetivo das segundas moradas é o de superar os pecados veniais. As imperfeições precisam ser combatidas nas terceiras moradas. De um modo simples, chamamos de “imperfeições da vida espiritual” tudo o que vivemos, fazemos, gozamos ou sentimos que não são pecados (nem mortais, nem veniais), mas que não nos levam para Deus. Saímos, portanto, do “caminho da perfeição” e nos distraímos com bobagens. Se o primeiro e mais importante mandamento é amar a Deus com todas as nossas forças, toda a nossa capacidade e entendimento (Mc 12,30), fica claro o porquê precisamos tratar disso aqui.

A união divina, plena nas sétimas moradas, “consiste na transformação total da vontade humana na divina, de modo que, não haja nela coisa contrária a essa vontade, mas seja sempre movida, em tudo e por tudo, pela vontade de Deus” (S-I XI,2). Para que isso possa ocorrer, começa aqui, nas terceiras moradas, o desembaraçar-se de todos os apetites e desejos voluntários que não levam a Deus.

Como, nesta fase, o cristão é ainda muito ligado ao mundo sensível, é somente uma grande ânsia ou amor a Deus que pode impulsioná-lo para dar o verdadeiro salto no escuro. Ou seja, para libertar-se dos apetites e prazeres da natureza, só estando imensamente inflamado sensivelmente pelos bens espirituais. É, por isso, que São João da Cruz coloca nos versos da sua Subida: “de Amor em vivas ânsias inflamada”. Somente estimulando-se o sensível, o sentimento de amor, tomar-se-á impulso para elevar-se acima do sensível na vida mística (S-I XIV,2). Ou, como tão bem dizia Santa Teresinha, discípula fiel de São João: existe um elevador e, esse elevador, é o amor.

Esse amor, que se intensifica nas terceiras moradas, fornece as forças e determinação necessárias para promover-se a purificação dos sentidos da inteligência; da memória e da vontade; libertando-os de tudo que não é de Deus ou para a Sua glória.

Assim, para entrar nessa purificação ou noite ativa dos sentidos, é preciso cultivar um desejo contínuo de imitar Cristo em tudo (via iluminativa), rejeitar os sentidos e não alimentá-los (1Cor 7,29.31). Inicia-se uma mortificação consciente dos apetites e desejos (S-I XIII,4) que visa desapegar o coração das coisas do mundo e voltá-lo para Deus. Pois, somente quando se sair completamente da prisão das paixões e apetites que ainda provocam a alma, a mesma terá sua “casa sossegada” para começar sua união com Deus (S-I XV,2).

De Tobias a Jacó

São João da Cruz utiliza-se de duas passagens principais das Escrituras para esclarecer a necessidade dessa purificação.

A primeira está no livro de Tobias e fornece uma comparação bem clara sobre o que vamos tratando. Antes de consumar seu matrimônio com Sara, ou seja, antes da união de amor nupcial entre Tobias e Sara, passam-se três noites. Na primeira noite, semelhante a essa que examinamos nestas moradas, eles queimam o coração do peixe (Tb, 8,2). Para São João da Cruz isso significa que, para se elevar às coisas de Deus, temos de queimar no fogo divino do Amor tudo que é criatura, ou seja, todos os nossos apegos às coisas criadas.

De fato, amando qualquer coisa “criada”, nunca teremos espaço para amar o “incriado”. E, enquanto ocorre esse ato de queimar o peixe, como o arcanjo Rafael aprisionou o demônio que atormentava Sara, São João nos lembra que o demônio não tem mais poder sobre uma alma que se desapegou das coisas temporais e materiais.

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Mortificar os sentidos significa, portanto, parar conscientemente de sentir gosto e buscar prazeres nas coisas criadas. Essa noite de purificação serve para que, embora a alma não deixe de ver, de ouvir, de cheirar, de degustar, ela se recusa a ser dominada por esses sentidos. Ela começa a se comportar como se não os tivesse e, como bem lembra São Paulo, deixa de sentir afeição ou prazer nessas coisas, não importando se tem muito ou pouco, nem buscando sua própria satisfação ou prazer (Fl 4,12).

Os verdadeiros sentidos espirituais só se abrem se os naturais forem colocados no seu devido lugar, ou seja, forem utilizados para estar no mundo e não para ser envolvido por ele. São João da Cruz reflete que os israelitas reclamavam tanto do maná no deserto, que não descobriram seus “variados sabores”. Pois, ainda estavam com o paladar, a memória e o desejo nas iguarias do Egito. Não concentravam somente no maná o seu apetite (S-I V,3). Num paralelo, podemos usar a mesma reflexão sobre a Eucaristia que recebemos: por que não percebemos que esse pão “contém todo sabor” como diz São Tomás de Aquino? É, porque, ainda conservamos os “sabores” do mundo profundamente marcantes em nossa alma.

Enquanto a alma continuar colocando seus desejos e atenção nas criaturas, ou seja, enquanto não se purificar completamente, não poderá “possuir” Deus neste mundo pela pura transformação de amor, que se inicia nas quartas moradas, nem no outro mundo pela clara visão beatífica (S-I IV,3). Quer dizer: ou isto é realizado aqui, promovendo a subida no caminho espiritual ou, necessariamente, será realizado no purgatório.

Podemos ver, aqui, a terceira renúncia no caminho espiritual. A primeira foi a renúncia aos pecados mortais (porta para entrar no castelo e nas primeiras moradas); a segunda foi a renúncia a todos os projetos e planos pessoais para se seguir a Cristo (impulso para se entrar nas segundas moradas) e, agora, a renúncia ou despojamento de tudo que se possui ou é, purificando o entendimento, a memória e a vontade (S-I V,2).

O segundo exemplo das Escrituras para explicar essa “desnudez da alma” é tirado da história de Jacó, antes dele chamado de Israel (Gen 35,2), Deus lhe dá três ordens que simbolizam o que deve acontecer nesta preparação das terceiras moradas (S-I IV,3):

  • Primeiro, tirar do meio da nossa vida todos os deuses estrangeiros, isto é, rejeitar todos os apegos e afeições que ainda temos no coração por qualquer criatura ou coisa criada. Aquilo que ocupa a minha atenção e move a minha vontade e não é Deus, é um “deusinho” substituto. Cultivamos deusinhos que impedem nossa união com Deus, na mesma proporção que nos unimos a eles;
  • Segundo, purificar-se. Isto é, nesta noite ativa dos sentidos, precisa-se negar, rejeitar e arrepender-se de todos os restolhos de apegos e apetites. Antes de tudo, naquelas áreas que podem fazer voltar aos pecados veniais e mortais e, depois, em todo resto. Purificar-se conscientemente, significa voltar a atenção e o coração ,constantemente, para Deus e em todas as situações;
  • Por último, como consequência das duas primeiras ações, Deus trocará as nossas vestes, ou seja, mudará o que é velho em novo. Promoverá um novo conhecimento de Si mesmo e um novo amor a Ele. Pois, a Deus, não se deve oferecer um amor misturado com o amor do mundo (Lv 10,1).

Aqueles que quiserem se aprofundar, se convencer de como os apetites e desejos do mundo atrapalham a caminhada espiritual e impedem a união com Deus, leiam os capítulos de VI a X do primeiro livro da “Subida do Monte Carmelo”. Eles tratam, exclusivamente, sobre os prejuízos que os apetites causam à alma e como impedem seu avanço para as moradas de união.

No próximo artigo, veremos como se deve rezar nas terceiras moradas; e os níveis de oração que nos abrirão as portas para a via unitiva ou dia do amor.


Flávio Crepaldi

Flavio Crepaldi é casado e pai de 3 filhas. Especialista em Gestão Estratégica de Negócios, graduado em Produção Publicitária e com formação em Artes Cênicas. É colaborador na TV Canção Nova desde 2006 e atualmente cursa uma nova graduação em Teologia com ênfase em Doutrina Católica.

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