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Nossa Senhora é a Mãe de Misericórdia

“Salve, Rainha, Mãe de Misericórdia!… Esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei!…”

Os capítulos 11 e 12 da carta aos Hebreus nos apresentam uma longa lista de patriarcas, profetas e reis do Antigo Testamento que realizaram, pela fé, prodígios sem conta: “Graças à sua fé conquistaram reinos, praticaram a justiça, viram realizar-se as promessas; taparam bocas de leões, extinguiram a violência do fogo, escaparam ao fio da espada, triunfaram de enfermidades, foram corajosos na guerra e puseram em debandada exércitos estrangeiros; devolveram vivos às suas mães os filhos mortos…”. Por outro lado, todos eles “sofreram escárnio e açoites, cadeias e prisões; foram apedrejados, massacrados…” (Heb 11,33s).

Todos esses prodígios de fé fundamentam-se na misericórdia de Deus para com seu povo. Apesar da rejeição por parte do povo contra esses mensageiros, Deus permaneceu fiel à promessa, uma vez que “eterna é sua misericórdia”, e Deus, compassivo e misericordioso, conserva sua graça até mil gerações. O autor da carta contempla a seguir Jesus, que “suportou a cruz e sofreu tantas contrariedades dos pecadores” (Heb 12,2-3).

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Foto Ilustrativa: D-Keine by Getty Images

Uma figura, entretanto, faltou na carta aos Hebreus: Maria, a Mãe de Jesus. Ela, mais que todos os demais, “por sua fé, conquistou o Reino”: “Bem-aventurada és tu que creste, pois, se hão de cumprir as coisas que da parte do Senhor te foram ditas” (Lc 1,45). Como consequência, em torno dela giram os maiores prodígios de misericórdia realizados em favor da humanidade.

A misericórdia de Maria

Em sua pessoa, logo no momento da Anunciação, Deus Trindade, pela primeira vez, manifesta-se ao nosso conhecimento explícito. Com efeito, em Maria revela-se Deus Pai: “Não temas Maria, pois encontraste graça diante de Deus”. Em Maria revela-se o Filho Unigênito do Pai: “Conceberás e darás à luz a um filho, ente santo, que será chamado Filho de Deus”. Em Maria revela-se o Espírito Santo: “O Espírito Santo descerá sobre ti” (Lc 1,30-35).

Por essa razão, foi ela chamada de “Ícone do Mistério”. Sabemos que um ícone representava um tipo de pintura de Cristo ou de Maria, em uso na Igreja grega e russa, onde, por sua estrutura peculiar, era capaz de conduzir-nos a uma percepção mais profunda do mistério.

Na verdade, em Maria Imaculada converge, por assim dizer, num grande estuário, as misericórdias de Deus, manifestadas ao longo dos séculos em todas as páginas das Escrituras. Entre todas as pessoas humanas bíblicas, a que, por primeiro, mais concentra em si a misericórdia de Deus é certamente Maria. Através dela, colocada no centro dos acontecimentos, o mundo seria premiado com “a visita do Sol nascente”, Jesus Cristo, a fim de dar “ao seu povo conhecer a salvação, pelo perdão dos pecados, graças à ternura e misericórdia de nosso Deus” (Lc 1,77-78). Ela própria testemunha maravilhada: “Minha alma glorifica ao Senhor”. Desde agora a proclamarão bem-aventurada todas as gerações, pois “sua misericórdia se estende de geração em geração” (cf. Lc 1,50).

Maria, com Jesus seu Filho, viveu o paradoxo do amor em sua mais crua realidade. O profeta Simeão fora explícito: “Eis que este menino está destinado a ser uma causa de queda e de soerguimento para muitos, e a ser um sinal que provocará contradições, e uma espada transpassará a tua alma; a fim de serem revelados os pensamentos de muitos corações” (cf. Lc 2,34-35).

O amor infinito de Maria

Diz-se que o amor é paradoxal, porque a pessoa que ama se entrega às mãos da pessoa amada, perde-se nela, indefesa, assim que, se a pessoa amada não a salva, ela não se salva. Implica negação de si, esvaziamento de si, despossuir-se, renunciar a todos os títulos, em uma palavra, sofrimento, doce sofrimento como é experimentado pelos grandes místicos.

Com efeito, Maria, sendo desde sua concepção toda de Deus, Imaculada, cheia de graça, conscientemente, na resposta dada ao anjo, renovou sua entrega, aceitando perder-se em Jesus até o fim, até ao pé da cruz. Assim, sua entrega, expressa no início: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38), complementa-se no fim: “Junto à cruz de Jesus estava de pé sua mãe” (Jo 19,25).

Disse “conscientemente”, já que, por bem, duas vezes, o evangelista testemunha que “Maria conservava todas estas palavras, meditando-as no seu coração” (Lc 2,19.51). Ela, em nenhum momento, esteve inconsciente do que se estava passando e, desde o início, a espada ia transpassando seu coração. Com efeito, várias vezes Jesus repetiu que “o Filho do homem será entregue às mãos dos homens, e matá-lo-ão; e ressuscitará três dias depois de sua morte” (Mc 9,31). Dia após dia, a Paixão e Morte de seu Filho estiveram sempre mais presente em seu coração de Mãe.

A Mãe guardava em silêncio, em seu coração, palavras e acontecimentos, e os meditava. Além do mais, sofria também por não ter com quem partilhar, pois os discípulos “não entendiam estas palavras” (Mc 9,32). Ao contrário, por causa delas, Pedro desandou a repreender Jesus (Mc 8,32).

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A hermenêutica foi tão longe em suas hipóteses sobre Jesus, que chegou a introduzir na consciência de muitos que nem Jesus, muito menos Maria, sabiam de sua própria identidade, de sua missão. Maria, entretanto, como Mãe acima de todas as mães, não perdia uma palavra de seu Filho. E o Evangelho está cheio de relatos em que se anunciava a Paixão e Morte de Jesus em favor dos pecadores. Além do que recordei acima, há, por exemplo, as afirmações de Jesus, quando se compara ao Bom Pastor, sobre sua disposição de dar a vida pelos homens: “Dou a minha vida pelas minhas ovelhas… O Pai me ama, porque dou a minha vida para retomar. Ninguém a tira de mim, mas a dou de mim mesmo e tenho o poder de a dar, como tenho o poder de a reassumir. Tal é a ordem que recebi de meu Pai” (Jo 10,15-18).

Não terá Maria guardado essas palavras? Acaso Maria acompanhou Jesus em todas as vicissitudes, até o pé da Cruz, inconsciente do que estava se passando? Teria sido ela como a mãe inconsciente que nada teria guardado das palavras muitas vezes repetidas de seu Filho?

São Bernardo no-lo confirma em um de seus sermões: “Talvez haja quem pergunte: ‘Mas não sabia ela de antemão que iria ele morrer?’. Sem dúvida alguma! ‘E não esperava que logo ressuscitaria?’ Com toda a confiança! ‘E mesmo assim sofreu com o crucificado?’ Com toda a veemência!” (Cf Lit. das Hs, vol IV, p.1282).

Silêncio mariano

O silêncio de Maria fala mais alto. Em nenhum momento Ela deu uma de Pedro, escandalizada com as palavras de Jesus, pois não só as ia meditando, mas também as ia progressivamente compreendendo. Nenhum gesto ela fez para livrar Jesus da “ordem do Pai”. Ao contrário, de bom grado, ainda que esmagada pela dor de Mãe, oferecia “junto à cruz” a vida de seu Filho. E sendo que sua vida era a vida de seu Filho, ela, unida ao sofrimento de Jesus, oferecia-se junto com Ele pela humanidade pecadora. Consciente, oferecia-se.

Aqui está a medida do amor, da misericórdia da Mãe de Misericórdia. Dar a vida, com efeito, é a medida do amor, pois “ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos” (Jo 15,13). Se alguém pensar que ela não deu a vida, dever-se-ia dizer: Ela deu mais que a vida, porque deu a vida de sua vida, Jesus, seu Filho. Não qualquer filho, não qualquer sofrimento, mas um tal filho que sofre e morre de tal maneira.

Natureza agraciada como a dela devia estar dotada de uma sensibilidade extrema. Era, certamente, o extremo oposto dos que não conhecem Deus, que são gente “sem coração e sem misericórdia” (Rom 1,31).

Revelação do amor de Deus

João Paulo II, em sua encíclica Dives in misericordia, diz ainda que Maria, tendo experimentado de modo excepcional a misericórdia, participou também de modo excepcional, “pelo sacrifício do coração, na revelação da misericórdia divina”, já que “ninguém jamais experimentou, como a Mãe do Crucificado o mistério da Cruz” (Nº 50).

Finalmente, a misericórdia de Maria é de um valor humano inimaginável, pois representa para o coração humano o toque feminino da misericórdia. Trata-se, na verdade, da revelação daquela profundidade do amor de Deus, escondida de nossa cultura, que brota de um coração de mãe, revelado, sobretudo, em Isaias: “Pode uma mulher esquecer-se daquele que amamenta? Não ter ternura pelo fruto de suas entranhas? E mesmo que ela o esquecesse, eu não te esqueceria nunca” (Is 49,15).

“Esta revelação – nos diz a encíclica citada – é particularmente frutuosa, porque se funda, tratando-se da Mãe de Deus, no singular trato do seu coração materno, na sua sensibilidade particular, na sua capacidade particular, para atingir todos aqueles que aceitam mais facilmente o amor misericordioso da parte de uma mãe” (nº 62).

Padre Achylle Alexio Rubin

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