🌿 Domingo de Ramos

O solene cortejo do rei que chorou em seu jumentinho

Aproximava-se o tempo da Páscoa dos judeus e, por causa disso, a cidade de Jerusalém já se encontrava repleta por uma multidão de pessoas. Muitas delas experimentavam o cansaço da viagem, afinal, vieram em peregrinação de regiões bem distantes. Haviam caminhado por dias, sem descansar suficientemente bem. Com isso, a cidade estava se agitando cada vez mais. O comércio já achava-se aquecido; os vendedores e comerciantes faturando bastante com toda aquela abundante freguesia.

Jesus, é claro, também não poderia se atrasar para a Páscoa. Já era quarta-feira e ele ainda estava em Betânia, uma antiga aldeia da Judeia. Naquela localidade, aconteceu um gesto anônimo, mas surpreendente, de amor a Jesus. Uma mulher se aproximou d’Ele… Quanta ousadia! Em suas mãos, havia um vaso cheio de perfume de nardo puro. Certamente, possuía um alto valor comercial. Se aquela mulher tivesse derramado um pouco daquele valioso perfume em Jesus, já seria um grande gesto de devoção, porém, derramou-lhe até a última gota por sobre sua cabeça. Não reservou nada para si. Além de ousada, era generosa. Os motivos que a levaram a tomar tal atitude não importava, o essencial ela fez.

O solene cortejo do rei que chorou em seu jumentinho

Foto Ilustrativa: by Getty Images / sedmak

Àquela altura da vida de Jesus, Ele já não era mais o mero filho de José, o carpinteiro quase desconhecido da Galileia, que havia ensinado sua simples profissão para seu filho. Ele já era visto como o grande realizador de milagres da região, aquele que tinha, inclusive, ressuscitado um homem. Onde quer que Ele estivesse, uma multidão O seguia por toda parte.

Jesus em seu jumentinho segue para Jerusalém

Jesus, portanto, tomava a estrada velha de Jericó a Jerusalém em direção ao Monte das Oliveiras. Uma comitiva numerosa O acompanhava nesta pequena viagem; e à medida que caminhava, mais e mais pessoas iam se juntando a Ele na esperança de receber uma cura ou uma palavra profética. Com isso, as circunstâncias iam ficando mais propícias para uma majestosa recepção. A notícia de que o grande curandeiro Jesus se aproximava de Jerusalém chegara primeiro que Ele. Assim, uma multidão O seguia e outra O aguardava ansiosamente às portas da cidade.

Era muito comum, naquela época, receber as comitivas mais importantes com uma grande manifestação de estima e reconhecimento. Dessa forma, a comitiva poderia entrar na cidade em meio à festa e aos cânticos de alegria, assim, receberia a sua merecida homenagem. Que comitiva, aliás, poderia ser mais importante que aquela que tinha como integrante Jesus, uma das pessoas mais requisitadas e influentes da região? E, para completar, Jesus não se opôs em nenhum momento a todo esse cenário que estava se formando.

Ele mesmo escolheu o animal que O levaria no lombo, um simples asno que mandou trazer de uma aldeia próxima a Jerusalém. Num estalar de dedos, o cortejo se organizou naturalmente! Mais que depressa, os que estavam próximos de Jesus cobriram o lombo do asno com seus próprios mantos e ajudaram Jesus a montá-lo. Como não era mais possível emprestar o manto para que Jesus usasse no animal, muitos se colocavam à frente e estendiam suas vestes pelo chão para que o jumentinho pudesse pisar. Talvez, aquelas pessoas estivessem tão necessitadas de um milagre, que até acreditavam que, se o jumentinho de Jesus pisasse em suas vestes, a graça que elas tanto esperavam iria acontecer. Não foram, pois, curados muitos dos que apenas tocaram em Seu manto?

Com ramos e cantos de glória recebiam Jesus

Outros, ainda, corriam à frente do animal para ficar esperando o momento exato que Jesus fosse passar. Então, balançavam jubilosamente os ramos verdes de oliveira e de palmas que foram colhendo pela cercania durante o percurso que haviam acabado de fazer até aquele local. Enfim, Jesus fez uma entrada triunfante em Jerusalém, como o tão esperado Messias, porém, montado num simples asno. Em certo momento, enquanto a multidão aclamava Jesus com alegres gritos por causa de tão solene entrada, ainda montado no jumentinho, Jesus chorou (cf. Lc 19,41). “Por que Jesus estaria chorando?”, poderia se perguntar algum de Seus discípulos desconcertados pela cena.

Ora, o triunfo de Jesus não é como o triunfo do mundo repleto de vaidades e soberba. É um triunfo simples e pobre. Ainda hoje o exemplo dado por Ele causaria escândalo às famílias reais. Que rei deste mundo, a propósito, contentar-se-ia com um simples jumento como trono? De fato, não caberia à realeza deste mundo um reles asno como sinal de poder. Jesus fora desconcertante, e ainda o é!

Seu choro, contudo, não foi sem motivo. Quando o cortejo transpôs o cume do Monte das Oliveiras, Jesus pôde lançar os olhos em todo aquele panorama que se formava a caminho do Templo. Uma multidão de pessoas vibrantes e eufóricas por fora, mas completamente afundadas na ignorância e na cegueira! Tratavam-se não de lágrimas acusadoras ou raivosas, mas lágrimas de complacência e de misericórdia. Ele sabia que dentro de poucos anos aquela linda e efervescente cidade seria completamente arrasada. Nem mesmo o sagrado Templo seria poupado.

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O olhar de Jesus para a humanidade

Jesus lança este mesmo olhar a cada um de nós. Seus olhos de misericórdia jamais deixam de nos fitar. Quanto sinal Ele fez! Quanto milagre realizou! Quanto ensinamento nos deixou! Tudo Ele fez! Assim como Jesus foi ao encontro daquelas pessoas em Jerusalém, tantas vezes Ele saiu ao nosso encontro. Inúmeras graças realizou, amou-nos como nenhum outro foi capaz de nos amar. Quem de nós é suficientemente atento para perceber isso?

Tendo Jesus entrado em Jerusalém, poucas horas depois, aqueles ramos verdes e vistosos de oliveira rapidamente tornaram-se murchos. Onde foi parar aquela mesma alegria de quando Jesus fora recebido? Como aqueles gritos tão entusiasmados de “hosana!” puderam ter se transformado em enraivecidos gritos de “crucifica-o!”? E o que é pior, Jesus foi entregue por um de Seus discípulos, alguém que pertencia ao grupo de maior intimidade com o Mestre.

Apenas cinco dias se passaram desde sua entrada triunfal em Jerusalém, e aqueles que estendiam suas próprias vestes pelo chão para serem pisadas pelo animal que Jesus montava, são os mesmos que agora despojam as vestes d’Ele e expõem a Sua nudez. A nudez daquele homem humilhado, por sua vez, expõe as trevas que pode habitar o coração do ser humano.

Generosidade ou egoísmo

Jesus revela que, no interior de cada homem, pode habitar um profundo contraste, ou seja, cada um de nós é capaz do melhor e do pior. Basta relembrar o gesto anônimo daquela mulher que se deu por inteiro quando derramou sobre a cabeça de Jesus o que ela, provavelmente, tinha de maior valor: o caríssimo nardo puro. Ela poderia ter vendido o perfume e desfrutado de todo o dinheiro que porventura conseguisse, porém não o fez.

Por outro lado, veja o que fez um dos discípulos mais próximos de Jesus: por dinheiro, entregou seu Mestre. A traição de um amigo é particularmente mais dolorosa que qualquer outra. Judas preferiu algumas poucas moedas de ouro a Jesus. Eis o melhor e o pior que pode habitar no coração humano: a generosidade e o desprendimento, mas também o egoísmo e todo o tipo de maldade.

Concluo este breve artigo com um questionamento: o que estamos alimentando em nós, a generosidade ou o egoísmo?

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Gleidson Carvalho

Gleidson de Souza Carvalho é natural de Valença (RJ), mas viveu parte de sua vida em Piraúba (MG). Hoje, ele é missionário da Comunidade Canção Nova, candidato às ordens sacras, licenciado em Filosofia e bacharelando em Teologia, ambos pela Faculdade Canção Nova, Cachoeira Paulista (SP). Atua no Departamento de Internet da Canção Nova, na Liturgia do Santuário do Pai das Misericórdias e nos Confessionários. Apresenta, com os demais seminaristas, o “Terço em Família” pela Rádio Canção Nova AM. (Instagram: @cngleidson)