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Início da juventude de Edith Stein e suas crises

Queres estar “com os grandes” e sonhos de um futuro brilhante

Edith, em torno dos seis anos de idade, passa por mais uma perda: Erna, sua irmã mais próxima e grande companheira de brincadeiras, é enviada para a Escola Viktoria, para começar os estudos primários. Vendo que a sua filha caçula ficaria muito tempo sozinha, a mãe decidiu colocá-la em um Jardim de infância. Edith relata, em seus escritos autobiográficos1, que tomou isso como “algo que não correspondia à sua dignidade” (E.A. p.88). Ela queria estudar “com os grandes”, pois não se entrosava com as outras crianças e negava-se a brincar com elas.

A irmã mais velha de Edith, que cursou pedagogia e tinha acabado de se formar professora com excelente notas, procurou o diretor da Escola Viktoria e pediu-lhe para aceitar a pequena Edith a título de experiência. Foi assim que Edith começou, em 1898, um ano antes do recomendado, os estudos primários no Liceu Viktoria, em sua cidade natal, a Breslávia. Foi um grande desafio para ela, pois lhe foi requisitado, desde o primeiro dia de aula, saber escrever com pena e tinteiro, e ela não tinha nenhuma aprendizagem prévia. Contudo, após alguns meses. Edith já se encontrava entre os melhores alunos e, a partir do ano seguinte, ficava sempre com o primeiro lugar das notas da classe.

Ela nos conta essa fase da sua vida:

“Progressivamente a luz e a clareza cresceram no meu mundo interior. Tudo que via e ouvia, bem como tudo o que lia e experimentava, fornecia material para à minha imaginação para as mais audaciosas construções (…). Nos meus sonhos via sempre diante de mim um futuro brilhante. Sonhava com a felicidade e a glória, pois estava convencida
de que meu destino deveria ser grandioso; nada me identificava com o ambiente limitado e burguês em que nascera” (EA, p.84).

Início da juventude de Edith Stein e suas crises

Edith com sua irmã Erna (1899).

A primeira crise de Edith

Em 1903, em torno dos 14 anos de idade, Edith toma uma decisão que mostra um primeiro afastamento de sua família, especialmente da autoridade de sua mãe: ela resolve, conscientemente, mas em segredo, abandonar a religião, por não encontrar sentido nela. Edith descreve em seus escritos autobiográficos que só tinha sentido para ela o que pudesse admitir, sem hesitação, como verdadeiro. Acredito que tenha pensado dessa forma: como é possível experimentar e comprovar a existência de um D’us – dos judeus –, tão magnífico e tão distante, cujo nome não pode ser pronunciado, nem escrito? Edith prefere seguir sozinha em sua busca pela verdade, especialmente voltada para os estudos e para o seu mundo interior, onde ela guarda suas reflexões, sem compartilhá-las com ninguém.

Em 1906, com 15 anos, Edith atravessa uma crise pessoal em plena adolescência. Ela decide “ouvir a voz de um instinto seguro” que lhe dizia ter “passado tempo demais sentada nos bancos da escola” (E.A. p. 165). Naquele ano, havia ocorrido uma modificação no programa do ensino fundamental da Alemanha: Edith, junto com outras estudantes da sua faixa etária, perderiam um ano de estudos já feitos, para se enquadrarem no nosso cronograma. Isso a desmotivou muito e ela resolve, movida por mais duas razões, abandonar a escola e os estudos:

“(…) eu começava a preocupar-me com todo tipo de indagações, concernentes principalmente à minha concepção de
mundo, tema esse pouco abordado na escola. Mas a principal razão estava no desenvolvimento do meu corpo, que se
transformava” (E.A., p. 165).

Edith quis ir além

Essa fala de Edith revela como ela já possuía uma consciência do papel e missão do ser humano frente aos outros e frente à história, provavelmente motivada pelo conhecimento de grandes obras de literatura, de música clássica e peças de teatro, apresentadas pelos seus irmãos e irmãs, motivados pela mãe, em “saraus” familiares. Isso justifica a sua vontade de olhar para além e até de se afastar do mundo doméstico e burguês em que vivia, mesmo sendo muito amada e valorizada pela sua família.

Nota-se também que a primeira crise relatada por Edith teve sua origem na própria dimensão corpórea. As diversas crises que ela vivencia no decorrer da sua vida a ajudaram a compreender mais profundamente, e em primeira pessoa, cada dimensão da pessoa humana, analisadas pelo seu futuro mestre, o filósofo Edmund Husserl: corpo vivenciado, psique e espírito. Dessa sua primeira crise, no início da adolescência, ela conseguirá adquirir um olhar reflexivo, consciente, do próprio corpo, tomando-o por objeto de observação e integrando-o às suas outras dimensões, podendo reconhecê-lo como próprio, apesar de suas modificações. Sabe-se que as transformações do próprio corpo é algo muito delicado, especialmente na mulher, onde isso geralmente acontece de modo mais precoce do que nos homens. A mudança no corpo acontece antes das mudanças na alma – psique e espírito –, ou seja, externamente já se parece uma mulher, mas ela ainda pensa, reage e se percebe como uma menina. Edith, por ser muito sensível e observadora, percebe essa aparente contradição, e a vivencia de modo ainda mais profundo e doloroso.

Leia mais:
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Uma vida de boneca em Hamburgo

A mãe, vendo-a frágil e percebendo a sua inquietação, a envia para Hamburgo, na casa de Else, sua irmã mais velha, para ajudá-la a cuidar dos dois filhos pequenos. Edith permanece, de maio de 1906 a março de 1907, na casa de sua irmã e seu esposo, que tinha estudado medicina, especializando-se em dermatologia, e estava terminando a sua residência em Hamburgo.

Início da juventude de Edith Stein e suas crises

Edith, com 15 anos, ao lado de sua irmã mais velha, Else. Ela segura no colo sua sobrinha, Ilse, nascida em 1904, e Elsa segura seu filho Werner, nascido em 1906. Edith disse que foi à casa de sua irmã para lhe fazer companhia, ajudar e aprender como cuidar de uma casa e das crianças.

Edith conta o quanto ficou impressionada com os relatos de seu cunhado sobre as doenças venéreas que ele tratava nas mulheres de família, da alta sociedade de Hamburgo. Tais mulheres não sabiam que essas doenças eram transmitidas por seus maridos, que frequentavam prostíbulos. Naquele período começou a consolidar-se em Edith uma maior consciência da precariedade do papel social da mulher e da necessidade de sua emancipação.

Além disso, Edith pôde viver, pela primeira vez em sua vida, em um ambiente completamente ateu, pois Else e seu esposo tinham se afastado completamente de qualquer experiência religiosa. Cuidando da casa e dos sobrinhos, experimenta como é viver uma “vida de boneca”, em um ambiente burguês. Esse tema será abordado em uma de suas conferências, de 1931, onde ela apresenta o que seria a essência ou a “alma feminina”, analisando três mulheres com tipologias bem distintas, sendo uma delas, Nora: protagonista da famosa peça de teatro de Henrik Ibsen: “A Casa das Bonecas”. Nora vive uma vida fútil, voltada apenas para o exterior, passando do papel da “boneca preferida” do seu pai para a “boneca” de seu marido, tratando seus filhos também como bonecas. Mas Edith também vivencia, assim como a protagonista da peça, uma dimensão profunda, inerente à mulher, que é a de se realizar no cuidado do outro, assumindo a sua vida e ajudando a preservá-la.

Quando a sua mãe foi buscá-la para levá-la de volta para a casa, quase não a reconheceu, pelo tanto que Edith tinha crescido e se fortalecido. De uma menina, de porte fraco e raquítica, transformara-se em uma grande mulher. Edith, para a alegria da mãe, estava decidida a retomar os estudos para tentar ingressar na universidade. Ela tinha visto claramente que não queria viver uma “vida de boneca”, mas preferia fazer o que fosse necessário para tentar construir um “futuro brilhante” para si.

Para conhecer mais sobre a vida de Edith Stein, entre no nosso site: http://edithstein.com.br

Também oferecemos um aprofundamento no pensamento, vida e obras dessa grande filósofa e santa do nosso tempo: http://cursos.edithstein.com.br

Referências:

1 Edith Stein. Vida de uma família judia e outros escritos autobiográficos. Trad. Maria do Carmo Wollny  Renato Kirchner. Rev. Juvenal Savian Filho. São Paulo: Paulus, 2018. – Coleção Obras de Edith Stein. Esse texto será referido aqui por: EA (Escritos Autobiográficos). 

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