Juventude

Edith retorna à casa da mãe e aos estudos

Em março de 1907, Harald, o segundo filho de seu irmão Paul, adoece gravemente e, com dois anos de idade, morre vítima de escarlatina. Edith resolve voltar para estar perto de sua família naquele momento doloroso. Com bastante tempo livre, ela passa o seu tempo lendo os dramaturgos Grillparzer, Hebbel, Ibsen e Shakespeare (EA, p. 180)1 e desfrutando da companhia de sua irmã Erna e de seus primos gêmeos, Franz e Hans. Eles haviam chegado à Breslávia alguns anos antes para estudarem e tinham sido acolhidos pela Sra. Stein. Agora, eles estavam com 19 anos e trabalhavam em um banco. Assim que Edith retorna à casa, os gêmeos voltaram a frequentar a casa da família. Com eles, Edith tocava piano e praticava esportes, especialmente tênis e remo. Apesar de gostar muito da companhia dos primos, Edith não aprova quando percebe que eles levam uma vida libertina. Ela sabia bem das consequências que isso acarretaria para suas futuras esposas, tal como havia aprendido com seu cunhado em Hamburgo, especialista em doenças venéreas. Sente uma forte rejeição por essa pseudomoral, com pesos e medidas diferentes para homens e mulheres. Por causa disso, acaba afastando-se desses primos.

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Foto Ilustrativa: Graduate Theological Union. Edith Stein collection, GTU 2002-9-02

Edith, apesar de não estar frequentando nenhuma escola, ajuda a sua irmã Erna nas tarefas de redação. Leitora voraz, recorre aos livros lidos para sugerir temas à sua irmã. Desse modo, vai retomando o gosto pelos estudos e decide retornar à escola, com o objetivo de se preparar para passar nos exames e poder ser admitida na universidade. Era bem incomum naquela época as mulheres desejarem cursar uma universidade, e até muito pouco tempo elas eram proibidas. Mas a Sra. Stein, que soube superar essas barreiras criando seus filhos e administrando os negócios da família, não poderia deixar de motivar suas filhas e filhos a perseguirem os próprios sonhos. A mãe de Edith fica muito feliz com a decisão de sua filha e, logo, procura saber quais os exames ela precisaria passar para compensar os dois anos em que esteve afastada da escola. Ela contrata professores particulares de matemática e latim, e Edith se encanta com essa língua de tão pouca “utilidade” pelas suas regras fixas, sentindo como se estivesse aprendendo a sua língua materna. Ela fala desse período de estudos intensos com muita alegria:

“Os seis meses de trabalho incessante permaneceram na minha lembrança como o primeiro tempo feliz de minha vida. Isso tem, provavelmente, relação com o fato de que, pela primeira vez, minha energia intelectual foi totalmente usada numa missão à sua altura” (EA, p. 186).

Amizades fortes e duradouras de Edtih

Após seis meses de trabalho intensivo, Edith passa nos exames e consegue entrar na Obersekunda – a segunda classe do ensino médio, do Gymnasium, no Liceu Viktoria. Ao retornar ao ambiente escolar, dessa vez Edith não se sente isolada e logo constitui um grupo de amigas inseparáveis, que dará o nome de “trevo de quatro folhas”. O grupo era formado por ela e sua irmã Erna, que estava cursando o último ano do ensino médio, Lilli Platau e Rose Guttmann, que estavam no primeiro ano. Elas ajudaram Edith a conhecer os costumes do ensino médio e com elas criou e manteve relações fortes e duradouras, característica que Edith levará até o final de sua vida.

Em sua autobiografia Edith conta que ela, Erna e as duas amigas eram esportistas: jogavam tênis, adoravam remar nos lagos, faziam grandes caminhadas, especialmente nas montanhas. Esses detalhes são muito interessantes, pois quem vê as fotos de Edith Stein que chegaram até nós pode ter a impressão de que ela era uma mulher que desenvolvia apenas o seu lado intelectual, mas nela a intelectualidade estava integrada à vida do corpo, do espírito, da cultura, da arte, do bem-estar. Um outro detalhe: Edith gostava de usar com roupas bonitas.

Em 1910, a Sra. Auguste Stein havia conseguido fazer com que os negócios deixados pelo marido prosperassem bastante e enriqueceu a ponto de ser capaz de comprar uma grande e bela residência, apesar de estar situada em um bairro modesto. Talvez, a mãe pensasse que poderia acomodar ali seus filhos e, eventualmente, suas futuras famílias. Nos anos 30, Erna montou o seu consultório médico na parte inferior da casa, que hoje é propriedade da Sociedade Edith Stein.

O enriquecimento da família Stein não mudou em nada o hábito de acolher e ajudar pessoas que passavam necessidade. Alguns anos mais tarde, quando Edith já estava cursando a universidade, a mãe de Rose Guttmann, uma das amigas do “trevo de quatro folhas”, fica viúva e não tem mais condições de pagar os estudos universitários de matemática da filha. Edith pergunta à sua mãe se ela era suficientemente rica para pagar os estudos e a estadia de Rose, caso ambas fossem aceitas para cursar um semestre ou mais na universidade de Gotinga. Sua mãe concorda com alegria e Rose irá junto com Edith.

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Ingresso na Universidade da Breslávia

Em março de 1911, Edith termina seus estudos secundários e passa o exame de Abbitur. Faz o exame extraordinário de seleção para ingressar na universidade e é bem sucedida. Em abril de 1911, inicia os estudos universitários de germanística, história, propedêutica filosófica e psicologia, na universidade da Breslávia, com o desejo de buscar respostas à suas inquietações existenciais. Esse é um outro traço característico de Edith: ela não tem interesse apenas teórico nas disciplinas que escolhe cursar, mas procura respostas aos seus próprios questionamentos: ela sempre estuda “em primeira pessoa”. Daí se entende por que os escritos de Edith Stein são profundos e complexos, pois temos o hábito de ler autores que discorrem sobre objetos e teorias exteriores a eles, algo que ela não faz.

Conhecer a vida de Edith Stein, filósofa e santa da nossa Igreja, é um convite a penetrarmos em nosso próprio mundo interior para descobrir o que nos pertence realmente e o que nós incorporamos em nossa vida para agradar a outras pessoas ou menos para desagradá-las. Edith não era uma moça com temperamento fácil, mas ela era muito autêntica e sua vida se resumia à busca da verdade: sobre si, sobre os outros, sobre o mundo e, um pouco mais tarde, sobre Deus.

Dicas

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Referências bibliográficas:

[1] Edith Stein. Vida de uma família judia e outros escritos autobiográficos. Trad. Maria do Carmo Wollny e Renato Kirchner. Rev. Juvenal Savian Filho. São Paulo: Paulus, 2018. – Coleção Obras de Edith Stein. Esse texto será referido aqui por: EA (Escritos Autobiográficos).

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