Dom Alberto

Qual o serviço da estrela que conduziu os magos a Belém?

A estrela presta seu serviço quando as pessoas que assim se respeitam são capazes de compartilhar a luta por valores que dignificam a pessoa humana

O Presépio nos atraiu durante algumas semanas e só agora se completa, com o Dia de Reis e a recordação de outras manifestações do Senhor, no Batismo no Rio Jordão e nas Bodas de Caná, as três chamadas de “Teofanias”. Depois dos pastores, nos quais se fizeram presentes os mais pobres e humildes, o Evangelho e a Igreja nos apresentam os que foram chamados magos sábios ou reis, imaginados em três por causa do ouro, incenso e mirra que levaram a Belém. Foram-lhes atribuídos nomes e a responsabilidade de representar as diversas raças do mundo e a imaginação criativa das sucessivas gerações enfeitou de mil formas as suas figuras.

Qual o serviço da estrela que conduziu os magos a Belém?

Em nosso país, as diversas regiões fazem sua memória, dançam e cantam suas viagens, sua esperança e as alegres descobertas, nas Folias de Reis, Reisados e outras manifestações do folclore religioso. É que o Espírito Santo suscitou nos séculos passados preciosas tradições, a maior parte transmitida por tradição oral, com as quais os episódios da História da Salvação continuam a ser apresentados “ao vivo e a cores” em todos os recantos de nossa terra. Nos Magos chegados a Belém, estão presentes as multidões procedentes das periferias geográficas ou existenciais da humanidade.

Companheira fiel dos que das terras mais distantes acorreram a Belém foi uma estrela. Muito já se escreveu a seu respeito e os que estudam os astros podem oferecer detalhes que não ocorrem aqui, pois vale ressaltar o serviço religioso oferecido por ela, inclusive para dar sentido às muitas estrelas iluminadas dos dias que correm.

Estrela que faz o caminho de Belém, para que muitos encontrem o Salvador, o Rei nascido. Sua missão envolve os muitos homens e mulheres que nunca ouviram o nome de Jesus, e ainda uma imensa multidão sem qualquer referência religiosa. No coração humano, foi posta por Deus uma pergunta decisiva a respeito do sentido da vida, com questões que se desdobram em várias direções, com a adesão a uma escola de fé, outras vezes a indiferença e outras tantas até reações amargas. A estrela respeita tal situação e quer oferecer com humildade o serviço de apenas sinalizar que existe rumo, há metas dignas da grandeza do coração humano. Penso em pessoas com as quais convivemos e que hão de ser respeitadas em suas diferenças. Com muitas delas tive ocasião de dialogar. E o diálogo é sempre fecundo quando mutuamente se respeita o valor do outro! A estrela-guia conduziu a Belém de Judá homens das diversas raças que habitam esta terra, apontando para a fonte da fraternidade e da superação de todos os preconceitos, o próprio Deus feito homem.

A estrela presta seu serviço quando as pessoas que assim se respeitam são capazes de compartilhar a luta por valores que dignificam a pessoa humana. Podemos pensar no serviço oferecido ao mundo pelo Papa Francisco, quando, na mensagem para o Dia Mundial da Paz, celebrado há poucos dias, pôs o dedo na ferida da escravidão ainda existente, alertando as forças sociais a se unirem na luta contra esta chaga, propondo que todos sejam acolhidos, não mais como escravos, mas como irmãos. Sabemos o quanto este grito anima muitas pessoas e, graças a Deus, incomoda tantas outras! A estrela e sua mística não são cadentes nem decadentes! Elas permanecem acesas no serviço ao bem comum oferecido pela Igreja.

Estrelas que apontam para o mistério de Deus foram tantas pessoas que nos mostraram o caminho do bem, como catequistas, professores e professoras, bons amigos e boas companhias que foram verdadeiros luzeiros em nossa vida. Estrelas foram os inúmeros exemplos de retidão e lisura que nos foram oferecidos, em tempo de tanta lama, nas quais as pessoas se arriscam a se chafurdarem. Deus seja louvado por nos ter indicado o caminho do bem, e é importante começar o novo ano com os sinais sadios e otimismo nascido da fé, que ilumina nossa compreensão da vida, qual estrela guia para os novos dias.

São parecidas com a estrela de Belém as pessoas que ajudam os outros a discernir na vida, amadurecendo as escolhas a serem feitas. Penso nos jovens que durante o ano que se inicia definirão os rumos de sua vida e eu sonho, olhando para as estrelas, com famílias que os orientem numa perspectiva vocacional, fazendo-lhes a pergunta sobre a vontade de Deus. E esta vontade existe para cada pessoa, pois expressa o olhar de amor do Senhor para cada um de seus filhos e filhas.

A estrela conduz a Belém e de lá faz seus seguidores partirem por outras estradas, ao voltarem para sua terra, com a sabedoria necessária para não entregar justamente o tesouro mais precioso, a quem quer matar o Menino Deus. Iluminados pelo mistério do Natal e da Epifania, vislumbro os novos caminhos a serem percorridos, no exercício da criatividade e na docilidade ao Espírito Santo, pedindo ao Senhor as luzes necessárias. Desafios novos se apresentarão aos cristãos e a todos os homens e mulheres de boa vontade. A beleza do ano que começa estará nas surpresas, pelo que renunciamos a qualquer método de adivinhação ou pretensa previsão mágica. Interessante será viver um dia depois do outro, recolhendo as lições do quotidiano.

Enfim, a estrela renunciou ao defeito do estrelismo! Sua cauda iluminada é feita para mostrar o caminho. Sabe desaparecer na hora certa, depois exercer com fidelidade a sua missão. Esperamos que o ano de 2015 seja como um céu estrelado, com estrelas que não têm receio de piscar, num acende e apaga, jogo de amor, para o encanto dos olhos de Deus e da humanidade.

Rezemos com a Igreja: Ó Deus, que revelastes o vosso Filho às nações, guiando-as pela estrela, concedei aos vossos servos e servas, que já vos conhecem pela fé, contemplar-vos um dia face a face no céu. Amém!


Dom Alberto Taveira Corrêa

Dom Alberto Taveira foi Reitor do Seminário Provincial Coração Eucarístico de Jesus em Belo Horizonte. Na Arquidiocese de Belo Horizonte foi ainda vigário Episcopal para a Pastoral e Professor de Liturgia na PUC-MG. Em Brasília, assumiu a coordenação do Vicariato Sul da Arquidiocese, além das diversas atividades de Bispo Auxiliar, entre outras. No dia 30 de dezembro de 2009, foi nomeado Arcebispo da Arquidiocese de Belém – PA.

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