O sofrimento uniu mais a nossa família

Laércio Oliveira e Glória Amaral, casal membro da Comunidade Canção Nova falam sobre educação dos filhos e a superação da dor em meio a uma grave experiência de enfermidade.

Laércio: Os filhos são educados por aquilo que se vive. Os sacrifícios que você faz como pai, o filho começa a perceber. Então por causa disso, lá em casa nós sempre trouxemos tudo na verdade, claro que na linguagem delas. Mas nunca deixamos de trazer a verdade.

Glória: Uma coisa que eu acho muito legal é que elas foram compreendendo que a providência de Deus não acontece somente quando temos as coisas; mas também quando não temos ou perdemos, tudo é providencia de Deus. Sem mágoas, sem rancor, sem achar que Deus não está olhando para nós.
A Clarissa disse uma vez “na Canção Nova um dia temos tudo, no outro dia só temos o básico na nossa mesa…”.
Sei que muitos vivem até com menos do que temos, mas o que eu acho bonito é que Deus não permite que fiquemos sem nada.

Laércio: Dentro da educação que damos, precisamos ensinar aos filhos a agradecer pelo que temos. E eles também precisam perceber o esforço que nós, pais fazemos quando nos movimentamos para ser criativos por termos pouco.
Trabalhamos muito, quase não temos dias livres, os finais de semana sempre estão comprometidos.
Fiquei pensando e pedindo a Deus uma solução, então tive a inspiração de criar o dia da família. Toda terça-feira, era o dia em que eu ia andar de bicicleta, ia soltar pipa, ou inventava alguma para fazer junto com elas.


Ouça: Educação dos filhos e a TV


Lazer: Chegamos na Comunidade Canção Nova, em dezembro de 1991. Nesta época, não tínhamos parabólica, nem internet. Era mais difícil ter estas coisas. Digo isto para que você valorize mais a oportunidade de assistir a TV Canção Nova, pois muitos ainda não a tem. Então com relação à TV, nós colocamos um critério de nunca tirar sem substituir ou sem responder o porquê. Começamos a procurar os desenhos mais saudáveis que existiam na TV. Um grande perigo também é exagerar, deixando-os assistir televisão por muito tempo, apenas para ficarmos mais tranqüilos.

Os pais precisam explicar para os filhos por que não podem assistir este ou aquele programa. A criança é inteligente e quando os pais dão qualquer resposta, menosprezam a inteligência dos filhos. É preciso explicar sobre a violência, a mentira que existem em certos programas.
É interessante também brincar junto com os filhos, inventar brincadeiras para estar com eles.

“Sofrimento serviu para nos unir e não para desunir”
Laércio Oliveira: O amor coloca limites e é pelo limite que alguém coloca que sabemos o quanto somos amados. Quando você explica que não pode, isso é um sinal de zelo para que o filho não se machuque. E a criança vai entendendo que isso é uma demonstração de amor.
Eu tive um amigo, na adolescência que foi uma referência muito forte para mim em tudo isso. O pai dele lhe deu tudo, até cigarro, cocaína porque ele queria experimentar, então o pai promovia. E ele não se sentia amado, a maior crise dele era pensar “meu pai não se importa comigo”. O limite mostra que o pai ama o filho.


Ouça: O sofrimento com a enfermidade de Glória



Laércio: Com Deus também é assim, muitas vezes precisamos de limites para acordar, para repensar a vida, para retomar, para olhar para outros aspectos e no final perceber “Deus cuida de mim”.
O fato de a Glória estar com câncer agora tem sido uma demonstração do cuidado de Deus. Ele tem se anunciado, se manifestado gratuitamente. Com aquele que é fiel, o Senhor é fiel. ( II Samuel 22)
Quando você vive com Ele, mesmo que você seja incapaz de dizer algo, ele está ali.

Glória Amaral: Quando eu descobri que estava com câncer, uma coisa que eu não fiz foi me revoltar contra Deus. Não fiquei em depressão por causa disso, pelo contrário: encarei o câncer como uma virada na minha vida. Com a doença, pude ver pessoas que sofrem mais do que eu, pessoas que ficaram mutiladas, vi a dor do médico ao dar uma notícia triste. Vi muitos irmãos me acolhendo, me ajudando, tendo paciência comigo. A equipe do meu programa que está segurando de forma maravilhosa a produção. Quando eu descobri a doença, não quis a revolta, quis a Deus, quis a minha família comigo então foi uma virada na minha vida porque eu aprendi a estar mais em Deus.
O tratamento tem sido um exercício de paciência muito grande, e um exercício de confiar em Deus. Pois em muitos momentos era só eu e Deus, como na cirurgia que durou 5 horas. Eu estava desacordada e o Laércio, no quarto esperando em Deus, sem saber o que aconteceria. É um momento de entrega, sabendo que Deus está conosco.

Eu entendi que teria mesmo que passar por tudo isso, porque Deus não me curou logo de início. Passei pela biopsia, pela quimioterapia, vou fazer a radioterapia. Diante de tudo isso falei para o Senhor realizar a vontade dEle e não a minha.
Na peregrinação que fizemos à Terra Santa, quando fomos ao Getsêmani li numa placa “Afasta de mim este cálice. Mas faça a tua vontade”. Me vi nesta realidade, pois o cálice não foi afastado, mas eu decidi viver este Calvário de forma diferente.
Quando eu tenho vontade de chorar, eu choro e depois volto, porque eu optei por viver com um sorriso nos lábios. Porque não adianta viver na depressão, na tristeza, esta dor que estamos vivendo juntos serviu para unir a nossa família, e não para desunir.
Já choramos juntos, mas só colhemos a união e a certeza de que Deus está conosco.

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