eternamente

Deus é bom o tempo todo

Nesse mundo tudo parece ser efêmero, como a água que tentamos segurar com as mãos abertas e insiste em escorrer pelos dedos e cair no esquecimento. O mundo parece ser uma grande linha do tempo do Facebook ou a página principal de um portal de notícias. Num momento, algo que julgo importante está diante dos meus olhos, é meu foco, minha preocupação, minha riqueza. Num átimo não está mais lá, foi substituído, ressignificado, outra coisa foi alçada ao topo das minhas prioridades sem que eu sequer percebesse como, sem que eu tivesse total domínio sobre o que aconteceu.

Estamos num mundo em que as relações parecem passageiras, como roupas que antes serviam e agora estão obsoletas. Ideias e valores parecem perder a data de validade, como um iogurte que ficou tempo demais na geladeira. É uma crescente e dominante sensação de que há uma fila de atualização para os princípios, as amizades, as convicções, com versões novas em folha que substituirão o que nem teve tempo de ficar velho. Pelas regras desse mundo, parece que não importa muito o que mudou. O que é fundamental é que haja mudanças, que a versão passe da 1.0 para a 2.0. É como aquele carro modelo 2021 que você já pode comprar em 2020: você nem sabe o que foi que mudou, mas tentam convencê-lo de que a versão nova ficou mais legal.

Deus é bom o tempo todo

Foto ilustrativa: Anastasiia Stiahailo by Getty Images

Deus é bom o tempo todo, e isso nunca mudará

Essa ditadura da transitoriedade desestabiliza o homem, cria uma espécie de ansiedade, de inquietação, faz surgir na alma humana um espírito de revolução que pretende ser aplicável a tudo, como se para resolver os problemas fosse necessário apenas substituir, trocar coisas, mas esse espírito não cria nada, apenas destrói. Isso ocorre porque precisamos de certezas. Em nossa vida, se tudo é terreno instável, quando poderemos descansar nossos pés em terra firme? O corpo passa, mas a alma permanece, e ela só encontra paz no que é definitivo. Para dar sentido ao mundo, para equilibrar essa roda viva que dança ao sabor dos ventos que sopram de todas as direções, uma só certeza é necessária: Deus é bom o tempo todo. Basta essa novidade, que é tão nova quanto antiga, que traz o frescor próprio daquilo que é eterno e que portanto nunca mudou e nunca mudará. Deus é bom o tempo todo e isto é suficiente para dar sentido a esse mundo e mostrar quão inútil e deletéria é essa obsessão por coisas novas. Enquanto o mundo gira, a cruz permanece firme. Venha a doença, o medo ou a perda, a cruz permanece firme, a nos lembrar que Deus é bom o tempo todo. Um marido abandona uma esposa, uma criança morre na miséria, um pai de família fica  desempregado, uma pandemia assola o mundo e ainda assim Deus é bom o tempo todo e nenhuma tragédia, nenhum discurso, nenhuma ideologia mudará isso.

A cruz permanece firme, o mundo continua a girar. O sacrifício do Filho é a prova definitiva, o penhor do Amor inesgotável do Pai, a garantia para nós de que ainda que não consigamos compreender tudo, Deus não nos virou as costas, porque Ele é bom o tempo todo. Quanta segurança essa certeza deposita no coração de quem tem fé! Na angústia, não precisarei buscar conforto naquilo que é passageiro, nas efemeridades do mundo, porque sei que Deus é bom o tempo todo, e por isso tudo concorre para o meu bem. Não se trata de anular o sofrimento ou de fechar os olhos para a dor, mas de entender que o que de verdade importa não é transitório, não passa. Temos um Deus que é bom e que cuida de nós. Se não consigo identificar a Misericórdia de Deus num fato que me ocorreu, por mais doloroso que tenha sido, não é que Deus me esqueceu ou não foi misericordioso comigo. Não. Na minha limitação, eu simplesmente não consigo ver Deus ali, não consigo compreender por que ele agiu daquela maneira. Mas eu não ver nem compreender não muda Deus, não altera o fato de que Ele é bom o tempo todo. Cultivar essa certeza faz nascer a paz única e verdadeira no meu coração. Não estou só. Não fui abandonado. Ainda que os relacionamentos passem, as vidas humanas passem, os bens terrenos passem, Deus não passa, Deus é e isso nunca mudará.

Qual será meu próximo passo, Senhor?

Ainda que eu não compreenda, mesmo que não tenha sido como eu esperava, mesmo que eu não consiga ver Deus, Ele está comigo o tempo todo e Ele é bom. O mundo finge compreender todas as coisas e nós nos deixamos contagiar por essa mentira e queremos explicação para tudo, mas Deus é mistério insondável, e sobre Ele basta que saibamos: Deus é bom.

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Às vezes, uma dura perda me atinge e pareço ter sido vítima da sanha caótica do mundo, que quer tirar tudo de todos apenas para propor um alívio imediato para dor, uma nova panaceia a cada instante. Preciso então lembrar-me que o mundo agita-se violentamente e que só tem a me oferecer um pequeno barco, que vacila sobre as ondas, mas basta eu colocar os pés para fora dele e encontrarei terra firme. O mar desse mundo não é ameaçador se eu sei onde pisar. E se sei que Deus é bom o tempo todo, imitando Pedro, andarei sobre as águas e será exatamente como aconteceu com ele: não entenderei todas as coisas, vacilarei em alguns momentos, mas enquanto eu suplicar que o Senhor venha em meu socorro, não afundarei na tormenta do mundo, porque Deus é bom o tempo todo e segura a minha mão. Onde pisar então? Onde o Senhor quiser que eu pise. É só isso que preciso saber. Como sei que Deus é bom o tempo todo, não preciso ficar teorizando sobre qual o lugar mais seguro, mais estável, menos agitado. Para dar meu primeiro passo, basta que eu pergunte: onde queres que eu pise, Senhor? E em seguida: E agora, qual será meu próximo passo, meu Deus? E assim, um passo de cada vez, abandonado em Deus, devo caminhar fora da segurança
precária do barco do mundo, que só engana.

Minha oração, portanto, tem dois pedidos: que eu creia cada dia mais que Deus é bom o tempo todo e que eu ame a vontade de Deus para mim. Esses dois pedidos são suficientes para romper a insana fugacidade do mundo, que não para de girar, enquanto a cruz permanece firme. Para eu não girar de maneira desvairada com o mundo, preciso somente abraçar a cruz.

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José Leonardo Nascimento

José Leonardo Ribeiro Nascimento é casado, pai de quatro filhos e membro do segundo elo da Comunidade Canção Nova desde 2007. Natural de Paripiranga (BA), cursou Ciências Contábeis na Universidade Federal de Sergipe e fez pós-graduação em economia por meio do Minerva Program, na George Washington University, nos Estados Unidos. Trabalha, há 18 anos, como Auditor Federal na Controladoria-Geral da União em Aracaju (SE). Ele e sua esposa trabalham, há muitos anos, com a evangelização de casais e de famílias, coordenando grupos e pregando em retiros e encontros.
Instagram: @leonardonascimentocn | Facebook: @leonardonascimentocn

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