Veni Creator Spiritus
Nas Igrejas cristãs do Ocidente, o ano dois mil “iniciou-se” com o canto solene do Veni creator. Foi justamente desse modo que, desde as primeiras décadas do segundo milênio, se iniciou cada novo ano, cada novo século, bem como os conclaves, os concílios ecumênicos, os sínodos, as reuniões importantes para a vida da Igreja, as cerimônias das ordenações sacerdotais ou episcopais, além das antigas cerimônias de coroações de reis. É um hino que, desde que foi composto, no século IX, ressoou sem cessar na cristandade latina, sobretudo em cada festa de Pentecostes, qual soleníssima epiclese que se prolonga em toda a humanidade e na Igreja. […]¹
[…] Como sucede com todas as coisas provenientes do Espírito, o Veni creator, longe de se desgastar com o uso, ficou ainda mais rico. Se a Escritura, como diz São Gregório Magno, “cresce à medida que é lida”, o Veni creator, tal como outros textos venerandos da liturgia, foi crescendo, século após século, à medida que foi sendo cantado. Ficou repassado de toda a fé, de toda a devoção e de todo o ardente anseio pelo Espírito das gerações que o cantaram antes de nós. E, graças à comunhão dos santos, quando agora é cantado, ainda que pelo mais modesto coro de fiéis, Deus escuta-O assim, com esta imensa “orquestração”. […]²

Foto ilustrativa: PaoloGaetano by getty Images
Origem
[…]Rábano Mauro, atualmente considerado o mais provável autor do Veni creator, foi abade de Fulda, na Alemanha, e arcebispo de Mogúncia, e viveu entre os finais do século VIII e a primeira metade do IX; foi um dos maiores teólogos da sua época e um conhecedor profundo dos Padres. O primeiro testemunho de uma utilização oficial do hino verifica-se no concílio de Reims, em 1049, quando, “no momento da entrada do papa na sala, o clero cantou com grande devoção o hino Veni creator Spiritus”, o qual já estaria a ser utilizado, havia algum tempo, em algumas igrejas locais e mosteiros. A partir daquela altura, o hino conquistou lugar cativo na liturgia de toda a
Igreja.
O Veni creator é um texto eminentemente ecumênico, o que também contribui para que se afigure ajustado à época em que vivemos. Trata-se do único hino latino antigo que iria ser acolhido por todas as grandes Igrejas saídas da Reforma. Lutero deu-se ao trabalho de elaborar uma versão sua. Foi este hino que, desde o início, se inseriu no rito da ordenação episcopal da Igreja anglicana e, no Pentecostes, ocupa um lugar de honra na própria hinologia das Igrejas de matriz calvinista. O Veni creator permite, portanto, que todos os cristãos estejam unidos na invocação do Espírito Santo, que é quem nos há de conduzir à unidade total, tal como nos conduz à verdade total.
O Veni creator alcançou um êxito extraordinário, também, fora da esfera eclesiástica: na cultura. Goethe propôs uma esplêndida versão sua, em alemão, algo que também fizeram os poetas e os místicos Tersteegen e Ângelo Silésio. Os músicos também lhe voltaram o seu interesse. Bach musicou a tradução de Lutero; Gustav Mahler escolheu-o para texto da sua ópera coral, conhecida como Sinfonia dos Mil, para não falar de tantos outros autores menos conhecidos. Até a data, no entanto, ninguém foi capaz de igualar o fascínio simples da melodia gregoriana, que parece nascida de um só fôlego com as palavras. Escutar esta melodia, seja no início de uns exercícios espirituais,
seja numa reunião pastoral, é como entrar imediatamente nessa esfera saturada de mistério e de sugestão que é a do Espírito.[…]³
Indulgência
“[…]É concedida indulgência plenária ao fiel cristão que, numa igreja ou oratório, tenha participado devotamente no canto ou na recitação solene: hinos Veni, Creator , seja no primeiro dia do ano para implorar a ajuda divina para o decorrer de todo o ano; ou na solenidade de Pentecostes[…]4
Confira:
Oração
Vinde, Espírito Criador! (Véni Creátor Spíritus)
Vinde Espírito Criador,
(Véni, Creátor Spíritus)
a nossa alma visitai
(mentes tuórum visita)
e enchei os corações
(imple supérna grátia)
com vossos dons celestiais.
(quae tu creásti péctora)
Vós sois chamado o Intercessor,
(Qui díceris Paráclitus)
de Deus excelso dom sem par,
(altíssimi donum Dei)
a fonte viva, o fogo, o amor,
(fons vivus, ignis, cáritas)
a unção divina e salutar.
(et spiritális únctio)
Sois o doador dos sete dons
(Tu septifórmis múnere)
e sois poder na mão do Pai,
(dígitus paternae déxterae)
por Ele prometido a nós,
(tu rite promíssum Patris)
por nós seus feitos proclamai.
(sermóne ditans gúttura)
A nossa mente iluminai,
(Accénde lumen sénsibus)
os corações enchei de amor,
(infunde amórem córdibus)
nossa fraqueza encorajai,
(infírma nostri córporis)
qual força eterna e protetor.
(virtúte firmans pérpeti)
Nosso inimigo repeli
(Hostem repéllas lóngius)
e concedei-nos vossa paz;
(pacémque dones prótinus)
se pela graça nos guiais,
(ductóre sic te praevio)
o mal deixamos para trás.
(vitemus omne noxium)
Ao Pai e ao Filho Salvador,
(Per te sciámus da Patrem)
por Vós possamos conhecer;
(noscamus atque Filium)
que procedeis do Seu amor
(teque utriúsque Spíritum)
fazei-nos sempre firmes crer.
(credamus omni témpore)
Amém!
Fontes:
¹ ² ³ Trechos retirados do livro “Vem, Espírito Criador!” do Pe. Raniero Cantalamessa
4 https://www.vatican.va/roman_curia/tribunals/apost_penit/documents/rc_trib_appen_doc_20020826_enchiridion-indulgentiarum_lt.html (Penitencial Apostólico – Enquirídio das Indulgências)






