Pecado original

Estamos doentes, mas Deus quer nos curar

Nós queremos muitas coisas, mas não nos satisfazemos com nada. Nosso coração só vai se apaziguar em Deus

A cura, na verdade, é salvação, e salvação é cura. No grego, assim como no hebraico, línguas nas quais a Bíblia foi escrita, a palavra salvação também quer dizer cura, saúde.

Em algumas traduções das Bíblias, lemos assim: “Jesus disse: ‘Vai, a tua fé te curou'”. E em outras: “Vai, a tua fé te salvou”. Na verdade, curar e salvar falam da mesma realidade na Sagrada Escritura.

Foto: Wesley Almeida / cancaonova.com

Jesus pagou o preço do nosso resgate. Podemos falar de salvação como pagamento de uma dívida somente se entendermos isso como uma metáfora. Para entendermos a salvação, precisamos de várias metáforas, e nenhuma delas é completa, pois são comparações que nos dizem o que é a salvação. Uma delas está neste conceito de cura: estamos doentes e precisamos ser curados, precisamos ser salvos. Este não é um conceito absoluto, mas bastante rico, cujo fruto espiritual é muito grande. Deus quer nos salvar, ou seja, Ele quer nos curar. Esse conceito funciona bastante, porque está enraizado na constatação de que não estamos totalmente conforme o sonho que Ele teve para nós. Esse sonho foi realizado somente em Jesus Cristo, que é um Homem como Deus pensou.

Marcados pelo pecado original

Podemos dizer, com toda certeza, que nunca vimos uma pessoa inteira. Só temos experiência de “pedaços” de homens, pessoas “deformadas” que trazem em si a marca do pecado. A nossa condição é a de pessoas marcadas pelo pecado, pois somos doentes e precisamos tomar consciência disso, para que vivamos uma mudança de mentalidade.

O mundo acha que tudo o que se vive por aí é normal. É assim que a nossa sociedade decide o que está certo ou errado. Por exemplo, segunda ela, a masturbação é normal, “porque todo mundo faz”. Primeiro, não é verdade que todo mundo a pratica; depois, mesmo que seja a maioria, isso não constitui a normalidade. No século XIX, metade da população de Cuiabá (MT) morreu de varíola, depois da guerra do Paraguai. Mas isso não fez com que essa doença se tornasse normal, continua sendo uma doença. Todo mundo tem gripe ou alguma virose, mas nem por isso essas enfermidades são normais.

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Somos pessoas marcadas pela “doença” do pecado original. Nossas reações não são todas normais. Se não nos dermos conta disso, não vamos nos converter. O primeiro passo que o doente tem de dar para se curar é o de se convencer de que está doente. Se ele achar que está muito bem, não vai mudar.

É muito mais fácil uma espiritualidade “otimista” que aplauda e canonize tudo aquilo que as pessoas fazem. “Todo mundo faz, é assim mesmo. Tudo o que Deus fez é bonito, precisamos aplaudir, apoiar e aceitar”. Precisamos levar a sério as consequências do pecado original. Se sou obcecado pela felicidade que encontro na comida, na bebida, esse tipo de pensamento diz que a fome é um instinto natural, criado por Deus; logo, é bom e não tem nenhum problema. Embora isso tenha sido criado por Deus, traz a marca do pecado original, pois nos afasta d’Ele.

O pecado e suas consequências

Santo Agostinho faz a comparação: Imaginemos que um noivo dê um presente para sua noiva, e ela fica tão fascinada com o presente, que esquece do noivo e vai para casa. Aquilo que o noivo deu como sinal de amor torna-se um caminho de separação. Deus nos deu este mundo como um presente, mas a nossa tendência é transformá-lo em deus, colocar os presentes d’Ele no lugar d’Ele. É aqui que está a nossa doença.

Dizer que uma pessoa é saudável é diferente de dizer que um alimento é saudável. Uma pessoa é saudável quando tem saúde e um alimento é saudável quando traz saúde. Da mesma forma, podemos falar de pecado original de formas diferentes: uma coisa é dizer “eu cometi um pecado”, que é uma transgressão, algo que ofende a Deus e destrói a quem o pratica. Quando dizemos que Adão e Eva pecaram, posso chamar essa primeira transgressão de pecado original. E quando digo que tenho este pecado [original], isso tem outro sentido, pois é algo recebido, hereditário. Podemos tentar explicar isso por meio da liberdade que Deus nos dá como filhos. Ele está do nosso lado, protege-nos, mas leva a sério a nossa liberdade. Se você fizer algo de mal, Ele vai respeitar sua liberdade, e vai sofrer por isso, já que nos ama.

Os pecados que cometemos afetam aos demais, às vezes, até de forma irreparável. Se você contrair AIDS, não tem como fazer de conta que isso não existe, pois pode morrer com esta doença ou contaminar outras pessoas. O pecado tem consequências, assim como, a partir do pecado original, surgiu em nós uma tendência para o mal.

A importância da ascese

Os mesmos instintos que os animais têm nós também o temos. Assim como um macaco gosta de comer, beber, ter relações sexuais, nosso instinto é o mesmo. Porém, existe uma grande diferença: nós temos alma. Nós não fomos feitos só para isso, temos uma sede maior. Não adianta apenas comer, beber, ter relações sexuais, porque dentro de nós vai permanecer um vazio. Seu coração vai permanecer inquieto, como disse, com clareza, Santo Agostinho. Nós não nos satisfazemos com nada, nós queremos muitas coisas, mas nosso coração só vai se apaziguar em Deus.

Proponho, então, uma conscientização das “doenças” que estão dentro de nós. E uma vida espiritual que as combata numa tentativa de reverter as consequências do pecado original. É claro que a cura total não será neste mundo, mas em nossa ressurreição. Mas, por mais que seja assim, nós podemos e devemos viver uma vida ascética, de ascese, esforço para curar estas más tendências que existem dentro de nós. Quando falo de ascese, falo de jejum, vigílias, sacrifícios, abstinências, esforços espirituais. Tudo isso não para “pagar os pecados” – pois eles já foram pagos por Jesus -, mas para combater a tendência ao pecado que, dentro de nós, é como a lei da gravidade, puxando-nos para baixo. Precisamos fazer algo para não acabar nos “envenenando” espiritualmente, pois sabemos da nossa condição, de nossa “doença” espiritual. Não é só na Quaresma que precisamos fazer jejuns e oferecer sacrifícios. Se não combatermos essas “enfermidades”, seremos vítimas delas.


Padre Paulo Ricardo

Padre Paulo Ricardo de Azevedo Júnior pertence ao clero da Arquidiocese de Cuiabá (Mato Grosso – Brasil) –  contato@padrepauloricardo.org

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