Que contribuição poderá trazer a filosofia?

Foi-me solicitado responder à seguinte questão:

Que contribuição poderá trazer a filosofia para a convivência social?

Vou tentar resumir em poucas e simples linhas esse vasto tema, afirmando de início que a filosofia é indispensável para se compreender a convivência social.
Começo por registrar a afirmação do genial Aristóteles, na primeira parte de seu livro Metafísica: “Todas as demais ciências são mais úteis que a filosofia, nenhuma, porém, é superior a ela”.

Parece que o “útil”, desde então, consistia em tudo aquilo que vem satisfazer nossas necessidades básicas e imediatas: alimento, agasalho, saúde, lazer, conforto, prazer, enfim, todos os bens de consumo… A fim de alcançar esse gênero de benefícios, com o mínimo esforço e a máxima rapidez possíveis, tem-se desenvolvido uma tecnologia sempre mais avançada. Por sua vez, a tecnologia é fruto do desenvolvimento de uma ampla gama de ciências: matemática, física, química, biologia, etc.

A filosofia, entretanto, não se aplica a produzir nenhuma dessas utilidades. Por que, então, deverá ser superior às demais ciências? Num livro de bolso que publiquei no ano passado, com o título “Também você é filósofo”, encontra-se um capítulo: “É útil a filosofia? Chamo atenção aí para o que há originariamente em nossa natureza. Trata-se do desejo de saber. Aponto a infância como a idade onde melhor, de modo mais espontâneo, se manifesta a natureza. ,b>Na expressão de Rubem Alves, a criança vê o mundo como“um vasto parque de diversões”. Isto é, não vê o mundo como um parque de coisas úteis. É a própria natureza humana que na criança expressa espontaneamente as questões mais fundamentais: “o que é isto, donde vem isto, por que isto?”.

São perguntas que, sendo espontaneamente formuladas por toda criança, nem por isso devem ser consideradas infantis, pois acompanham a pessoa em toda a sua existência. Não são perguntas que buscam responder para que servem as coisas, como se as pode fabricar, mas buscam responder o que são as coisas e qual sua origem e seu sentido.
Tais perguntas nos levam diretamente a uma primordial necessidade, a de sabermos quem somos nós e que sentido tem nossa existência. Essas não são perguntas de imediata utilidade, muito menos de imediato consumo. Entretanto, são as mais importantes. Aquele a quem faltar o sentido de viver, o mais provável é que seja acometido de desânimo, de apatia, ou de depressão e, até de desespero. Quantos terminam negando-se a si próprios a ponto de tirarem a vida.

Pois bem, assim como os indivíduos não podem sobreviver sem um sentido de vida, da mesma forma nenhum grupo social será constituído e sobreviverá sem um sentido capaz de aglutinar os indivíduos. Sentido significa objetivo a alcançar, significa fim a atingir. Ora, a convivência, toda convivência de qualquer grupo humano, é constituída pela comunhão de intenções e de vontades num mesmo objetivo, num mesmo fim. Trata-se da própria definição do ser social.

A comunhão de intenções e de vontades num mesmo fim não nos é evidenciada por nenhuma das demais ciências a não ser pela filosofia. O mesmo Aristóteles, no livro citado acima, escreve: “A ciência suprema, aquela que é superior a todas as demais, que a ela se subordinam, é a que nos dá a conhecer o fim, em vista do qual tudo deve ser feito. Esse fim é o próprio bem de cada coisa e, de modo geral, é o bem soberano de toda a natureza”.

Platão, mestre de Aristóteles, numa de suas cartas louva a filosofia porque, afirma, “somente à sua luz se pode conhecer onde está a justiça na vida pública e privada”. Daí que, noutra carta, escreve a um príncipe que “os males não cessarão para os humanos, antes que a raça dos puros e autênticos filósofos… chegue a filosofar verdadeiramente, por uma graça dos deuses”. E acrescentava, então, que o governo de um país deveria ser entregue aos “verdadeiros filósofos”.

Era comum entre os filósofos gregos atribuir aos deuses o conhecimento filosófico que nos possibilita conhecer coisas que nenhuma outra ciência poderá fazê-lo. Em razão disso, chamavam a filosofia de conhecimento divino, de vez que, por ele se alcança a luz suprema, o bem supremo para o qual todo bem se ordena. Todo bem particular, com efeito, deverá ser ordenado para esse bem supremo, se quiser ganhar sentido. O Bem Supremo é a luz de todo nosso caminhar individual e social.
Esse é o fundamento da ÉTICA, a ciência que hoje se manifesta como condição de sobrevivência da sociedade. A ética é a ciência do comportamento individual e social. Seu conhecimento torna-se, assim, indispensável para o bom andamento de toda sociedade.

Entretanto, não encontra nela o próprio fundamento. Necessita ser complementada com as demais áreas do conhecimento filosófico, sobretudo, aquelas que dão à própria ética o conhecimento da natureza humana e, sobretudo, o conhecimento do fim, do bem a ser alcançado em comunhão de intenções e de vontades. Equivale a dizer que a ética que rege o comportamento social, simplesmente, necessita da filosofia.

Vejo que a “Sociedade para o Progresso da Ciência”, se ocupa grandemente com a construção de uma sociedade viável, justa. Vejo, entretanto, que dá pouco espaço à filosofia, sobretudo, àquela parte da filosofia que investiga os objetivos, os fins de toda vida social, sem o que não se poderá levar os cidadãos às razões de sua pertença e da correspondente responsabilidade social. Estimo, com isso, ter apontado elementos essenciais a respeito da contribuição da filosofia para a convivência social.

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