Olhar para o choro de Odisseu à beira-mar não é testemunhar uma fraqueza, mas descobrir a coragem de silenciar para reencontrar o próprio propósito.
“Dentro da gruta não foi encontrar Odisseu de alma grande, que, como sempre, a chorar, se encontrava sentado na praia, a alma desfeita em suspiros sentidos, e prantos, e dores.” (Odisseia – Homero – Canto V)

Créditos: Domínio público
Com a chegada de uma nova adaptação cinematográfica de “A Odisseia”, vale a pena revisitar uma das obras mais importantes da literatura e perceber como ela continua falando ao homem contemporâneo. O verso acima fala de Odisseu que permanece na ilha de Ogígia, domínio da ninfa Calipso, chorando ao contemplar o mar. Longe de sua terra natal, Ítaca, distante da esposa Penélope e do filho Telêmaco, ele passa anos vivendo uma espécie de exílio interior.
O exílio interior de Odisseu e o espelho da ilha
O homem de vida agitada e ativa, o guerreiro e o estrategista, após muitas intempéries, se encontra consigo mesmo. O silêncio da ilha torna-se um espelho capaz de revelar aquilo que a agitação da vida muitas vezes encobre.
Mesmo escravizado, é nesse local de deserto interior que ele está descobrindo as últimas liberdades que ele traz. O Rei de Ítaca, descobre algo que ninguém pode lhe tirar: a liberdade de responder às circunstâncias da vida, ainda que não possa mudar sua condição imediata.
O silêncio vivido por Odisseu não é simples ausência de ruídos. Para a tradição cristã, é também o lugar onde Deus fala ao coração humano. Como recorda o Evangelho: “O Reino de Deus está dentro de vós” (Lc 17,21).
E na mesma direção, Tomás de Kempis escreve na Imitação de Cristo: “Volta-te para o Senhor de todo o teu coração, deixa este mundo de miséria e encontrarás repouso.”
Talvez essa seja uma das grandes lições da jornada de Odisseu, é fazermos uma meditação sobre onde estamos hoje, como estamos vivendo, nos comportando diante das situações da vida. Deus está sempre nos convidando a fazermos um pequeno momento de pausa e quem sabe embarcarmos no deserto por meio da oração, da contemplação, da adoração e assim encontrarmos o nosso porto seguro, a nossa “Ítaca”, a nossa missão.
A vida corrida, tantos afazeres, tantas pressões nos levam, muitas vezes, a empurrar a vida com a barriga, entretanto, a alegria precisa estar dentro de nós, e nunca fechados em nós mesmos; ademais, o ensimesmamento é egocêntrico.
Foi justamente no recolhimento que Odisseu recuperou a clareza necessária para continuar sua jornada. A sua atenção foi dirigida à essência das coisas.
Maturidade forjada nas tempestades
A viagem de retorno não foi fácil. Tempestades e perigos continuaram em seu caminho. No entanto, ele já não era o mesmo homem que chegara a Ogígia. O sofrimento o havia amadurecido.
Também somos chamados a enfrentar nossos mares e tempestades e a silenciar as nossas paixões. Cada pessoa possui uma tarefa única, uma responsabilidade que ninguém pode assumir em seu lugar. É um trabalho que não tem fim.
Enquanto tiver vida e tiver alguém que possa ser alcançado, significa que a missão continua.
Santa Teresa d’Ávila escreveu: Vós que sois soldados de Cristo, não durmais; não durmais, pois não há paz na terra! Não haja covardes entre nós. Enfrentemos a vida, pois guarda-la-á melhor quem a perder. (Santa Teresa D’ávila – LV na Escola dos Santos Doutores).
O choro de Odisseu à beira-mar não necessariamente foi sinal de fraqueza. Foi justamente o que lhe permitiu limpar os olhos para voltar a enxergar a realidade.

