O dia em que eu devolvi as chaves...

      Tenho 36 anos… E vejo a força de meu pai para compreender o que aconteceu comigo. O auge de minha juventude, os “melhores dias”, meus ideais e inclusive minha profissão eu entreguei a Jesus. Não como um “bitolado”, cego e sem opinião própria. Mas um dia eu disse um “Sim” que causou uma mudança radical no rumo da minha vida… e dos desejos de meu pai. Meu pai sempre quis que eu fosse Doutor. Formei-me em Odontologia, cheio de Cursos e Congressos (inclusive vários Congressos Internacionais) e estava começando muito bem minha carreira. A promessa era grande. Já era um profissional muito bem estruturado e com excelentes relacionamentos em minha área de atuação.

      Não vou contar a história toda agora… Mas um pedaço inesquecível.

      Quando vim para a Canção Nova e precisei devolver a chave do consultório, do carro, de casa, e comunicar ao meu pai minha decisão… Não sei nem explicar porque … mas não encontrei “clima” nos ambientes da minha casa, naquele dia, para conversar. A casa estava cheia de amigas de minhas irmãs e acabei chamando meu pai para um bate papo dentro do meu carro que estava estacionado na portaria do prédio que eu morava. Ali mesmo, no meio da rua, de noite, dentro de um carro contei de minha vinda para a Canção Nova e da decisão de ser Missionário Católico. Naquela época a Canção Nova era muito menor e com certeza dentro das renúncias que iria fazer estava a renúncia da minha profissão. Ele investiu muito em mim… Em todos os sentidos: melhor escola, melhor educação, cursos, viagens a negócios (aonde eu ia só para aprender), a melhor faculdade, melhores materiais… Até nas férias era sempre providenciado o melhor passeio.

      E eu estava ali devolvendo as chaves… Era muito mais que um simples chaveiro…

      Era a vida do meu pai investida em mim.
Sonhos do meu pai, sacrifícios, coisas que ele deixou de ter para que eu pudesse ser quem eu sou…

      Eu parecia um ingrato, que devolvendo aquelas chaves cessaria de ser dele para ser sozinho… como se eu não precisasse dele. Meu pai chorou… Foi difícil, mas Lucas 9, 62 me acompanhava… “Aquele que põe a mão no arado e volta para trás não é digno de mim”. Já estava vivendo a Frase Mística da Canção Nova: “Não dá mais pra voltar!”. Hoje se passaram 12 anos… Sou pai de dois filhos… E quero dar para eles: “melhor escola, melhor educação, cursos, viagens, melhor faculdade, melhores materiais… até nas férias… o melhor passeio”. (acho que você já leu isto alguns parágrafos acima…) Sou Missionário Católico há 12 anos também. Minha vocação se realizou muito bem e sei que… Meu pai ainda não compreende bem algumas coisas. Ele me acolhe, me incentiva, mas lá no fundo ainda não compreende algumas coisas que me fizeram investir nesta vocação.

      Desejo a todos os pais a graça da decisão que o meu pai fez:

      Decidir acolher uma opção de vocação religiosa católica de um filho, mesmo que isto custe despojar-se dos seus sonhos e investimentos.

      Meu pai sempre me acolheu. Sempre me disse o quanto me ama e tenho certeza que mesmo expondo esta situação ele compreenderá e quando eu chegar na sua casa o encontrarei com os braços abertos. E o chaveiro que eu devolvi… está pendurado num prego lá no corredor da casa dele.

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