Não ardia o nosso coração?

Estamos no tempo pascal. Tempo que, liturgicamente, dura cinqüenta dias. Um tempo oportuno para redescobrir nos acontecimentos diários e nos momentos de oração, o que significa a Ressurreição. A principal característica desse tempo é a alegria.

Os textos do Evangelho não economizam palavras para demonstrar esse sentimento dos discípulos e discípulas de Jesus nos diversos encontros com o Ressuscitado. Eles “exultam de alegria ao verem o Senhor” (Jo 19,20). As mulheres voltam do sepulcro vazio “com medo e com grande alegria” (Mt 28,8); o próprio Jesus vem ao encontro delas e diz: “Alegrai-vos”(Mt 28,9).

Nos encontros com o Ressuscitado, os sentimentos se mesclam entre espanto, temor, surpresa, dúvidas, descrenças e tristezas. Madalena vai àqueles que tinham estado em companhia Dele e que estavam aflitos e choravam (Mc 16,10).

Reveste-se de particular beleza o encontro de Jesus com os discípulos de Emaús. São Lucas, mestre dos detalhes, desenvolve a cena com muita emoção. Os discípulos vão descobrindo lentamente que o Senhor está junto deles. Depois de o reconhecerem, ao partir do pão, dizem: “Não ardia o nosso coração quando Ele nos falava pelo caminho, quando nos explicava as Escrituras”? (Lc 24,32). De desanimados e descrentes, se tornam vibrantes anunciadores da Ressurreição.

Os textos narram, ainda, de modo quase irônico – para não dizer ridículo – o momento em que os chefes dos sacerdotes oferecem uma vultosa soma de dinheiro aos guardas para mentir, dizendo: “Enquanto dormíamos, os discípulos vieram e roubaram o corpo” (Mt 28,13). Santo Agostinho comenta esta passagem: “Testemunhas que dormem, comprados, corruptos, que renegam a sua vida, que inventam furtos aos outros. Se vigiáveis, por que não os prendestes? Se dormíeis, como é que vistes?” (Sermão 299/E.4).

A ressurreição é um fato histórico e as aparições, são provas de sua realidade. São muitas as oportunidades em que o Senhor se manifestou ressuscitado. Os Evangelhos narram algumas e há outras que não aparecem nos Evangelhos mas são citadas por Paulo: “Em seguida apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma vez, a maioria dos quais ainda vive, enquanto alguns já adormeceram. Posteriormente apareceu a Tiago, e, depois, a todos os Apóstolos. Em último lugar, apareceu também a mim como a um abortivo” (1Cor 15,6-7).

Quando os Apóstolos resolvem retomar sua vida rotineira, Jesus lhes aparece para os reanimar na missão. João narra esse fato (Jo 21,1ss) com cores fortes. É quase visível a tristeza de Pedro e a fidelidade dos seus amigos que não querem deixá-lo só: “Vou pescar… vamos nós também contigo!” Do desânimo de uma pesca sem coragem nem empenho, passa-se ao grande entusiasmo de um resultado fabuloso de uma pescaria fantástica. A simples expressão de João “É o Senhor!” faz com que Pedro se esqueça de que alguns dias antes quase se afogar, ao querer andar sobre as águas e, com o coração acelerado de amor, quer ir mais rápido que o vento, vela e barco e se lança às águas para mais depressa estar junto de Jesus. A pesca encheu de tal forma as redes que já não tinham forças para puxá-las. Os outros discípulos precisaram vir ao encontro para os ajudar. Mas, quando Jesus manda trazer os peixes, é Pedro, sozinho, quem puxa as redes até a margem com cento e cinqüenta e três grandes peixes, que a pesar de serem tão grandes e numerosos, a rede não se rompeu (Jo 21,11).

Os textos do Evangelho, neste tempo de Páscoa, nos colocam diante do mais sublime “presente” que Jesus deixou para sua Igreja, logo na manhã da Ressurreição: o Sacramento do perdão dos pecados. “Aqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; aqueles aos quais retiverdes, ser-lhes-ão retidos” (Jo 20,23).

Esse “dom” está diretamente ligado à promessa do Consolador, da confirmação de sua presença na Igreja, todos os dias, até à consumação dos séculos (Mt 28,20) e da certeza de estar com Ele na vida eterna: “Vou preparar-vos um lugar” (Jo 14,2).

As palavras de despedida, são acompanhadas das promessas que animam os discípulos a continuar fiéis a anunciar o Evangelho com alegria e a tudo fazer para crescer cada vez mais o número dos crentes: “Fazei discípulos…batizai”. Assim, nós também, convencidos pelos exemplos do Evangelho, somos convidados a imitar os discípulos e discípulas do Senhor mudando completamente nosso comportamento, modo de viver, até mesmo o nosso modo de falar.

Como se sabe, Paulo, para se manter fiel àquilo que recebeu, renuncia às suas próprias expressões para transmitir a fé com as mesmas palavras com que as recebeu (1Cor 15,1). Na dúvida de Tomé, Jesus já nos elogiava chamado-nos de Bem-Aventurados “os que não viram e creram” (Jo 20,29).

“Sereis minhas testemunhas” (At 1,8), afirmou Jesus pouco antes de voltar aos céus. Ser “testemunhas da Ressurreição” é ver sempre e em todos os acontecimentos a presença e a força de Jesus Ressuscitado.É compreender por que não O devemos procurar entre os mortos, entre os mecanismos de morte, nos distanciamentos fraternos ou nas incompreensões. Ele está vivo e se deixa encontrar! Ser “testemunhas de Jesus” é confessá-lo em todas as aparentes dificuldades e provações. Ser “testemunha de Cristo” deve ser, para nós envidar todos os nossos esforços para que vivamos por Ele (Jo 4,9) e para Ele na alegria da vida presente e na perspectiva da vida eterna.

Dom Eusébio Oscar Scheid
Arcebispo do Rio de Janeiro

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