Jesus de Nossa Fé (II)

Em diversas partes do Evangelho encontramos que Jesus praticou atos “para que se cumpram as Escrituras” (Mt 5,17; 26,54; Lc 18,31; 21,22; 24,44). Os autores do Novo Testamento, que escreviam para os irmãos judeus, faziam questão de evidenciar que tudo se realizou segundo as Escrituras: “Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras; foi sepultado, e ressurgiu ao terceiro dia, segundo as Escrituras…” (1Cor 15,3).

Se, portanto, tudo aconteceu de acordo com as Escrituras, como foi possível que os próprios doutores das Escrituras o rejeitassem da forma como o rejeitaram? O segredo está registrado nas próprias palavras de Jesus: “Não julgueis que vim abolir a lei ou os profetas. Não vim para os abolir, mas sim para levá-los à perfeição” (Mt 5,17;).

Levar a lei e os profetas à perfeição, significou um salto a outro nível de compreensão das Escrituras. Tratava-se de um nível diferente de compreensão que os doutores das Escrituras não conseguiram entender.

Em 1993, a Pontifícia Comissão Bíblica publicou um documento, Interpretação da Bíblia na Igreja. Esse documento faz questão de frisar que, a fim de bem interpretar a Bíblia, “é preciso que haja passagem a um nível superior…” (II, B, 2).

Elevar-se a esse novo nível não significava um mero capricho de Jesus, mas tratava-se, diz o documento citado, de “uma fidelidade mais profunda à vontade de Deus expressa na Escritura”. De fato, a inesperada “morte e ressurreição de Jesus forçaram ao extremo a evolução começada, provocando em alguns pontos um rompimento completo, ao mesmo tempo que uma abertura inesperada” (III, A, 2).

Com isso, “Jesus tinha tomado uma posição pessoal original, diferente da interpretação recebida em sua época, que era aquela ‘dos escribas e fariseus’” (Mt 5,20; III, A, 2).

Que significava, então, “levar a lei e os profetas à perfeição”? Em primeiro lugar, significava, entre outras coisas, transpor a compreensão da lei e dos profetas do nível aparente, visível e literal, para um outro nível, em que a realidade maior não seria objeto imediato de nossos sentidos da vista, do tato, etc.
O Evangelho de Lucas nos ilustra essa afirmação. Narra-nos: “Os fariseus perguntaram um dia a Jesus quando viria o reino de Deus. Respondeu-lhes: ‘O reino de Deus não virá de um modo ostensivo. Nem se dirá: Ei-lo aqui; ou: Ei-lo ali. Pois o reino de Deus já está no meio de vós’ ” (Lc 17,20-21).

A resposta de Jesus soava assim: É estranho que, sendo ele próprio, Jesus, o reino de Deus e, estando no meio deles, diante de seus olhos, eles, ainda, perguntassem quando viria. É que, o reino não era visível a seus olhos corporais.

Na festa de São Tomé, São Gregório Magno, falou numa homilia: “Tomé viu uma coisa e acreditou noutra. A divindade não podia ser vista por um mortal. Ele viu a humanidade de Jesus e proclamou a fé na sua divindade, exclamando: ‘Meu Senhor e meu Deus!’” (Cf Liturgia das Horas, vol. III, p. 1405).
Santo Ambrósio, no Tratado sobre os Mistérios, nos diz numa fórmula curta: “se vemos o que os olhos não alcançam, enxergamos com o coração e a mente” (Id. p.444).

Esse ver da fé lhes faltou aos fariseus quando, na presença do próprio reino de Deus, perguntavam quando viria o reino de Deus.

Na teologia de todos os tempos chamou-se de sobrenatural o objeto da fé, esse modo de ver diferente. O sobrenatural não se vê com os olhos corporais. Os “objetos” sobrenaturais percebidos pela fé, os mais próximos, são, entre outros, a divindade de Jesus, a graça batismal, a realidade da eucaristia, etc.

Hoje, costuma-se dizer que, por respeito a essas realidades, a crise de fé é muito grande. A falta de fé salta aos olhos, isso sim. Poder-se-ia, entretanto, apontar um empecilho natural para a fé, que seria como apontar para o preâmbulo da fé.

Diria que, na minha percepção, hoje reina o positivismo, dentro e fora da Igreja. O positivismo não dá espaço para a fé. O positivismo, com efeito, reduz tudo ao “fato” visual, contábil, estatístico. O fundador do positivismo, e também da sociologia, Augusto Compte, assim se expressou: “Toda afirmação que não é estritamente reduzível à anunciação de um fato, não pode ter valor algum, nem real, nem inteligível”. “Fato”, para ele, é só o que se pode ver e mostrar.

Ora, a divindade de Jesus, a graça batismal, a realidade da eucaristia, não podem ser reduzidas a um “fato” que se pode ver e mostrar e, portanto, ao nível sociológico. É por isso que, pela mediação da sociologia, não se pode fazer teologia, pois, esta, trata do mistério, de coisas que não se podem ver e mostrar, enquanto que a sociologia e, hoje, as ciências sociais em geral, tratam só daquilo que pode ser visto e mostrado.

O grande economista, Celso Furtado, num artigo recente, na Folha de São Paulo do dia 31 de dezembro último, nos diz que, “por paradoxo que pareça, o positivismo, entre nós, serviu de cabeça-de-ponte para a penetração de idéias marxistas”, tanto dentro como fora da Igreja.

Esse fato, entretanto, não é tão paradoxal assim, porque o marxismo tem uma grande afinidade com o positivismo. Tem em comum a fé nas ciências, na eficiência tecnológica, no progresso da humanidade e, sobretudo, na negação de dimensões da realidade que ultrapassem o sensível, o aparente.

Infelizmente, nessa traiçoeira tentação, caiu também uma grande parcela de nossas teologias e pastorais. Queira o leitor prestar atenção ao modo dessas teologias e pastorais tratarem as referidas realidades da fé, que não podem ser reduzidas a “fatos” sociológicos. Por exemplo, Jesus é reduzido ao homem perfeitamente humano, a graça batismal é reduzida a uma simples inclusão da criança na comunidade eclesial, a eucaristia é reduzida ao símbolo da solidariedade ou, até, da fraternidade. Todos esses são dados sociológicos, reduzíveis ao que se pode ver e mostrar. Nada neles que ultrapasse o puro sensível sociológico.

Jesus de nossa fé ultrapassa de muito o puro sensível, visual ou táctil. Quando o evangelista João escreve sobre “o que temos ouvido, o que temos visto com os nossos olhos… nós vos anunciamos” (1Jo 1,1s.), refere-se, pelo contexto, a muito mais do que o puro sensível. Ele intenciona testemunhar a fé na “vida eterna” que é “comunhão com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo” (Id. 1,3).

As dificuldades dos doutores das Escrituras de entenderem Jesus radicam no fato de serem positivistas, junto com lhes faltar a fé. Não conseguiam admitir em Jesus mais realidade do que lhes testemunhavam os olhos corporais. E, entretanto, a realidade de Jesus ultrapassava infinitamente a tudo quanto os sentidos poderiam perceber.

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