Índio: Brasil reflete, Papa canoniza

Feliz coincidência: neste ano, 2002, a Igreja Católica, através da CNBB, lança a 39ª CF em solidariedade aos Povos Indígenas. Ao mesmo tempo, em Roma, o Papa João Paulo II anuncia, para este ano, a canonização do índio asteca Juan Diego, vidente de Nossa Senhora de Guadalupe. Um índio nos altares a ser venerado no mundo inteiro é a maior glória que um ser humano pode receber de seus irmãos na fé. Um índio reconhecido como santo, causa tanto mais admiração quanto mais de sua raça fez-se uma imagem depreciada e, até mesmo, destituída do “sopro divino”.

No ano de 1513, deu-se a aparição da Virgem ao indígena no México; poucos anos antes, em 1500, navegadores portugueses invadiam as terras indígenas no Brasil como se fossem terras sem dono. A este feito deram o nome de descobrimento. Pero Vaz de Caminha escrivão da esquadra de Pedro Alvares Cabral em sua “Crônica do Achamento”, deslumbrado com as florestas, os rios e os bichos, assim descrevia a figura dos índios como sendo “pacíficos, gentis, hospitaleiros e fortes”, e que “moravam em casas de madeira cobertas de palhas e dormiam em redes”. Observa o cronista ainda: “Vieram logo ao nosso encontro sem se esquivarem, abraçavam-se conosco e folgavam… Andavam mais mansos e seguros entre nós do que nós andávamos entre eles”.

Em contradição com esse depoimento de testemunha ocular e fidedigna, os colonizadores, cheios de ambições e com único propósito de dilatar “a fé e o império”, consideravam os habitantes dessas terras há mais de 40 mil anos, como bárbaros, selvagens e primitivos. Praticaram, então, contra eles uma ação de extermínio, ocuparam suas terras, desrespeitaram seu modo de vida, a cultura, a crença e as tradições. Executaram uma política de extermínio: eram 6 milhões de indígenas, quando os chamados descobridores chegaram ao Brasil, estão reduzidos a pouco mais de 400 mil, em nosso dias.

Enorme, não tem tamanho, a nossa dívida para com os Povos Indígenas. Sua história é a mesma dos excluídos, eles os primeiros excluídos. Fazer-lhes justiça, antes de tudo é garantir a demarcação de suas terras, aquelas que lhes restaram e protege-las, de invasões por parte de madeireiras, mineradoras, garimpeiros e fazendeiros, como estabelece a Constituição do nosso país (art. 231). Hoje, apenas 222 áreas estão com a demarcação concluídas; restam 519 a serem definidas. O indígena tem profunda veneração pela terra e a chama de mãe-terra que tudo lhe proporciona: a qualidade de vida e o sustento. É o chão onde está escrita sua história e condição para sua sobrevivência; não pode ser loteada e nem vendida a outros, é para o usufruto de todos, comunitariamente. Agora entendo aquele índio pataxó, na ocasião da festa dos 500 anos do descobrimento, durante a celebração eucarística em Porto Seguro tendo diante de si todo o Episcopado Brasileiro e frente às câmeras de TV, que, com voz embargada de emoção e com firmeza afirmou apontando para o chão: “Esta terra é nossa!” O Papa João Paulo II, há mais de 10 anos, 1988, assim se manifestou sobre esse grave problema: “Quando as populações indígenas são privadas de suas terras, perdem um elemento vital da própria existência e correm o risco de desaparecer enquanto povos” (08.12.1988)

Ainda em Porto Seguro, nessa mesma oportunidade, os indígenas ali presentes, chamaram a atenção do povo brasileiro, eles brasileiros de primeira hora da nacionalidade, para a maior das injustiças: a não valorização da cultura indígena na formação da cultura brasileira. Denunciaram da maneira que lhes foi possível: a exclusão cultural tem sido mais violenta que a econômica. Não conseguem aprovar no Congresso Nacional o projeto de lei fazendo converter em patrimônio nacional: o vocabulário, os cantos, as lendas, a medicina e a cultura indígenas.

Os índios vivem de uma esperança animada pelo mito de “uma terra sem males” onde “não há sofrimento e as pessoas não envelhecem nem morrem”. Nós cristãos proclamamos a esperança na Ressurreição, vitória da vida sobre a morte, a nos fortalecer no testemunho de que “os sofrimentos da vida presente não se comparam com a glória futura a ser revelada em nós” (Rm 8, 18).

A CF, este ano, ajudará muito a convencer-nos de que o Brasil de amanhã saberá preservar sua identidade se souber respeitar suas raízes. Nelas, encontram-se miscigenados, o negro com o trabalho escravo, o português colonizador e, antes de todos, o índio de quem foi tomada a terra.

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