Entrevista sobre a família

Entrevistador: – Crês que as relações familiares se deterioraram muito de uns tempos para cá?

Pe. Achylle: – Certamente! Na minha idade e também em meu contato pessoal com famílias, posso dizer que sim, sem medo de errar. Ao menos, poderíamos dizer que há problemas de relacionamento típicos dos últimos cinqüenta anos.

Entrev.: – A que atribui isso?

Pe. Achylle: – As causas são variadíssimas. Há uma causa principal que sempre existiu e que é a fonte perene das dificuldades no relacionamento.

Entrev.: – Qual seria essa fonte?

Pe. Achylle – É aquela que aprendemos no catecismo e que se chama de pecado original.

Entrev.: – Como se manifesta o pecado original?

Pe. Achylle: – Há em nossa natureza inúmeras forças, energias, que, sendo boas, ameaçam continuamente desarmonizar, desestruturar nossa natureza e nossos relacionamentos. Esse fenômeno representa uma espécie de decadência genética. Ditos em forma cru e nuas são os únicos seres que vivem se destruindo e destruindo os outros.

Entrev.: – Têm um nome essas forças, essas energias?

Pe. Achylle: –Têm, sim. Chamava-se antigamente de paixões. Hoje se fala mais em emoções.

Entrevi.: – Diga uma palavra sobre as emoções.

Pe. Achylle: – Há em nós duas séries de emoções. Uma série é composta das emoções do prazer, do desejo de consumir, da sensação dos sentidos. A outra série é constituída pelas emoções ligadas à ira, ao combate, à luta. São forças boas em nós. As primeiras buscam apoderar-se daquilo que para nós é bom. As segundas servem para defender o bem.

Entrev.: – Quando essas emoções desarmonizam nosso ser, nossa pessoa?

Pe Achylle: – Sempre que elas se contentam consigo mesmas e não se põem mais a serviço de nosso bem maior, indicado pela razão. Aí desorganizam tudo em nós. A desordem, a desarmonia acontece quando as coisas não estão no seu lugar. Por exemplo, uma coisa não está em seu lugar quando, devendo estar em baixo, se põe por cima. Assim são nossas emoções. Elas devem estar no seu lugar que é de servir o bem maior, o bem que está por cima. Sempre que elas se sobrepõem, se põem por cima, resulta a desordem, a desarmonia, a confusão.

Entgrev.: – Qual seria esse bem maior, ao qual as paixões devem ordenar-se?

Pe. Achylle: – O bem maior imediato, a emoção maior, é o amor. Nenhuma paixão quer sejam as do prazer, quer sejam as da ira, da luta, pode estar desligada do amor ou contra o amor. O prazer é apoio para o amor, a luta é defesa do amor. As emoções que não se orientam para o amor, ficam fora de seu lugar, criam em nós desordem. São Paulo queixou-se porque sentia nele essa desordem. Escreveu: “Não faço o bem que quero, mas o mal que não quero” (Rom 7,19).

Entrev.: – Além dessa causa principal da desordem em nós e nas famílias, há ainda causas mais atuais, mais típicas de nosso tempo?

Pe. Achylle: – Há sim, e variadas. Vejam bem. De um lado, repete-se com razão que a ganância do lucro é a marca de nossa época. Essa ganância explora a linha das emoções do prazer em função do lucro. Por exemplo, nossos programas televisivos, exploram esse lado do puro prazer, para criar ibope e poder ganhar mais. Criam desordem porque o prazer é colocado onde não devia estar, é colocado por cima do amor. O amor é aviltado. A mesma coisa acontece com as propagandas. Exploram o prazer acima do amor. De outro lado, a exaltação da vontade de poder, leva as pessoas a pretenderem dominar umas sobre as outras. A autoridade se faz dominação. Novamente, o amor é aviltado. Em conseqüência, a convivência se torna impossível, a família se desestrutura.

Entrev.: – Como, então, pôr ordem na “casa”?

Pe. Achylle: – Aqui reside toda a dificuldade. Vou ater-me somente a duas orientações que ajudam nesse trabalho. Uma nos vem da psicoterapia e a outra da religião cristã. Não sou especialista em psicoterapia, mas tenho estudado bastante e também praticado um pouco essa arte. Colhi muitas “dicas” para meu gasto. Somente vou dizer o seguinte. Deve-se sempre ter em mira a salvaguarda e o cultivo do amor. No relacionamento não se alcança muita coisa com a pura razão. Se, por exemplo, um dos cônjuges encontra dez argumentos, o outro vai encontrar cem, para rebatê-lo.
A razão, os argumentos são um “instrumento” que atua de fora para dentro, e ninguém muda de fora para dentro. Daí que, com julgamentos, com investigações, com cobranças, com condenações e também, com conselhos, ninguém muda. O outro somente muda se eu consigo entrar dentro dele pelo caminho do amor.

Vou dizer só duas coisas. Primeiro, sabendo que somos seres que facilmente nos desorganizamos, Jesus, pelo Sacramento do Matrimônio, quer que recebamos uma espécie de reforço para o amor familiar. A família é a obra-prima da criação e é objeto da predileção do amor de Deus. Ademais da criação, pela redenção de Cristo, a família é o lugar onde vivem os filhos de Deus, nascidos da água e do Espírito Santo. O amor humano é potencializado pela filiação divina. Ali, não só se “nasce do sangue, da vontade da carne… mas sim de Deus” (Jô 1,13). A outra coisa importante é que Jesus veio revelar o amor em sua culminância. Ensinou-nos, em que consiste o amor. Não tanto com palavras, com argumento, muito menos com doutrina, mas com o exemplo. O “sede perfeitos como vosso Pai é perfeito”, deve significar “sede perfeitos no amor”. Vede. Jesus, em sua paixão e morte, a fim de mudar a humanidade, nos mostrou que Deus é só amor. Noutras palavras: Se a humanidade tiver que mudar, deverá mudar por amor. Daí que Ele foi à morte “como um cordeiro que se conduz ao matadouro, e uma ovelha muda nas mãos do tosquiador. Ele não abriu a boca” (Is 53,7). Isto é, não julgou, não condenou, não cobrou, não exigiu nada. Só amou. Só teve palavras de perdão.

Entrev.: – Mas, então, e a justiça?

Pe. Achylle: – De fato, o amor, do tipo daquele de Jesus, seria suprema injustiça se não tivesse uma transcendência. Jesus, na eminência da Paixão, disse: “Agora é glorificado o Filho do Homem…” (Jô 13,31). A glorificação, conseqüência do amor vivido até o fim, foi sua ressurreição. A justiça está nas mãos do Pai. “Não julgueis!…”. São Pedro entendeu bem isso ao escrever: “Ele, ultrajado, não retribuía com idêntico ultraje; Ele, maltratado, não proferia ameaças, mas entregava-se àquele que julga com justiça” (1Pd 2,23).

Entrev.: – Essas considerações poderiam nos apontar alguma luz para o futuro da família?

Pe. Achylle: – Creio que sim. Estamos vivendo momentos de graça. O mundo, por contraste, se transformou numa imensa pregação. A família e toda a humanidade chegaram a um impasse, a um beco sem saída, perdeu o rumo, o caminho. Por exemplo, quem, hoje, tem razão? Quem são os terroristas? Nossa cultura descansa sobre dois pilares: a fé no poder absoluto da razão, e a fé no progresso tecnológico. Então, importa, primeiro, que se dê lugar ao coração. Em seguida, a humanidade, finalmente será obrigada a levantar a cabeça e apelar para aquele que disse “sem mim nada podeis fazer”, e “eu sou o caminho”.

Entrev.: – Como, então, nós deveríamos encaminhar a formação dos jovens para o matrimônio?

Pe. Achylle: – Primeiro, já está longe a época do festivo “Jesus Cristo super star”. Faltaria-nos superar também a nossa época, a de Jesus Cristo, o suposto, o modelo, ou aquele que nos deixou uma doutrina, uma mensagem a proclamar, ou ainda uma causa a defender. Precisamos voltar ao Jesus Cristo que veio, pelo batismo, a fazer-nos outro ele próprio, “outra humanidade sua”, na expressão da Beata Isabel da Trindade. Quando o Sacramento do Matrimônio for recebido como a potencialização da vida nova de filhos de Deus, somente então os jovens estarão preparados.

Entrev.: – Há o risco do matrimônio religioso desaparecer?

Pe. Achylle: – Sou conseqüente na resposta. Estamos numa época em que se aborrecem os formalismos. Então, se o Sacramento do Matrimônio não tiver o conteúdo apontado acima, e se fizer formalidade, os jovens não lhe verão mais sentido.

Entrev.: – Como poderíamos ajudar as famílias a perseverar na indissolubilidade do matrimônio?

Pe. Achylle: – Além do que disse a respeito dos apoios que a psicologia nos oferece, é absolutamente decisivo o cultivo da vida que o Sacramento quer potencializar. Toda vida deve ser nutrida. Os jovens casais que entraram no caminho da vida cristã, não poderão descurar o crescimento dessa mesma vida, em nenhum momento de sua existência matrimonial. O dia em que se iniciar o descaso pelo crescimento na vida de batizados, inicia-se também a deterioração da vida matrimonial.

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