De onde viemos e para onde vamos

Celebraremos neste domingo, em todo o Brasil, a solenidade de S. Pedro e S. Paulo, comemorando, ao mesmo tempo, o Dia do Papa. Nada melhor, pois, do que recordarmos aqui alguns pensamentos do atual Pontífice, João Paulo II, em recente discurso, no mês de maio, a mais de oito mil jovens reunidos na Ilha de Isquia, Itália. Entre outras orientações, ele exclamou: ‘Não percais tempo: a vossa juventude é muito preciosa para ser desperdiçada, mesmo que seja só uma pequena parte. Deus precisa de vós e chama cada um pelo nome‘.

Diante do clima de guerra não declarada em que vivemos no Brasil, sabemos que uma de suas causas são as drogas e o seu tráfico. Contudo, se há venda e lucro é porque existem consumidores. E uma grande maioria deles é constituída por adolescentes e jovens. E aí nos vem a pergunta: por que será que tantos jovens, nos países do primeiro e do terceiro mundo, são tão atraídos pela ilusão, pelo prazer dos tóxicos?

O que leva um adolescente ou um jovem a experimentar drogas e depois o arrasta por um caminho que, no final do percurso, vai terminar na morte do usuário e na infelicidade de tantas pessoas que o amam e com ele convivem? Não falo da curiosidade, do falso espírito de aventura, do poder de influência exercido pelo grupo e pela moda, da fuga da dureza natural da vida cotidiana, da busca do gozo e do prazer e da falta do real amor, que ele não encontra em torno de si.

Refiro-me, antes, à ausência de uma visão sobrenatural do homem e da criação; a um horizonte fechado e limitado às coisas palpáveis; à despreocupação com a origem do homem e seu destino, à pergunta sobre o significado da morte e à existência ou não de uma vida após o falecimento; do significado da vida, do trabalho, da dor e do próprio amor. Quem não responde a tais interrogativos, quem não sabe suas respostas, quem, ao menos, não luta para encontrá-las, torna-se um joguete na vida. Vive apenas o hoje, torturado pelo passado, angustiado e triste diante do futuro.

O tão falado permissivismo, tolerado na educação familiar, aguçado e incentivado pela sociedade, pelos meios de comunicação social e tantas outras causas, produz jovens para quem a vida nada vale. A máxima deles é a mesma citada por S. Paulo: ‘Comamos e bebamos, pois amanhã morreremos’ (1Cor 15,32) Ou seja: ‘Droguemos-nos, pois amanhã morreremos!’.

O ponto ao qual, finalmente, quero chegar é que falta às crianças, jovens e depois adultos, uma educação para as dificuldades e sacrifícios inerentes à vida. Não lhes é fornecida, no lar, na escola, na sociedade, a noção da exigência do sacrifício, da beleza da luta, da alegria da conquista e da vitória sobre si mesmo, para se alcançar um ideal. Em linguagem cristã, Jesus sintetizaria os dois caminhos, do permissivismo e do heroísmo, com as seguintes palavras: ‘Larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição e muitos são os que tomam rumo por ele. Mas é estreita a porta e apertado o caminho que conduz à vida, e como são poucos os que o encontram!’ (Mt 7,13-14).

‘A vossa juventude é muito preciosa para ser desperdiçada… Deus chama a cada um!’, diz o Papa. Ao dizer isto, João Paulo II recorda a todos que somos corpo sim, mas, acima de tudo espírito, alma. Padre Antônio Vieira, no sermão ‘As cinco pedras da funda de Davi’, de 1673, ensinava: ‘Quero que nos estimemos pela parte mais nobre’ (a alma). ‘Não pode fazer, nem empreender obras grandes, quem se conhece, e se estima pequeno… Estime-se fortíssimo, o que se tem por fraco, e fará façanhas tão incríveis como as de Gedeão'(parte IV).

De outro lado, contra o permissivismo, a frouxidão, a lassidão que, hoje, atinge a todos nós, bispos, sacerdotes, religiosos, fiéis leigos, de qualquer idade, é preciso recordar a máxima de S. Paulo: ‘Trato duramente o meu corpo e reduzo-o à servidão, a fim de que não… venha eu mesmo a ser reprovado’ (1Cor 9,27). E é por amor que o Apóstolo assim procede. O próprio Cristo enfrentou a Cruz, sabendo que o seu princípio e o seu fim era Deus, como recorda o Pe. Vieira, baseado no Evangelho: ‘sabendo… que ele viera de Deus e a Deus voltava’ (Jo 13,3).

Resumindo: se nós vivermos e ensinarmos a todos, especialmente aos jovens, quem somos, de onde viemos e para onde vamos, eles também encontrarão forças para evitar as drogas e a marginalidade e operarão incríveis façanhas para a glória de Deus e a salvação dos irmãos.

Dom Carlos Alberto E. G. Navarro
Arcebispo Metropolitano de Niterói

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