Construir a esperança

Este novo século será marcado pela fraternidade e paz? Neste novo milênio a humanidade saberá corrigir e superar os erros do passado? Enfim é a pergunta que muitos fazem poderemos ter esperança de dias melhores para todos? Alguns se apressarão em responder: como ter esperança, num mundo marcado por tantos problemas? Como sonhar com um mundo melhor, quando crescem a insegurança, a imoralidade e as injustiças? Como não desanimar ao constatar que os filhos das trevas continuam demonstrando ser mais sábios que os filhos da luz?

Muitos respondem à sua maneira, isto é, não com palavras mas com atitudes: refugiam-se num individualismo total; ou assumem sem restrições o estilo de vida de nossa sociedade consumista e hedonista; há os que não acreditam que alguma coisa possa ser modificada; e há os que acreditam e partem para ações concretas.

Pensando bem, há pessimistas em excesso caminhando por nossas avenidas e estradas. Por onde passam, semeiam pessimismo. Mas há também os que continuam acreditando na possibilidade de se construir, nesta terra dos homens, um mundo novo, uma nova sociedade, uma vida marcada pela solidariedade. Serão sonhadores? Sem dúvida! Por sinal, quem não tiver um sonho pelo qual acredita que vale a pena viver e trabalhar, doar-se e sofrer, não merece viver.

A construção dessa nova sociedade não é missão de alguns poucos. É obra de todos. Ela se tornará realidade quando cada qual der sua contribuição. Dizem os chineses, em sua milenar sabedoria: Vale mais acender uma vela do que reclamar da escuridão. Acredito que uma imensa luz poderá iluminar nossa terra e nossa gente, se as pessoas de boa vontade se unirem, participando com seus dons na construção de um mundo melhor.

O que não podemos ignorar é a marca do pecado no coração do homem. Ignorá-la é ser ingênuo, já que ideologia alguma conseguirá apagá-la. Somente o Evangelho, marcado pelo perdão e pelo amor, é capaz de dar reposta satisfatória à pergunta de Paulo: Quem me libertará desse corpo de morte? (Rm 7,24).

Jesus nos fala de um reino em que as mais profundas aspirações do homem poderão se realizar. Um reino que é mais forte do que o pecado e do que a morte. João faz referência a tal reino, no último livro da Bíblia: Vi então um novo céu e uma nova terra (Ap 21,1). Temos, aqui, a síntese de imenso sonho: o sonho de Deus para a vida de seus filhos e filhas. Ele deseja que vivamos num mundo em que a paz seja realidade cotidiana, normal e segura. Ora, os planos de Deus são sempre possíveis, porque amparados por sua Palavra e acompanhados por sua graça.

Os que não aceitam seu projeto e se entregam a um culto detestável e a abominações terão seus pecados caindo sobre suas próprias cabeças, segundo o profeta Ezequiel (cf. Ez 11,21). Já os que acreditam nos sonhos de Deus, e aceitam participar de sua realização, seguem seu Filho Jesus Cristo. Começa a se concretizar, então, o que o mesmo Ezequiel profetizou: Porei no seu íntimo um espírito novo: removerei do seu corpo o coração de pedra, dar-lhes-ei um coração de carne, a fim de que andem de acordo com os meus estatutos e guardem as minhas normas e as cumpram. Então serão meu povo e eu serei o seu Deus (Ez 11,19-20).

Aqui e agora vivemos o tempo da misericórdia e do perdão: por isso mesmo, neste início de um novo tempo, o apelo do Pai é renovado para todos nós, para cada um de nós, com especial carinho: Filho, vá trabalhar hoje na vinha (Mt 21,28). Os que aceitarem sua proposta e derem os passos necessários, transformar-se-ão em construtores da esperança.

Dom Murilo Krieger
Arcebispo de Florianópolis (SC)

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