Alimento, dom de Deus, direito de todos

A Conferência dos Bispos do Brasil em sua 40ª Assembléia Nacional, comemorando o Jubileu de Ouro de sua fundação, eleva um grito de louvor a Deus e de compromisso com a justiça. Como pastores que buscam ser fiéis ao Evangelho de Jesus Cristo e à Doutrina Social da Igreja, temos o compromisso de promover a solidariedade e diminuir o sofrimento do povo de Deus.

Assim, nós bispos do Brasil, “desejamos assumir, a cada dia, as alegrias e esperanças, as angústias e tristezas do povo brasileiro, especialmente das populações das periferias urbanas e das zonas rurais – sem terra, sem teto, sem pão, sem saúde – lesadas em seus direitos. Vendo a sua miséria, ouvindo os seus clamores e conhecendo o seu sofrimento, escandaliza-nos o fato de saber que existe alimento suficiente para todos e que a fome se deve à má repartição dos bens e da renda. O problema se agrava com a prática generalizada do desperdício” (doc. 69 – CNBB nº 2).

E entendemos que “a solução dos problemas supera medidas compensatórias, exige nova mentalidade e políticas públicas que reconheçam a alimentação adequada como direito inalienável do ser humano. Animados pela solidariedade e pela esperança, queremos somar forças com todos os que se empenham nesta causa” (doc. 69 – CNBB nº 4).

Os desafios são grandes e às vezes fazem pensar duas vezes. Porém, acreditamos que todo desafio e toda crise é sempre uma oportunidade e nunca um obstáculo na caminhada. O sonho de todos ao iniciar o Novo Milênio da era cristã, é a esperança de realizar o ideal evangélico da “Civilização do Amor”, a que se referia o Papa Paulo VI. Diante da escalada crescente da violência, da fome e das desigualdades sociais, fruto da globalização do mercado, que concentra poder e riqueza, diminuem as oportunidades de trabalho, aumentam os desastres ecológicos, se multiplica o número dos excluídos. E nós cristãos não podemos ficar indiferentes, cruzando os braços.

Diante desta realidade levamos para todo o Brasil o Mutirão Nacional para a Superação da Miséria e da Fome. Este é o desafio de agora, urgente e emergencial, mas “além da fome outras manifestações da miséria precisam ser denunciadas e enfrentadas, como a precariedade na distribuição e tratamento da água, saneamento básico, educação, habitação, vestuário, atendimento médico, até atingirmos um patamar aceitável de vida digna para todas as pessoas, visando o atendimento de todos os seus direitos humanos indivisíveis”.

O drama da fome faz com que alguns argumentam que não há alimentos para todos, outros sustentam que não há infraestrutura eficiente para sua distribuição. Na prática temos um país rico, alimento sobrando, gente disposta a dar-se para cumprir as metas, mas a manipulação dos dados da realidade e a burocracia estrutural com práticas políticas centralizadoras, privilegiando poucos em detrimento da maioria, fazem com que o nosso país esteja entre os países cujo nível de vida é inferior ao nível mínimo suportável.

É urgente uma mudança de mentalidade do nosso povo, principalmente de nossos governantes. “O mais triste para a consciência cristã é o fato de que a escandalosa desigualdade acontece, infelizmente, pela falta de testemunho evangélico de vida, criando ofuscamento da consciência, frieza e alienação diante do sofrimento humano e descrédito para o anúncio da Boa Nova” (doc. 69 – CNBB nº 19).

“É neste espírito de conversão pessoal e comunitária que a CNBB conclama a todos para que, o quanto antes, se possa vencer a mentalidade de apego aos bens materiais e ao consumismo e alcançar a superação da miséria. Somente vencendo o egoísmo e a indiferença, assegura-se o pão de cada dia para todos. Como exorta o Papa, a Igreja está obrigada, por vocação, a aliviar a miséria dos que sofrem, próximos e distantes (SRS 31). Façamos o que depende de nós para que as sementes de esperança do Reino de Deus, já nesta terra, dêem fruto de vida” (doc. 69 – CNBB nº 22).

“Garantir o alimento para todos, superando a miséria e a fome, exige de cada um de nós o engajamento pessoal. Mais do que isto, supõe a experiência pessoal do humilde e corajoso processo de gestação de uma nova sociedade, que atenda aos direitos e às necessidades básicas da população (…) Exige, também, que desenvolvamos novas relações de trabalho e de gestão da empresa, criando uma economia de comunhão comprometida com a solidariedade e atenta às exigências da sustentabilidade” (doc. 69 – CNBB nº 53).

Um dos primeiros sinais de efetiva evangelização, no início deste milênio, será a eliminação da fome decorrente da miséria em nosso país. Em espírito de conversão, a CNBB convoca a todos para um grande Mutirão Nacional pela Superação da Miséria e da Fome, como resposta ao imperativo do evangelho: “Dai-lhes vós mesmos de comer” (Mc 6, 37).

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