A eterna crise da Igreja

Tenho escutado que a Igreja, hoje, está atravessando uma gravíssima crise e que João Paulo II estaria literalmente sucumbindo sob seu peso.

Na verdade, a Igreja sempre esteve em crise. As origens dessa crise a encontramos nos próprios Evangelhos. A questão de saber quem era Jesus e de compreender sua “práxis” atravessa os Evangelhos do começo ao fim. Era natural que assim fosse, pois, tal “saber” iria exigir órgãos suplementares de percepção para chegar a ele. Chegariam somente aqueles “a quem for dado” capacidade para isso, mediante certas condições. Daí que, já na apresentação do Menino no templo, o profeta Simeão profetizara: “Eis que este menino está destinado a ser uma causa de queda e de soerguimento para muitos… e a ser um sinal que provocará contradições…” (Lc, 2,34). Numa palavra, provocará crises.

Na verdade, tudo se resumia nisto: como entender esse homem, como entender seu modo de agir tão diferente do que parecia estar anunciado nas Escrituras? Até mesmo o anjo havia confirmado Maria:
‘o filho que nascer de ti será grande, Filho do Altíssimo, receberá o trono de seu pai Davi, reinará eternamente na casa de Jacó e, finalmente, seu reino não terá mais fim ‘(Lc 1,32).

Ser “Filho do Altíssimo”, a verdadeira identidade de Jesus, passaria a constituir para os judeus o máximo escândalo. Foi esse certamente o maior motivo de contradição. O resto da mensagem lhes era familiar e bem vinda. Demonstra-o a suprema acusação contra Jesus. Quando Pilatos repetiu por mais vezes que não achava nele “culpa alguma, responderam-lhe os judeus: Nós temos uma Lei, e segundo esta Lei ele deve morrer, porque se declarou Filho de Deus” (Jo 19,7).

O segundo motivo de contradição é representado pela “práxis” de Jesus. Jesus, literalmente, se recusou sentar-se no trono de Davi, a fim de restaurar o reino de Israel. Em termos modernos, se recusou ocupar-se com as estruturas socio-políticas circunstânciais de sua época. Os judeus fizeram o impossível para dar a entender a Pilatos que Jesus era um “subversivo”, alguém que conspirava contra as estruturas políticas do Império, que se arvorava em libertador do povo judeu contra os romanos. Apresentaram-no dizendo: “Temos encontrado este homem excitando o povo à revolta…”. Pilatos confirmou: “Apresentastes-me este homem como agitador do povo…” (Lc 23,2,14). Agitador do povo e conspirador contra César, pois, “… não temos outro rei senão César”. Por fim, ameaçaram até acusar o próprio Pilatos diante de César: “… se o soltares não és amigo do Imperador…” (Jo 19,12,15).

Jesus deu uma explicação, mas nem Pilatos e nem os judeus a entenderam: “O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus súbditos certamente teriam pelejado, para que eu não fosse entregue…” (Jo 18,36). Era como se lhes dissesse: meu reino não é desse mundo de vossa pequena política que vocês estão entendendo. Se eu estivesse lutando por um tal reino, crêem que eu seria tão tolo de me deixar prender assim de mãos abanando?

O projeto de Jesus era bem outro. Ele buscava sanar a raiz, a causa dos males da humanidade e não as conseqüências circunstanciais, histórico-sociológicas. Numa palavra, Jesus veio para curar a doença e não seus sintomas. Com isso oferecia uma resposta às estruturas sócio-políticas de todos os tempos, incluídas as de seu tempo. Estava ele atingindo causas mais profundas que provocam estruturas injustas, causas que não se vencem com armas de uma subversão sócio-política, ou mesmo de uma ação política participativa de transformação de estruturas sociais momentâneas, passageiras.

Ninguém, entretanto, estava entendendo o comportamento paradoxal de Jesus. Somente sua Mãe Maria, guardava tudo, meditava e acreditava no comportamento de seu Filho. Aos discípulos foi preciso que o Pentecostes lhes abrisse os olhos. Logo após, São Paulo pôde retratar por escrito a compreensão que antes, a todos lhes faltava. O caminho de Jesus era o do “esvaziamento” de todos seus títulos, a começar pelo maior deles, o de ser Deus, assumindo “a condição de escravo e assemelhando-se aos homens” (Fl 2,6s). Essa era a resposta paradoxal aos problemas humanos. Por isso, o mesmo Paulo podia dizer: “… nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus, e loucura para os pagãos” (1Cr 1,23).

Essa é uma “sabedoria”, insiste Paulo, que “não é a sabedoria deste mundo, nem a dos grandes deste mundo…”. Pois, “pregamos a sabedoria de Deus, misteriosa e secreta…” (1Cr 2,6-7). Em última análise, nessa sabedoria está em jogo a justiça entre os homens; a justiça que todos buscamos, mas que somos incapazes de alcançá-la. Pois, ela nos ultrapassa, está reservada ao Pai, o único capaz de fazer justiça no mundo. São Pedro foi quem o expressou de forma clara, exortando-nos a seguir “os seus passos”: “Ele ‘não cometeu pecado, nem se achou falsidade em sua boca’ (Is 53,9). Ele ultrajado, não retribuía com idêntico ultraje; ele, maltratado, não proferia ameaças, mas entregava-se àquele que julga com justiça” (1Pd 2,21-23).

E, o Pai fez justiça: Ressuscitou-o dentre os mortos, “o exaltou soberanamente e lhe outorgou um nome acima de todos os nomes, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho no céu, na terra e nos infernos. E toda língua confesse, para a glória de Deus Pai, que Jesus Cristo é Senhor!” (Fl 2,9-11). A Igreja do século XXI está enredada em problemas tão complexos e urgentes que se torna difícil perceber a “práxis” de Jesus, “os passos de Jesus”.

Entretanto, estimo que é por aí que passa e se evidencia a crise da Igreja de hoje e de todos os tempos. A busca da justiça, mais que nunca, tornou-se, com razão, o objetivo máximo dos cristãos. A crise, porém, começa quando se trata dos “passos” a seguir. Os “passos de Jesus” são demasiado radicais, semelhantes à loucura, provocam ceticismo e até escândalo. Requerem, por isso mesmo, outros olhos e outras razões que nos superam.

Jesus nos tinha advertido, em várias ocasiões, que o Reino de Deus não seria percebido por nossos sentidos e não seria entendido por nossas razões: “O Reino de Deus não virá de modo ostensivo” (“observável”) (Lc 17,20; Cf Mt 11,25s; Mc 4,11). Insuficientes seriam as ciências sociais, que são do visível, do estatístico… São Teófilo de Antioquia, do século II, fez uma afirmação que, por vezes, é citada fora do contexto, num contexto psicológico. Escreveu ele: “Se me disserem: ‘mostra-me o teu Deus’, dir-te-ei: ‘mostra-me o homem que és e eu te mostrarei o meu Deus’. Mostra, portanto, como vêem os olhos de tua mente e como ouvem os ouvidos de teu coração. Os que vêem com os olhos do corpo, percebem o que se passa nesta vida terrena… Na verdade, Deus é visível para aqueles que são capazes de vê-lo, porque mantêm abertos os olhos da alma…” (Lit. das Hs. vol. II, p.213). Portanto, parece que o contexto dessa afirmação de São Teófilo é, com toda evidência, teológico e não psicológico, ou sociológico. Numa palavra, quais olhos e quais ouvidos constituem o homem capaz de identificar Jesus e sua “práxis”?
Por essa trilha parece passar a eterna crise da Igreja…

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