A alma sedenta de Deus

O Salmo 62, no qual nos detemos para refletir, é o Salmo do amor místico que celebra a adesão total a Deus, partindo de um anseio quase físico e chegando à sua plenitude num abraço íntimo e perene. A oração faz-se desejo, sede e fome, porque envolve a alma e o corpo.

Como escreve Santa Teresa de Ávila, ‘A sede exprime o desejo de algo, mas um desejo tão intenso que perecemos se dele nos privamos’ (Caminho de perfeição, c. XIX).
Deste Salmo, a liturgia propõe-nos as primeiras duas estrofes, que estão centradas precisamente nos símbolos da sede e da fome, enquanto a terceira estrofe faz oscilar um horizonte obscuro, do juízo divino sobre o mal, em contraste com a luminosidade e a candura do resto do Salmo.

Então, iniciemos a nossa meditação com o primeiro cântico, o da sede de Deus (cf. vv. 2-4). É a aurora, o sol que está a nascer no céu obscuro da Terra Santa, e o orante começa o seu dia, indo ao templo para buscar a luz de Deus. Ele tem necessidade daquele encontro com o Senhor de maneira quase instintiva, dir-se-ia ‘física’.
Assim como a terra árida é morta, enquanto não for irrigada pela chuva, e assim como nas fendas do terreno ela se parece com uma boca desdentada e seca, assim o fiel aspira por Deus para ser por Ele saciado e poder assim existir em comunhão com Ele.
O profeta Jeremias já tinha proclamado: o Senhor é ‘fonte de águas vivas’, reprovando o povo por ter cavado ‘cisternas rotas, que não podem reter as águas’ (2, 13). O próprio Jesus exclamará em voz alta: ‘Se alguém tem sede venha a mim e beba… que acredite em mim’ (Jo 7, 37-38). Em plena tarde de um dia ensolarado e silencioso, Ele promete à mulher samaritana: ‘Quem beber da água que Eu lhe der, jamais terá sede, porque a água que Eu lhe der se tornará nele uma nascente de água a jorrar para a vida eterna’ (Jo 4, 14).

No que diz respeito a este tema, a oração do Salmo 62 relaciona-se com o cântico de outro Salmo maravilhoso: ‘Assim como a corça suspira pelas correntes de água, assim também a minha alma suspira por Vós, ó meu Deus. A minha alma tem sede do Senhor, do Deus vivo’ (41, 2-3). Pois bem, na língua do Antigo Testamento o hebraico a ‘alma’ é expressa com o termo nefesh, que nalguns textos designa a ‘garganta’ e em muitos outros chega a indicar todo o ser da pessoa. Compreendido nesta acepção, o vocábulo ajuda a entender como é essencial e profunda a necessidade de Deus; sem Ele faltam a respiração e a própria vida. Por isso, o Salmista chega a pôr em segundo plano a própria existência física, se vier a faltar a união com Deus: ‘O vosso amor é mais precioso do que a vida’ (62, 4). Inclusivamente no Salmo 72, repetir-se-á ao Senhor: ‘Além de Vós, nada mais anseio sobre a terra. A minha carne e o meu coração já desfalecem, mas o Senhor é para sempre a rocha do meu coração e a minha herança… o meu bem é estar perto de Deus’ (vv. 25-26 e 28).

Depois do cântico da sede, eis que se modula nas palavras do Salmista o cântico da fome (cf. Sl 62, 6-9). Provavelmente, com as imagens do ‘lauto banquete’ e da saciedade, o orador remete para um dos sacrifícios que se celebravam no templo de Sião: o sacrifício chamado ‘de comunhão’, ou seja, um banquete sagrado em que os fiéis comiam a carne das vítimas imoladas. Outra necessidade fundamental da vida é aqui utilizada como símbolo da comunhão com Deus: a fome é saciada quando se escuta a Palavra divina e se encontra o Senhor. Com efeito, ‘o homem não vive somente de pão, mas de tudo o que sai da boca do Senhor’ (Dt 8, 3; cf. Mt 4, 4). E aqui o pensamento do cristão corre para aquele banquete que Cristo preparou na última noite da sua vida terrestre, e cujo profundo valor Ele já tinha explicado durante o discurso de Cafarnaum: ‘A minha carne é, em verdade comida e o meu sangue é, em verdade, bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue fica em mim e eu nele’ (Jo 6, 55-56).

Através do alimento místico da comunhão com Deus, ‘a alma une-se a Ele’, como declara o Salmista. Uma vez mais, a palavra ‘alma’ refere-se a todo o ser humano. Não é sem motivo que se fala de um abraço, de um abraço quase físico: Deus e o homem já estão em plena comunhão, e dos lábios da criatura não pode brotar senão o louvor jubiloso e agradecido. Mesmo quando estamos na noite escura, sentimo-nos protegidos sob as asas de Deus, como a arca da aliança é coberta pelas asas dos querubins. E então floresce a expressão extática da alegria: ‘Exulto à sombra das vossas asas’. O medo dissolve-se, o abraço não se aperta ao vazio, mas ao próprio Deus, enquanto a nossa mão se entrelaça com o poder da Sua direita (cf. Sl 62, 8-9).
A partir de uma leitura do Salmo à luz do mistério pascal, a sede e a fome que nos impelem para Deus encontram a sua satisfação em Cristo crucificado e ressuscitado, de Quem chega até nós, mediante o dom do Espírito e dos Sacramentos, a vida nova e o alimento que a sustém.

É o que nos recorda João Crisóstomo que, comentando a anotação joanina: do lado ‘saiu sangue e água’ (cf. Jo 19, 34), afirma: ‘Aquele sangue e aquela água são símbolos do Baptismo e dos Mistérios’, ou seja, da Eucaristia. E conclui: ‘Vedes como Cristo atraiu a si mesmo a esposa? Vedes com que alimento Ele nos nutre a todos nós? Fomos formados e somos nutridos pelo mesmo alimento. Com efeito, assim como a mulher nutre aquele que ela gerou com o próprio sangue e leite, assim também Cristo alimenta continuamente com o seu sangue aquele que Ele mesmo gerou’.

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