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Qual é o significado cristão das lágrimas na Bíblia?

“Somente quando Cristo chorou e foi capaz de chorar é que compreendeu os nossos dramas.” Foi com essas palavras que, em um encontro com jovens nas Filipinas, em 18 de janeiro de 2015, o Papa Francisco explicou as lágrimas de Jesus. Ele explicou também que “certas realidades da vida só se veem com os olhos limpos pelas lágrimas”.

Em outro momento, numa Vigília de Oração, em 5 de maio de 2016, o Papa acrescentou: “Se Deus chorou, também eu posso chorar, ciente de que sou compreendido. O pranto de Jesus é o antídoto contra a indiferença face ao sofrimento dos meus irmãos. Aquele pranto ensina-me a assumir a dor dos outros, a tornar-me participante do incômodo e do sofrimento de quantos vivem nas situações mais dolorosas”.

Qual é o significado cristão das lágrimas na Bíblia

Foto Ilustrativa: Motortion by GettyImages

A graça de saber chorar pode ser considerada uma oração fervorosa e indispensável. As palavras do Papa Francisco nos confirmam: “Senhor, que eu chore contigo, chore com o teu povo que sofre neste momento. Muitos choram hoje. E nós, deste altar, deste sacrifício de Jesus, de Jesus que não teve vergonha de chorar, peçamos a graça de chorar” (29 de março de 2020).

O significado cristão das lágrimas

Na Palavra de Deus, o Salmo afirma que “Deus reúne as lágrimas de cada um em um odre e não perde nenhuma (Sl 56,9). Tais palavras encontram ressonância nas últimas páginas da Bíblia, no Livro do Apocalipse de São João: “…e o próprio Deus-com-eles será seu Deus. Ele enxugará toda lágrima dos seus olhos. A morte não existirá mais, e não haverá mais luto, nem grito, nem dor, porque as coisas anteriores passaram” (Ap 21,3-4).

Nos Evangelhos, encontramos Maria Madalena, que lava os pés de Jesus com as suas lágrimas, e o choro de São Pedro após trair seu Mestre. A arte nos ajuda a adentrar o Livro Sagrado e compreender episódios da Sagrada Família, como aqueles relacionados aos momentos de dor de Maria. As lágrimas de Nossa Senhora são de uma mãe pelo Filho, e por cada um de seus filhos.

Ao chorar, Jesus assume aspectos da essência humana e participa profundamente da nossa vida. No Evangelho de João, é possível ver a ênfase do momento em que Jesus chora a perda do seu amigo Lázaro:

Os judeus que estavam com Maria na casa consolando-a, viram que ela se levantou depressa e saiu; e foram atrás dela, pensando que fosse ao túmulo para chorar. Maria foi para o lugar onde estava Jesus. Quando o viu, caiu de joelhos diante dele e disse-lhe: “Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido”. Quando Jesus a viu chorar, e os que estavam com ela, comoveu-se interiormente e perturbou-se. Ele perguntou: “Onde o pusestes?”.

Responderam: “Vem ver, Senhor!”. Jesus teve lágrimas. Os judeus então disseram: “Vede como ele o amava!”. Alguns deles, porém, diziam: “Este, que abriu os olhos ao cego, não podia também ter feito com que Lázaro não morresse?”. De novo, Jesus ficou interiormente comovido. Chegou ao túmulo. Era uma gruta fechada com uma pedra. Jesus disse: “Tirai a pedra!”. Marta, a irmã do morto, disse-lhe: “Senhor, já cheira mal, é o quarto  dia”. Jesus respondeu: “Não te disse que, se creres, verás a glória de Deus?”. Tiraram então a pedra.  E Jesus, levantando os olhos para o alto, disse:  “Pai, eu te dou graças porque me ouviste! Eu sei que sempre me ouves, mas digo isto por causa da multidão em torno de mim, para que creia que tu me enviaste”. Dito isso, exclamou com voz forte: “Lázaro, vem para fora!”. O que estivera morto saiu, com as mãos e os pés amarrados com faixas e um pano em volta do rosto. Jesus, então, disse-lhes: “Desamarrai-o e deixai-o ir!”. (Jo 11,31-44)

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O choro narrado nas Sagradas Escrituras

No Evangelho de Lucas, Jesus chora ao se aproximar de Jerusalém, e profetiza a sua destruição: Quando Jesus se aproximou de Jerusalém e viu a cidade, começou a chorar. E disse: “Se tu também compreendesses hoje o que te pode trazer a paz! Agora, porém, está escondido aos teus olhos! Dias virão em que os inimigos farão trincheiras, te sitiarão e te apertarão de todos os lados. Esmagarão a ti e a teus filhos, e não deixarão em ti pedra sobre  pedra, porque não reconheceste o tempo em que foste visitada”. (Lc 19,41)

A manifestação da angústia de Cristo no Getsêmani acontece em meio à sua oração ao Pai:  Chegaram a uma propriedade chamada Getsêmani. Jesus disse aos discípulos: “Sentai-vos aqui, enquanto eu vou orar”. Levou consigo Pedro, Tiago e João, e começou a sentir pavor e angústia. Jesus, então, lhes disse: “Sinto uma tristeza mortal! Ficai aqui e vigiai!”. Jesus foi um pouco mais adiante, caiu por terra e orava para que aquela hora, se fosse possível, passasse dele. Ele dizia: “Abbá! Pai! tudo é possível para ti. Afasta de mim este cálice! Mas seja feito não o que eu quero, porém o que tu queres”. Quando voltou, encontrou os discípulos dormindo. Então disse a Pedro: “Simão, estás dormindo? Não foste capaz de ficar vigiando uma só hora? Vigiai e orai, para não cairdes em tentação! O espírito está pronto, mas a carne é fraca”. Jesus afastou-se outra vez e orou, repetindo as mesmas palavras. Voltou novamente e encontrou-os dormindo, pois seus olhos estavam pesados de sono. E eles não sabiam o que responder.
Ao voltar pela terceira vez, ele lhes disse: “Ainda dormis e descansais? Basta! Chegou a hora! Vede, o Filho do Homem está sendo entregue às mãos dos pecadores. Levantai-vos! Vamos! Aquele que vai me entregar está chegando” (Mc 14,32-42).

Trecho extraído do livro “Superando a dor da perda  de quem você ama”, de padre Licio Vale  Rodrigo Luiz dos Santos 

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Rodrigo Luiz dos Santos

Missionário na Canção Nova, Rodrigo Luiz é Diretor de Jornalismo da Canção Nova em São Paulo. Apresentador, estudou Filosofia e formou-se em Jornalismo pela Faculdade Canção Nova. É casado com Adelita Stoebel, também missionária na mesma comunidade. Autor de livros publicados pela Editora Canção Nova.

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