Descristianização

Onde encontrar Deus numa sociedade que O nega?

Estamos vivendo na sociedade da pós-modernidade marcada pelo crescente individualismo, materialismo, consumismo, hedonismo, pela intolerância e violência. A ordem social é legitimada não mais pela religião e ética, mas pelo mito do progresso científico. Tudo é justificado em nome do progresso e da felicidade. A ética dá lugar
para a técnica, e esta torna-se a resposta e a solução para todas as coisas, incluindo a busca de sentido para a existência humana. Surge o mito do progresso, e, com isso, a tradição, a religião são vistas como algo profundamente negativas e obsoletas.

Enquanto nas sociedades tradicionais, a esperança na Vida Eterna orientava as pessoas e fundamentava os seus valores, agora, busca-se o paraíso terrestre, cuja construção se dará pelas mãos humanas conduzidas pela razão, pelas ciências em busca da felicidade aqui e agora. Todos os desejos individuais se realizarão através do progresso técnico-científico, e não mais por meio da graça divina. Para muitos, Deus se tornou até mesmo desnecessário ou está “morto”.

No entanto, morte, miséria, violência, corrupção, frustrações pessoais, dúvidas existenciais, aumento da ansiedade, no índice de suicídios, desastres ecológicos etc., continuam existindo. Como diz Dráuzio Varella: “A depressão foi considerada pela Organização Mundial da Saúde como o ‘mal do século XXI’. Doença silenciosa, ela ainda é incompreendida inclusive por quem sofre do problema. Já fala-se sobre uma epidemia de depressão, pois ela atinge 10% da população mundial, e esse índice aumenta a cada ano”.

Onde encontrar Deus numa sociedade que O nega?

Foto ilustrativa: Paul Gueu by Getty images

Descristianização da nossa sociedade

Papa Bento XVI descreve esta realidade com clareza: “Se hoje existe um problema de moralidade, se hoje existe o problema da decomposição moral na sociedade, é resultado, sem dúvida, da ausência de Deus em nosso pensamento, em nossa vida”. Ainda o Papa Bento XVI, viver sem Deus provoca “a decomposição moral”, manifestada no individualismo, hedonismo, consumismo, exploração do outro e utilitarismo.

Alguns afirmam que está acontecendo um rápido estado de descristianização da nossa sociedade, da “morte de Deus” e isso tem se mostrado pelo aumento no número de pessoas que se declaram ateus ou dizem acreditar em uma divindade, mas vivem como se não existisse, que também é uma forma de ateísmo.

As perguntas que faço aqui são estas: “Onde podemos encontrar Deus numa sociedade que O nega e até mesmo O expulsa?” Posso afirmar que: “uma vida ‘habitada’ por Deus é bem diferente de uma vida deserta, sem Deus, encerrada nos estreitos limites humanos”? “Em que consiste esta diferença?”

A sociedade pós-moderna tem mostrado muitos caminhos, porém, são caminhos que ignoram a presença de Deus e dos seus valores na vida das pessoas. Deus se tornou alguém cada vez mais distante, desnecessário ou sem importância. O Papa Bento XVI afirma: “não temos mais coragem de acreditar que o homem é tão importante aos olhos de Deus e que Ele sempre cuida de nós e se preocupa conosco”. Muitas pessoas vivem como se Deus não existisse, construindo suas vidas sem contar com Ele.

O sentido da vida

Tudo isso é uma tentativa de levar o homem a negar a sua própria essência, o mais profundo do seu ser que é a presença de Deus em nós. Esta presença que dá sentido à nossa existência, que nos sacia e realiza. Podemos afirmar que só em Deus e com Deus seremos capazes de encontrar o sentido da vida e preencher a nossa existência.

A sede de Deus é condição da existência humana como afirma Santo Agostinho: “Criastes-nos para Vós, Senhor, e o nosso coração não descansa enquanto não repousar em Vós”. O homem se realiza somente em Deus. Negar esta verdade é negar a si mesmo. Fomos criados à imagem e semelhança de Deus e por isto não temos como fugir desta realidade. O sentido da vida não está no acúmulo de riquezas, na busca desenfreada do poder e do prazer, porque não são capazes de nos livrar da morte, mas em buscar as coisas do alto, porque o sentido do viver está em Cristo e, n’Ele, nos tornamos ricos para Deus.

Todos nós somos pessoas a quem Deus inquieta: há um “algo” na natureza do homem que o abre e projeta para o transcendente, que o leva a interrogar-se continuamente sobre Deus e a tentar encontrar o seu rosto. Portanto, Deus não é totalmente evidente: “Agora, nós vemos num espelho, confusamente, mas, então, veremos face a face. Agora, conheço apenas de modo imperfeito, mas, então, conhecerei como sou conhecido” (1Cor 13,12). Se confiarmos apenas nos nossos sentidos, Deus não existe: não conseguimos vê-Lo com os nossos olhos, sentir o seu cheiro ou tocá-Lo com as nossas mãos.

É extremamente existencial o que reza o salmista e expressa muito bem o grande desejo do homem:

“Assim como a corça suspira pelas águas correntes, suspira igualmente minh’alma por vós, ó meu Deus! Minha alma tem sede de Deus, e deseja o Deus vivo. Quando terei a alegria de ver a face de Deus? O meu pranto é o meu alimento de dia e de noite, enquanto insistentes repetem: ‘Onde está o teu Deus?’ Recordo saudoso o tempo em que ia com o povo. Peregrino e feliz caminhando para a casa de Deus, entre gritos, louvor e alegria da multidão jubilosa. Por que te entristeces, minh’alma, a gemer no meu peito? Espera em Deus! Louvarei novamente o meu Deus Salvador! Minh’alma está agora abatida, e então penso em vós, do Jordão e das terras do Hermon e do monte Misar” (Salmo 41 (42), 2-7)

Carência e solidão

Nosso ser continuamente clama pela presença de Deus, e tentar fugir de Deus é querer fugir de si mesmo, e isso é impossível e insuportável.

Em muitos momentos de nossa vida, sentimos “solidão”, não sabemos de onde vem e nos enganamos quando buscamos sentido em tantos outros lugares que não no próprio Deus. Esta “carência” ou “solidão” pode ser um meio de nos unir a Deus, como também não. Tudo depende de onde e como buscamos preencher o vazio de um ser com
ânsia de encontro, de presença, de verdadeiramente saciar a sede e preencher o coração.

Antropologicamente, o ser humano é carente do outro e do grande Outro. Existe em nós uma abertura natural para o outro e para o transcendente. Essa abertura do ser humano, que dá sentido à existência, coloca-nos em busca por Deus, a fim de que a vida possa ser preenchida e totalmente realizada. Este desejo é a procura pelo Amor e pelo
Amado. Deus continuamente quer saciar nossa sede: “Quem tem sede, venha a mim, e quem quiser, receba, de graça, a água da vida” (Ap 22,17).

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No Salmo 42, o salmista afirma que tem sede de Deus e que O deseja: “(…) a minha alma anseia por ti, ó Deus. A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo”. O salmista nos recorda que Deus é desejado pelo ser humano, que Ele é buscado pela existência. A presença de Deus é vital para a realização do ser humano, tal como a água para o animal sedento. A existência humana, muitas vezes não compreendida, anseia por Deus, pelo Deus vivo, a fim de que a sede de sentido da vida seja saciada.

A crise existencial da humanidade é, sem dúvidas, provocada pela “ausência” de Deus no coração do homem. Na medida em que nos fechamos para Deus, viramos as costas para Deus, perdemos em nossa essência, e por isso dizemos que o problema mais profundo em nossas vidas é a ausência de Deus, ou seja, a falta de consciência de que
Deus e o Seu Reino já está no meio de nós.

Rezemos com o Salmo 62(63) 2-9:

“Senhor, sois o meu Deus: desde a aurora Vos procuro. A minha alma tem sede de Vós. Por Vós suspiro, como terra árida, sequiosa, sem água. Quero contemplar-Vos no santuário, para ver o vosso poder e a vossa glória. A vossa graça vale mais que a vida: por isso os meus lábios hão-de cantar-Vos louvores. Assim Vos bendirei toda a minha vida e em vosso louvor levantarei as mãos. Serei saciado com saborosos manjares e com vozes de júbilo Vos louvarei. Quando no leito Vos recordo, passo a noite a pensar em Vós. Porque Vos tornastes o meu refúgio, exulto à sombra das vossas asas. Unido a Vós estou, Senhor, a vossa mão me serve de amparo.”

Lemos no Evangelho de Mateus 14,22-33 que, depois da multiplicação dos pães e tendo despedido as multidões, Jesus obriga os discípulos a entrarem na barca e, depois, Ele sobe ao monte para rezar. Os discípulos foram surpreendidos pelo mar revolto, a barca agitada pelo vento, Jesus aparece caminhando sobre as águas do lago, “mar” de Tiberíades ou Genesaré. Jesus salva Pedro ao tentar caminhar sobre as águas “Senhor, salva-me!” e depois acalma a tempestade, isto é, a vitória de Jesus: “Assim que subiram no barco, o vento se acalmou”.

A cena acontece à “noite”, representa as trevas, a escuridão, a confusão, a insegurança, o medo em que tantas vezes “navegam” na vida dos discípulos de Jesus, sem saberem precisamente que caminhos percorrer nem para onde ir; a barca agitada pelo mar revolto, as “ondas” que agitam a barca representam a hostilidade do mundo, que bate continuamente contra homens e mulheres que viajam. Os “ventos contrários” representam a oposição, a resistência do mundo ao projeto de Jesus e na vida dos seus discípulos e discípulas.

Coragem! Não tenhais medo!

Quantas vezes, em nossa viagem pela história, nos sentimos perdidos, sozinhos, abandonados, desanimados, desiludidos, incapazes de enfrentar as tempestades que as forças da morte e da opressão lançam contra nós. É exatamente neste momento que Jesus manifesta a Sua presença. Ele vem ao nosso encontro caminhando sobre o mar, manifestando assim que Ele é o Senhor que tem poder e domínio sobre todas as forças ameaçadoras da vida dos seus discípulos e discípulas.

Jesus é, portanto, o Deus que cuida do seu Povo e que não deixa que as forças da morte o destrua. A expressão “Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!” transmite aos discípulos e a cada um de nós a certeza de que nada temos a temer, porque Jesus, o Deus que vence as forças da morte, caminha conosco e nos dá força para vencermos a adversidade, a solidão e a hostilidade do mundo.

A falta de sentido existencial de tantas pessoas, muitas delas jovens, em grande parte se deve à falta de fé, ao vazio interior que promove a crise espiritual. Ter uma vida habitada por Deus é caminhar em Sua presença, e, ao mesmo tempo, ter a certeza de que nossa vida não se tornará um deserto quando preenchida pela presença amorosa de Deus.