setembro amarelo

O suicídio é um fenômeno complexo e que envolve vários fatores

Educar para a prevenção do suicídio

Falar sobre suicídio é um assunto delicado, significa quebrar um tabu e exige cuidado. Quando alguém comete um suicídio, a pergunta que as pessoas mais fazem: “Como pôde fazer isto?”. E, às vezes, paira o silêncio e a inquietação.

Mas, o pensamento suicida aparece com uma frequência maior do que sabemos ou imaginamos, pois, nem sempre, esse pensamento é declarado às pessoas próximas. Pode ser que, por medo ou por não conseguir elaborar suficientemente o assunto, a pessoa não consegue compartilhar com alguém. Para alguns psicólogos, o pensamento suicida, dentre os pensamentos negativos que uma pessoa possa ter, é considerado um dos mais significativos.

O Brasil registrou 11.433 mortes por suicídio em 2016, o equivalente a 31 casos por dia; registrando um aumento de 2,3% em relação ao ano de 2015. Esses dados foram fornecidos através do boletim epidemiológico do Ministério da  Saúde que foi divulgado dia 20 de setembro de 2018. O governo estima que o número real de casos seja 20% maior.

O suicídio é um fenômeno complexo e que envolve vários fatores

Foto ilustrativa: Wesley Almeida/cancaonova.com

Além desses dados, fala-se de mortes classificadas como de intenção, isto é, quando não se determina ou não sabe se foi um acidente ou uma tentativa de suicídio que levou a pessoa à morte. Em 2016, a taxa de mortalidade por suicídio no Brasil era de 5,8 casos a cada 100 mil habitantes. Em 2007, esse índice era de 4,9 mortes a cada 100 mil habitantes. E, atualmente, houve um aumento de 18%.

Houve um aumento expressivo das taxas de suicídio em todas as faixas etárias

Os dados mostram que o índice de mortalidade tem sido maior entre homens, pois apresentou crescimento de 28% na taxa de mortalidade em dez anos. Atualmente, a taxa de mortalidade entre os homens é de 9,2 casos a cada 100 mil habitantes. Já, entre as mulheres, a taxa é de 2,4 a cada 100 mil habitantes. Mas, quando observadas as tentativas de suicídio, mulheres são maioria (31% homens e 69% mulheres).

Apesar das mulheres responderem pela maioria das tentativas, a letalidade é maior entre homens (21% mulheres e 79% homens), ou seja, 4,7% daqueles que tentaram suicídio por intoxicação foram à morte. Entre as mulheres, esse índice é de 1,7%. De acordo com o Ministério da Saúde, a diferença pode estar associada ao uso de substâncias mais tóxicas.

Neste período, cerca de metade das tentativas de suicídio no país foram por intoxicações exógenas, como envenenamento, abuso de substâncias e outros meios. Em 2016 foram 36.279 tentativas de suicídio por intoxicação. No ano de 2015, eram 27.072. Os dados evidenciam a necessidade do governo adotar novas medidas de controle (agrotóxicos).

Entre as tentativas de suicídio por intoxicação, 70% eram de mulheres e a maioria jovens. Acredita-se que, tal índice se dá por conta da maior prevalência de casos de depressão e outras formas de sofrimento mental nesse grupo. Casos de violência e estupro também aparecem como fatores. Em geral, os homens são maioria quando observados os casos de intoxicação por agrotóxicos e outros venenos.

As estatísticas do Sistema Único de Saúde (SUS) mostram que o número de mortes por suicídio subiram 12% em cinco anos (2011 – 2016) no Brasil. Em 20 anos (1996 – 2016) o número de suicídios no Brasil praticamente dobrou, passando de 6743 para 11433 mortes. Entre os adolescentes de 10 a 19 anos, o aumento foi de 18% dos anos de 2011 até 2016. Suicídio é a quarta maior causa de mortes entre jovens de 19 a 29 anos. No entanto, constata-se aumento expressivo das taxas de suicídio em todas as faixas etárias.

Suicídio e responsabilidade pessoal

Hoje, pela psicologia, sabe-se que existe uma relação estreita entre isolamento social (alguém que não está integrado no corpo social; no caso do adolescente: alguém que não vê perspectiva de solução) e suicídio. Devemos dar atenção especial para as motivações psicossociais e culturais do suicídio. Subjetivamente, a responsabilidade inexiste ou é muito diminuída porque a liberdade está condicionada pela presença de processos psicológicos de caráter depressivo. Objetivamente, não se pode descartar possibilidades de suicídios também praticados com plena liberdade.

O suicídio é um fenômeno complexo e que envolve vários fatores. “Existem causas imediatas predisponentes – como perda do emprego, fracasso amoroso, morte de um ente querido ou falência financeira – que agem como o último empurrão para o suicídio”, diz a psicóloga Blanca Guevara Werlang, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), especialista em autópsia psicológica. Ainda: “A análise das características psicossociais do indivíduo, porém, revela os motivos que, ao longo da vida, o auxiliaram a estruturar o comportamento suicida. Ela pode mostrar as razões para morrer que estavam enraizadas no estilo de vida e na personalidade”.

De 2011 até 2016, desde que se tornou obrigatória, foram registradas 176.226 lesões autoprovocadas, sendo 27,4% tentativas de suicídio. Lesões autoprovocadas, conforme as estatísticas oficiais, classificam qualquer lesão ou envenenamento autoinfligidos intencionalmente e de grande potencial letal.

Fatores que levam as pessoas ao suicídio

Famílias cada vez menores e ausentes da vida dos filhos e filhas; a ausência de círculos sociais com vínculos fortes; a solidão dos adolescentes; ambiente escolar muitas vezes desfavorável. As frustrações com a própria vida; o sentimento de não pertencimento; a pressão social pelo sucesso e pelo corpo perfeito; a depressão. E, um dos  fatores que mais impacta a autoestima dos estudantes é o bullying e que se estende nas redes sociais e vira ciberbullying¹.

São muitos os fatores que podem explicar por que os suicídios estão aumentando entre os adolescentes. “Desesperança em relação ao futuro. O adolescente olha ao redor e vê desemprego, violência… E quando olha para a própria vida e não enxerga saída para os seus dramas pessoais, o risco aparece”². A instabilidade e a ausência de um sentido de vida são características da adolescência. Quando não encontram uma estrutura familiar e social que os ajudem, pode torná-los mais vulneráveis.

Conforme artigo da Revista Nova Escola de setembro de 2018, um dos “aspectos que pode estar por trás do aumento do número de suicídios entre jovens é a mudança das relações sociais, tanto na família quanto em outros círculos de convivência social. Os especialistas são unânimes em afirmar que: pessoas com mais proximidade com familiares e amigos têm menos propensão ao suicídio. Essa tendência já havia sido identificada pelo sociólogo francês Émile Durkheim (1858-1917) em seu famoso livro “O Suicídio” (1897).

Na obra, Durkheim, nota por meio de dados estatísticos da época que os “vínculos sociais fortes”, especialmente com a família, são um fator de proteção importante. Muitos adolescentes com ideação suicida (ato de pensar e até planejar o suicídio) recuam pelo medo de magoar pais, avós, irmãos etc. O sentido de vida e os vínculos sociais dão força aos indivíduos, mesmo nas situações mais extremas.

Um outro trabalho na área da Psiquiatria é o do médico austríaco Viktor Frankl (1905-1997). Viktor viveu os horrores dos campos de concentração nazista e notou que, enquanto algumas pessoas sucumbiam rapidamente ao sofrimento, outras tinham uma resiliência muito maior.

Educar para a prevenção

Especialistas discutem a necessidade de refletir com a sociedade o problema e as alternativas de prevenção; aprofundar os estudos sobre fatores de risco. Entre alguns deles, estão o desemprego como fator associado e casos de violência contra as mulheres.

A atenção dos familiares, pessoas mais próximas, professores, etc., são importantes para a identificação de sinais de alerta. E, também, uma formação de uma comissão de saúde mental composta de profissionais, membros da sociedade, etc., nos centros de saúde, nas escolas. Comissão essa capaz de refletir procedimentos e buscar informações mais adequadas. E, ainda, palestras nas escolas, Igrejas, etc., com formação específica para lidar com questões emocionais.

O Brasil possui Centros de Atenção Psicossocial (Caps), que podem prestar apoio aos interessados. Instalar uma política de posvenção, ou seja, o conjunto de medidas que se deve tomar após a ocorrência de um suicídio, como a assistência à família, aos colegas mais próximos, aos de convívio social, à escola, etc., especialmente às pessoas que apresentam algum sintoma depressivo. O CVV (Centro de Valorização da Vida) que atua na prevenção ao suicídio, atende por telefone ou chat pessoas que precisam conversar (telefone 188 e cvv.org.br).

Leia mais:
::Aceitar-se é o primeiro passo para conseguir conviver com o próximo
::O que cartas tem a ver com primavera?
::O ser humano não sabe mais lidar com suas emoções
::O que acontece com o cérebro dos adolescentes no desenvolvimento?

A vida tem valor

Uma reflexão filosófica mais profunda da contemporaneidade revela que, a vida, não é mais considerada um valor — pois, diante da moderna sociedade de consumo, perdeu gravemente o caráter sagrado — e, por isso, o suicídio também foi banalizado. A vida tornou-se alternativa descartável. A sociedade de consumo é falsamente hedonista: promete gratificação imediata e, ao mesmo tempo, frustra as próprias perspectivas que oferece.

O suicídio seria, também, uma consequência dessa impulsividade: uma reação às promessas não cumpridas de felicidade e satisfação instantâneas, e à decepção que daí decorre. “O suicídio, hoje, vem da dificuldade de entrar em contato consigo mesmo. O autoconhecimento dá trabalho, exige empenho e tolerância à frustração”.

O suicídio, então, torna-se um meio de expressão, uma fala que não pôde ser dita, um ato de linguagem, de comunicação. As tentativas de se matar são vistas como um grito por ajuda, sintoma de uma falha tanto no sistema familiar quanto no grupo social.

O que o magistério católico reflete sobre o suicídio

2280- Cada um é responsável por sua vida diante de Deus, que lhe deu e que dela é sempre o único e soberano Senhor. Devemos receber a vida com reconhecimento e preservá-la para honra dele e salvação de nossas almas. Somos os administradores e não os proprietários da vida que Deus nos confiou. Não podemos dispor dela.

2281- O suicídio contradiz a inclinação natural do ser humano a conservar e perpetuar a própria vida. É gravemente contrário ao justo amor de si mesmo. Ofende igualmente ao amor do próximo, porque rompe injustamente os vínculos de solidariedade com as sociedades familiar, nacional e humana, às quais nos ligam muitas obrigações. O suicídio é contrário ao amor do Deus vivo.

2282- Se for cometido com a intenção de servir de exemplo, principalmente para os jovens, o suicídio adquire ainda a gravidade de um escândalo. A cooperação voluntária ao suicídio é contrária à lei moral. Distúrbios psíquicos graves, a angústia ou o medo grave da provação, do sofrimento ou da tortura podem diminuir a responsabilidade do suicida.

2283- Não se deve desesperar da salvação das pessoas que se mataram. Deus pode, por caminhos que só Ele conhece, dar-lhes ocasião de um arrependimento salutar. A Igreja ora pelas pessoas que atentaram contra a própria vida.

Em atitude cristã e pastoral diante dos familiares da pessoa que se suicidou, não se deve dar margem nenhuma para que os familiares se desesperem contra a situação dos que atentam contra a própria vida (achem argumentos para falar dos caminhos que Deus tem).

Referências:

1 Fontes: American Foundation for Suicide Prevention; Centro de Valorização da Vida (CVV); “Comportamento
Suicida: Vamos Conversar Sobre Isso?”, de Neury José Botega, membro-fundador da Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio; “Preventing Suicide: a Global Imperative”, da OMS. Revista Nova Escola – setembro de 2018 – novaescola.org.br; Jornal Folha de São Paulo – 21 de setembro de 2018.

2 Uma pesquisa sobre o assunto, publicada em 2016 pela Organização das Nações Unidas (ONU), com 100 mil crianças e jovens de 18 países, relata que 20% das pessoas vítimas de agressões verbais ou físicas constantes apresentaram pensamentos suicidas.


Padre Mário Marcelo

Mestre em zootecnia pela Universidade Federal de Lavras (MG), padre Mário é também licenciado em Filosofia pela Fundação Educacional de Brusque (SC) e bacharel em Teologia pela PUC-RJ. Mestre em Teologia Prática pelo Centro Universitário Assunção (SP). Doutor em Teologia Moral pela Academia Alfonsiana de Roma/Itália. O sacerdote é autor e assessor na área de Bioética e Teologia Moral; além de professor da Faculdade Dehoniana em Taubaté (SP). Membro da Sociedade Brasileira de Teologia Moral e da Sociedade Brasileira de Bioética.

Evite nomes e testemunhos muito explícitos, pois o seu comentário pode ser visto por pessoas conhecidas.