VITIMISMO

Os males da autopiedade: quando o sofrimento vira identidade

Desânimo, amargura e ingratidão

Tenho percebido este grande mal que hoje afeta muitas pessoas, e me parece que, de certa forma, são estimuladas a isso até pelos que querem manipulá-las, especialmente aquelas que mais precisam de ânimo e estímulo para vencer os problemas existenciais.

A autopiedade é o mau hábito de olhar para si mesmo principalmente como vítima das circunstâncias, concentrando-se excessivamente nas próprias dores, injustiças e limitações. Quando isso se torna habitual, pode produzir vários frutos negativos, fazendo a pessoa sofrer e também fazer os outros sofrerem.

Créditos: Yta23 by Getty Images

Antes de tudo gera o “vitimismo”; a pessoa passa a atribuir constantemente aos outros ou às circunstâncias a responsabilidade pelo que lhe acontece; acha-se uma vítima da sociedade e dos outros.

Isso gera o desânimo, a pessoa perde a esperança de que possa mudar ou superar as dificuldades. Pode cair na amargura e no ressentimento, e fica se lembrando e remoendo as ofensas e os fracassos sofridos, sem vencer a inércia; em vez de agir, fica, então, à espera de que alguém resolva seus problemas ou reconheça seu sofrimento. “Ai que dó de mim!”

A autopiedade gera amargura e ressentimento porque produz a revolta contra tudo e contra todos, como se os outros fossem responsáveis pelos seus problemas. É claro que isso gera também ingratidão, pois as dificuldades ocupam tanto espaço, que as coisas boas recebidas deixam de ser percebidas.

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Egocentrismo e inveja

O vitimista vive se comparando com os outros e pode ser dominado pela inveja, ciúme, e até mesmo violência, por achar que é justo: “Por que os outros têm uma vida melhor do que a minha?”

Ele pode cair no isolamento, e até afastar familiares e amigos, especialmente quando toda conversa passa a girar em torno das próprias dores. “O senhor lamúria! Pode ficar sempre na dependência da aprovação dos outros, buscando constantemente compaixão, atenção e reconhecimento do próprio sofrimento.

Quem cultiva a autopiedade tem dificuldade de perdoar, porque se acha injustiçado, o que é grave. Pode também perder a alegria até mesmo diante de coisas boas, porque a atenção permanece fixada no que falta ou no que deu errado.

O vitimista age com egoísmo, egocentrismo, porque fica excessivamente centrado em seus próprios problemas e deixa de perceber as necessidades dos outros. Em vez de perguntar: “O que posso fazer por alguém?”, concentra-se em “O que fizeram comigo?”. É claro que tudo isso leva a um perigoso enfraquecimento espiritual, a dúvidas, revoltas contra Deus e contra os outros, e à dificuldade de aceitar a cruz com fé.

Para o cristão, é urgente lutar contra a autopiedade. A Palavra de Deus nos coloca muitas passagens que nos incitam a fugar do “ai que dó de mim!”.

A alternativa à autopiedade não é negar a própria dor, mas apresentá-la a Deus e transformá-la em ocasião de crescimento, oração, serviço e confiança.

São Paulo diz: “Em tudo somos atribulados, mas não abatidos; perplexos, mas não desesperados” (2Cor 4,8). “Tudo concorre para o bem dos que amam a Deus” (Rom 8,28).

“Em todas as circunstâncias, dai glória a Deus, porque essa é a vontade de Deus a vosso respeito em Cristo Jesus” (1 Tes 5,17). “Completo na minha carne o que falta à Paixão de Cristo pelo seu corpo, que é a Igreja” (Col 1,24).

São Pedro aconselha: “Lançai sobre ele toda a vossa preocupação, porque ele cuida de vós” (1Pd 5,7).

Podemos encher páginas com passagens bíblicas que reprovam a autopiedade:

Fil 4,13 – “Tudo posso naquele que me fortalece.”

Rom 8,37 – “Em tudo isso somos mais que vencedores, graças àquele que nos amou.”

Josué 1,9 – “Sê forte e corajoso! Não temas nem te acovardes, porque o Senhor teu Deus está contigo.”

Tg 1,2-4 – “Considerai uma grande alegria, meus irmãos, quando tiverdes de passar por diversas provações.”

2 Cor 4,8-9 – “Em tudo somos atribulados, mas não esmagados; perplexos, mas não desesperados.”

Provérbios 24,16 – “Pois o justo cai sete vezes e torna a levantar-se.”

2 Tim 1,7 – “Deus não nos deu um espírito de covardia, mas de força, de amor e moderação.”

1 Cor 10,13 – “Deus é fiel e não permitirá que sejais provados acima das vossas forças.”

Lucas 9,23 – “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me.”

O cristão deve lutar contra a autopiedade com humildade; reconhecer que tem limitações, mas que pode contar com Deus para aceitar a sua realidade e trabalhar com a graça de Deus para vencer os problemas, sem lamentações, revoltas e acusações aos outros. Deve sempre dizer: “Esta situação é difícil, mas posso enfrentá-la com a graça de Deus”.

E também agir com caridade. “Minha dor não precisa me impedir de cuidar dos outros”. Saindo de si mesmo, do seu isolamento, para servir ao outro, vai vencendo o vitimismo, que, infelizmente é estimulado por muitos meios hoje, como já disse, até pelos que querem manipular as pessoas.