Carlo não ficava indiferente
Em uma época marcada pelo desafio de construir relações mais humanas e combater o bullying, a vida de São Carlo Acutis apresenta uma mensagem profundamente atual: ninguém deve ser deixado de lado.
Relatos de pessoas que conviveram com Carlo mostram sua atenção aos colegas que eram deixados de lado. Ele se aproximava daqueles que enfrentavam dificuldades e chegou a defender um colega com deficiência que sofria provocações e bullying. Ele não enxergava aquele colega apenas como alguém que precisava de ajuda. Ele o reconhecia como amigo.
Aqui encontramos uma das grandes lições de sua vida para a Igreja e para a sociedade: inclusão começa quando deixamos de olhar para a deficiência como aquilo que define uma pessoa e passamos a enxergar o ser humano, sua história, seus sentimentos, seus dons e sua dignidade.
Quando percebia que alguém estava sendo humilhado, Carlo não ficava indiferente. Quando via alguém sozinho, aproximava-se. Quando encontrava alguém que precisava de amizade, oferecia amizade.

Créditos: Arquivo pessoal / carloacutis.com
Uma fé que se transforma em atitude
São Carlo Acutis é conhecido por sua profunda devoção à Eucaristia e por seu desejo de levar outras pessoas a conhecer Jesus. Sua vida espiritual, porém, não o afastava das pessoas. Pelo contrário: quanto mais se aproximava de Cristo, mais se aproximava dos irmãos. Sua fé estava ligada ao serviço e à amizade.
Isso nos ensina algo fundamental: uma Igreja que deseja ser inclusiva precisa formar pessoas capazes de enxergar o outro e agir.
Não basta dizer que todos são bem-vindos. É preciso perguntar: Quem está sozinho? Quem está sofrendo? Quem está sendo deixado de lado? Quem precisa de um amigo?
Carlo nos ensina a não passar indiferentes
Quando falamos da inclusão das pessoas com deficiência, pensamos, com razão, em acessibilidade física: rampas, banheiros adaptados, lugares adequados, recursos de comunicação e outras estruturas necessárias.
Tudo isso é importante, mas São Carlo Acutis nos lembra que existe uma barreira ainda mais profunda: a barreira da indiferença. Uma igreja pode ter acessibilidade arquitetônica e, mesmo assim, alguém pode continuar se sentindo sozinho.
Podemos oferecer estruturas e recursos, mas, se não houver amizade, respeito, escuta e fraternidade, a inclusão permanecerá incompleta.
Carlo nos apresenta um caminho simples e concreto: aproximar-se.
Incluir também é sentar ao lado, conversar, defender quem sofre, convidar para participar, reconhecer os dons do outro e construir amizades verdadeiras.
“Todos nascem como originais”
Uma das frases mais conhecidas de Carlo Acutis afirma: “Todos nascem como originais, mas muitos morrem como fotocópias.”
Essa frase ilumina profundamente nossa compreensão sobre a inclusão. Cada pessoa é única. Cada pessoa tem uma história. Cada pessoa possui dons que Deus colocou em sua vida. Por isso não podemos reduzir alguém à sua deficiência.
Uma pessoa com deficiência não é apenas alguém que precisa receber. Ela também tem muito a oferecer. Pode evangelizar, servir, rezar, participar das pastorais, desenvolver seus talentos e testemunhar a presença de Deus.
Uma Igreja verdadeiramente inclusiva não pergunta somente: “O que podemos fazer por essa pessoa?” Ela também pergunta: “O que essa pessoa pode oferecer à comunidade?”
Essa mudança de olhar transforma a maneira como acolhemos.
O combate ao bullying começa no coração
O testemunho de Carlo também fala diretamente às famílias, escolas, paróquias e grupos de jovens. O bullying não é uma simples brincadeira. Ele pode ferir profundamente a dignidade de uma pessoa e deixar marcas que permanecem por muitos anos. Carlo percebeu isso e não escolheu o silêncio.
Seu exemplo nos convida a ensinar crianças e jovens a reconhecer a dignidade de cada colega. É preciso formar uma geração que não transforme a diferença em motivo de humilhação e que tenha coragem de defender quem está sendo injustiçado.
O cristão não pode ser espectador diante do sofrimento:
- – Quando alguém é humilhado, a caridade nos chama a nos aproximar.
- – Quando alguém é excluído, o Evangelho nos chama a acolher.
- – Quando alguém é ferido, somos chamados a cuidar.
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O que Carlo pode ensinar às nossas paróquias?
A inclusão começa com um simples gesto: chamar alguém pelo nome, sentar ao seu lado e dizer: “Venha, fique conosco”. Esse gesto aparentemente pequeno pode revelar o rosto de Cristo.
São Carlo Acutis morreu jovem, mas sua vida continua falando especialmente às novas gerações. Ele mostrou que é possível viver a santidade no cotidiano: na escola, entre amigos, na família, na paróquia e junto daqueles que sofrem.
Sua santidade não o afastou do mundo. Fez com que ele olhasse para o mundo com os olhos de Cristo, e nos recorda que a inclusão começa pelo coração.
- Antes de construir uma rampa, precisamos construir pontes.
- Antes de criar uma pastoral, precisamos criar vínculos.
- Antes de falar sobre inclusão, precisamos aprender a amar.
Talvez essa seja uma das maiores lições que São Carlo Acutis deixa para nós: quando encontramos Jesus, não conseguimos permanecer indiferentes diante daquele que sofre.
Que nossas paróquias sejam lugares onde ninguém seja motivo de riso, ninguém seja deixado para trás e ninguém precise perguntar se existe lugar para ele.
Porque, onde Cristo está, sempre existe lugar para mais um.
Cynthia Santos é mestra em Comunicação Acessível pelo Instituto Politécnico de Leiria e licenciada em História pela PUC-Minas, católica comprometida com a evangelização, com uma trajetória dedicada à comunicação, à cultura e à inclusão. Com experiência internacional em países como Portugal, Estados Unidos, Israel, Itália e Espanha, destacou-se como produtora criativa do programa “Mãos que Evangelizam” (TV Canção Nova) e integrou, em Portugal, o marketing do Essence Inn Marianos (Fátima), primeiro hotel acessível do país. Atualmente, vive em Portugal e atua com formação e consultoria em acessibilidade.






