Uma lágrima de amor à Paixão, por devoção ao Precisíssimo Sangue, vale mais do que mil jejuns
Se há uma heresia verdadeiramente cômica neste mundo, é a ideia de que podemos comprar o Céu medindo nossa própria santidade com uma régua de alfaiate. Empilhamos jejuns como se fossem moedas, desfiamos salmos como quem conta relatórios de produção e marchamos até Roma com a altivez de um turista que exige os direitos de sua passagem. Olhamos para as nossas pequenas privações e pensamos: “Vejam como sou virtuoso!”.

Créditos: Andreas Pavias (1440-1504/1512) / Domínio Público
Que tolice adorável e terrível! Um homem pode jejuar a pão e água todas as sextas-feiras do ano, pode gastar os joelhos nos pavimentos da Cidade Eterna, e ainda assim estar tão longe de Deus quanto um astrônomo orgulhoso está das estrelas que calcula. Pois vejam: o diabo também não come, não bebe e conhece as Escrituras de cor, mas falta-lhe uma única coisa: o amor. Por isso, garanto-vos com toda a certeza do Evangelho: mais vale uma só lágrima derramada na intimidade do vosso quarto, brotada da terna memória da Paixão de Jesus, do que o mais barulhento dos heroísmos exteriores.
O olhar fixo na Paixão não é apenas um exercício de piedade; é o centro de gravidade de toda sanidade espiritual. Sem o mistério da cruz e da ressurreição, as nossas devoções se tornam cascas vazias, espantalhos vestidos de gala. Até mesmo os santos Sacramentos perdem o sabor para nós quando esquecemos que cada gota de graça neles contida foi comprada a preço de sangue. O Sangue de Cristo é o símbolo de Sua entrega total, o argumento definitivo de um Deus que ama infinitamente Suas criaturas.
Viver a devoção a este Preciosíssimo Sangue não é uma escolha entre tantas, é a devoção por excelência
Santa Catarina de Sena, iniciava quase todas as suas cartas dizendo: “Eu, Catarina, serva e escrava dos servos de Jesus Cristo, escrevo-vos no Seu Precioso Sangue…”. Ela compreendeu, com a simplicidade que escapa aos sábios assintomáticos, que o Sangue de Cristo não é um líquido do passado, mas o próprio oxigênio da alma, o ambiente espiritual onde o cristão se move, respira e se comunica.
A humanidade, por uma escolha deliberada e soberba, decidiu sujar-se na lama do pecado, recusando a visão plena que Deus lhe havia preparado. Éramos mendigos orgulhosos, recusando o palácio. E o que fez o Rei? Em Sua infinita e terna misericórdia, em vez de nos esmagar com o Seu poder, fez-Se homem para nos lavar com o Seu Sangue. O Criador do universo inclinou-Se sobre a nossa miséria com a delicadeza de uma mãe que limpa as feridas do filho rebelde.
O caminho de Jesus até o Calvário deixa um rastro luminoso na história. Cada gota vertida é o selo da Encarnação divina, o testemunho de um sofrimento que gerou méritos infinitos para nos resgatar. Deus fez-Se homem, padeceu e morreu por nós sem que tivéssemos qualquer direito a isso. O Seu Sangue é a marca do maior favor que poderia existir no universo, concedido ao menor merecimento que se poderia imaginar. É a suprema ironia da Graça: recebemos tudo quando não merecíamos nada.
Os teólogos nos dizem que uma única gota desse Sangue Preciosíssimo seria suficiente para redimir a humanidade inteira e mil mundos mais, tamanha é a dignidade d’Aquele que o derramou. No entanto, a entrega de Cristo não foi matemática, foi generosa; não foi econômica, foi pródiga. Ele não quis apenas nos redimir; quis nos convencer do Seu amor. Ele passou por todos os ultrajes, esvaziou Suas veias e entregou até a última gota para que entendêssemos, de uma vez por todas, onde habita a Verdade. E a Verdade não se encontra no topo de um palácio humano, mas no alto de uma colina escura, manifestada em um Deus que Se diminui até o extremo para nos elevar até Si.
Diante de um Amor tão exagerado, tão magnificamente louco, o meu coração não encontra repouso. O amor de Cristo me urge! Olho para a minha vida, olho para as nossas pequenas ofertas e sinto uma santa vergonha. Oh, meu Deus, quão pouco é tudo o que Lhe damos! O que é o nosso tempo, o que são as nossas pobres afeições diante d’Aquele que deu Seu Sangue e Sua própria vida por nós?
Como bem escreveu São João Crisóstomo: “Ele deu tudo para ti, e reteve nada para si mesmo”. Portanto, deixemos de lado as nossas contabilidades espirituais. Esqueçamos o orgulho dos nossos jejuns e das nossas obras pretensiosas. Entremos na correnteza desse Sangue redentor com um coração humilde, confiante e profundamente grato. Sejamos pequenos, sejamos dóceis, pois a única resposta justa a um Deus que nos deu tudo é entregar-Lhe o nosso nada, mas o nosso nada meditado em sua paixão, no Seu Preciosíssimo Sangue derramado na cruz.
Equipe do Formação Canção Nova




