Você, certamente, já viveu alguma situação em que seu corpo reagiu a uma emoção intensa ou evento estressor significativo, e isso está ligado à somatização
Uma dor muscular devido à tensão, alguma alteração hormonal sem aparente motivo, dores de cabeça ou incômodos gastrointestinais. Algumas pessoas fazem pilhas e pilhas de exames e, no final, escutam do médico: “Olha, isso é emocional”. Hoje, a ciência moderna sabe que o corpo pode manifestar aquilo que a mente não conseguiu processar emocionalmente. Esse fenômeno recebe o nome de somatização.

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Os reflexos físicos das emoções
Pensamentos, sentimentos e emoções intensas represadas estão relacionados a transtornos psíquicos como depressão, ansiedade e burnout, mas também a dores e doenças físicas do corpo. Por exemplo: sabemos que o estresse crônico altera diretamente a microbiota intestinal e provoca irritação da mucosa estomacal, causando inflamações gastrointestinais. Sabemos também que estresse e ansiedade crônica, como o Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), podem causar tensão muscular, crises de coluna e cefaleias tensionais. Altos níveis de cortisol, o chamado hormônio do estresse, estão ligados à baixa imunidade, deixando o organismo mais vulnerável a infecções por vírus e bactérias. Há ainda o que chamamos de transtorno de sintomas somáticos (TSS), definido pela APA (Associação Americana de Psiquiatria) como um transtorno onde existe uma preocupação exagerada e catastrófica em relação a sintomas físicos que atrapalha a vida cotidiana da pessoa, inclusive fazendo-a manifestar sintomas no corpo como dores de cabeça, náuseas e até sintomas depressivos.
E por que isso acontece? O estresse emocional constante ativa sistemas biológicos ligados ao cortisol
Quando esse estado se prolonga por muito tempo, o corpo entra em alerta permanente. Em outras palavras, o cérebro interpreta as emoções reprimidas como uma ameaça a todo o organismo e envia mensagens para que o corpo “reaja” a esse perigo. Na somatização, seu corpo não está adoecendo porque está “fraco”, ele está adoecendo porque está reagindo de forma exagerada. E o problema está justamente aí: quando o corpo passa muito tempo reagindo ao estresse, ele acaba ferindo a si mesmo.
Muitas pessoas foram ensinadas a esconder sentimentos desde muito cedo. Frases como “engole o choro”, “isso é frescura”, “seja forte” ou “pare de drama” foram repetidas desde a infância. O resultado é que crescemos acreditando que sentir medo, raiva ou frustração é algo ruim que não deve ser exteriorizado. E o pior: muitas pessoas nem sequer sabem dar nome ao que sentem quando estão diante de eventos estressores, um conceito que chamamos de alexitimia. Pessoas assim geralmente não conseguem perceber claramente se estão tristes, frustradas, ansiosas ou emocionalmente feridas. Elas sentem tudo no corpo. A tristeza vira dor de cabeça. A ansiedade vira gastrite. O medo vira tensão muscular. O estresse vira insônia. E tudo isso, negligenciado por muito tempo, faz o organismo adoecer com hipertensão, diabetes, dermatites atópicas entre outros problemas.
Pesquisas também mostram uma ligação forte entre somatização e experiências difíceis na infância, como traumas, por exemplo. Crianças que cresceram em ambientes abusivos com violência, abandono emocional, críticas excessivas, medo constante ou falta de acolhimento emocional podem desenvolver mais dificuldade para lidar com emoções na vida adulta. Um estudo publicado no periódico Frontiers in Pediatrics analisou crianças com vários sintomas físicos sem explicação médica e encontrou que 88% delas tinham vivido, pelo menos, uma experiência adversa na infância, um dado que ajuda a entender por que algumas pessoas são mais vulneráveis à somatização do que outras.
Se você se identifica como uma pessoa que reprime suas emoções e sente que seu corpo reage de forma intensa aos seus pensamentos e sentimentos, a pergunta que deve estar se fazendo agora é: o que fazer?
Todos nós precisamos entender e mudar a nossa relação com o que sentimos
A primeira coisa é entender que emoções e sentimentos não são ruins em si mesmo. Sentir raiva de algo ou alguém é normal e até saudável. O comportamento que tenho a partir deste sentimento é que vai dizer se isso é bom ou ruim. Por exemplo: se uma pessoa me traiu, eu posso sentir frustração e até raiva dessa pessoa. Posso, inclusive, manifestar a minha raiva sem ser impulsiva e agressiva. Lembro-me aqui das palavras de São Paulo aos efésios “Irai-vos, e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira” (Efésios 4, 26). O problema é quando essa raiva fica contida, se transforma em pensamentos disfuncionais e ruminativos e passa a manifestar-se no corpo.
Outro fator de suma importância é a psicoterapia
Encontrar um lugar seguro e acolhedor onde você possa colocar essas emoções reprimidas é um bálsamo que muitas pessoas ainda não se permitiram viver. A intervenção com maior número de estudos favoráveis para a somatização é a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC). Uma metanálise internacional que reuniu 15 estudos clínicos controlados com mais de 1.600 pacientes mostrou que a TCC reduziu significativamente os sintomas físicos, a ansiedade e a depressão nesses pacientes, e os resultados se mantiveram mesmo meses depois do fim do tratamento.
Abordagens baseadas em mindfulness (técnicas de atenção plena ao momento presente) também têm mostrado bons resultados, especialmente para pessoas que sofrem de fibromialgia, síndrome do intestino irritável e fadiga crônica. Essas práticas ajudam o paciente a observar as sensações do corpo sem entrar em pânico com elas, quebrando justamente o ciclo de hipervigilância que alimenta a somatização.
Um ponto que os especialistas frisam é que o tratamento da somatização raramente funciona quando é feito só com remédios. O que realmente ajuda é dar palavras ao sofrimento, entender de onde ele vem, aprender a nomear emoções. Isso não é coisa de gente fraca, é, na verdade, um dos atos mais corajosos que uma pessoa pode fazer por si mesma.
Se você se identificou com algum trecho deste texto, vale a pena conversar com um psicólogo. Não porque algo está “errado” com você, mas porque talvez o seu corpo já esteja tentando dizer algo há algum tempo, e você merece ter alguém que te ajude a ouvir. Busque ajuda!





