Comunicar Deus é um chamado

A sua comunicação revela Deus ou você mesmo?

Mensagem do Papa Leão XIV alerta para o risco de construir à nossa volta um mundo de espelhos, onde tudo é feito “à nossa imagem e semelhança”

O que sua comunicação tem revelado? Quando você escreve uma mensagem para alguém no WhatsApp ou nas postagens das redes sociais, tem sido essa presença do Senhor para o próximo em sua comunicação?

Crédito:Mariia Vitkovska / GettyImages

Crédito: Mariia Vitkovska / GettyImages

Comunicar Deus é um chamado a todo ser humano. Desde o princípio, fomos criados à imagem e semelhança d’Ele. Mas corremos um sério risco de “construir à nossa volta um mundo de espelhos, onde tudo é feito ‘à nossa imagem e semelhança’”, como alerta o Papa Leão XIV em sua mensagem para o 60ª Dia Mundial das Comunicações Sociais celebrado no Domingo da Ascensão do Senhor (17 de maio de 2026).

Preservar vozes e rostos humanos em meio à IA

“Preservar vozes e rostos humanos” em meio aos avanços da inteligência artificial (IA). O texto nos leva a perceber riscos e oportunidades dessa tecnologia. O Papa Leão XIV aponta para a necessidade do uso responsável desses meios fundamentado na educação e cooperação criando mecanismos de proteção à dignidade de cada pessoa.

A mensagem busca valorizar rosto e voz como traços únicos e distintivos de cada pessoa, manifestação da identidade irrepetível e elemento constitutivo de cada encontro. A origem grega das palavras “voz” e “rosto” indica o que está diante do olhar: o lugar da presença e da relação. Já o termo latino persona (de per-sonare) inclui o som: não um som qualquer, mas a voz inconfundível de alguém.

A Igreja avalia positivamente os avanços tecnológicos: “postos ao serviço do Evangelho, tais meios são susceptíveis de ampliar, quase até ao infinito, o campo para poder ser ouvida a Palavra de Deus e fazem com que a Boa Nova chegue a milhões de pessoas”, escreveu o Papa Paulo VI na Exortação Evangelii Nuntiandi em 1975.

Riscos e alertas da Igreja

Apesar do otimismo, essas novidades podem representar preocupações para a Igreja que, como Mãe, tem o dever de alertar. Por exemplo, “os algoritmos recompensam emoções rápidas e penalizam expressões humanas que requerem mais tempo, como o esforço para compreender e a reflexão”. Um recente estudo das universidades de Stanford e Carnegie Mellon mostrou que quase metade dos usuários considera IA como amigo, companheiro ou até parceiro romântico. Essa valorização é considerada por estar sempre disponível e nunca abandonar, por trazer respostas rápidas e sem julgamento.

Há um ano no pontificado, Leão XIV afirmou, no início de sua eleição, que uma de suas preocupações é o desenvolvimento da inteligência artificial e seus desafios para a defesa da dignidade humana, da justiça e do trabalho, além de instrumentalizar as relações entre as pessoas baseadas no algoritmo. “Veio somar-se a isso uma confiança ingenuamente acrítica na inteligência artificial como ‘amiga’ onisciente, dispensadora de todas as informações, arquivo de todas as memórias, ‘oráculo’ de todos os conselhos”.

Ser ou fingir

Outro ponto que merece atenção é a simulação de relações e da realidade: ser ou fingir. Corremos o risco de construir à nossa volta um mundo de espelhos, onde tudo é feito “à nossa imagem e semelhança”. Portanto, “o poder da simulação é tal que a IA pode também iludir-nos com a construção de ‘realidades’ paralelas, apropriando-se dos nossos rostos e das nossas vozes”.

Neste sentido, surgiu até uma nova palavra para descrever uma conexão que as pessoas sentem com uma inteligência artificial: parassocial, eleita a palavra do ano de 2025 e incluída no Dicionário Cambridge. Renunciar ao processo criativo e entregar às máquinas as próprias funções mentais e a própria imaginação significa enterrar os talentos recebidos para crescer como pessoas em relação a Deus e aos outros. Significa esconder o nosso rosto e silenciar a nossa voz.

Portanto, convido você: examine sua comunicação diária. Ela reflete a imagem de Deus ou um espelho de si mesmo? Que o Senhor nos conceda a graça de não silenciar nossa voz nem esconder nosso rosto. Sejamos vozes e rostos vivos de Deus no mundo digital! “Ide e anunciai!” (Mt 28,19).

Rodrigo Luiz dos Santos – Jornalista, natural de Votorantim/SP, casado e membro da Comunidade Canção Nova desde 2000 no modo de compromisso do Núcleo.