Ministério petrino

Uma paz desarmada e desarmante: marcas do início do pontificado de Leão XIV

O primeiro ano do ministério do Papa Leão XIV deve ser compreendido não apenas como uma sucessão de eventos cronológicos, mas como o amadurecimento de um projeto

Desde a sua eleição, o Pontífice tem centrado o seu ministério petrino em dois pilares fundamentais: a promoção incansável da paz em um mundo fragmentado pela guerra e a continuidade corajosa das reformas iniciadas pelo Papa Francisco. Com um olhar atento e uma sensibilidade pastoral aguçada, ele reafirma que a credibilidade da Igreja passa pela atenção dedicada aos mais vulneráveis, especialmente aos pobres e migrantes.

Créditos: Domínio público / Ricardo Perna

 

Para Leão XIV, a reforma não é um ajuste burocrático, mas uma necessidade orgânica. Ele compreende que o corpo místico de Cristo exige uma saúde que só se obtém no movimento de saída em direção ao outro. Este primeiro ano revelou um sucessor de Pedro que não teme os processos longos, preferindo iniciar caminhos de transformação interna que priorizam a escuta ativa sobre a mera imposição institucional.

Essa postura reflete a essência de uma “Igreja desarmada”, que abdica de poderes temporais para se tornar “desarmante” em sua mansidão e acolhida. Ao integrar a sensibilidade social com a mística da proximidade, o Pontífice estabelece as bases de um governo que busca curar as feridas do mundo contemporâneo através de uma presença compassiva e profundamente encarnada nas dores da humanidade.

A Teologia da Ferida como Missão Eclesial

A missão do Papa Leão XIV tem se caracterizado por um estilo que teólogos descrevem como “pastoral do encontro”, marcado pela abdicação das distâncias protocolares em favor de uma “encarnação” nas realidades humanas periféricas.

Homem de profunda vida interior e inteligência poliglota, o Pontífice traduz sua mística em gestos cotidianos, como o diálogo sereno e a humanização do cargo, demonstrando a coragem de tocar as chagas sociais da nossa época. Essa postura reflete sua primeira saudação na Praça de São Pedro, em 8 de maio de 2025, na qual definiu a paz de Cristo como algo “desarmado e que desarma”, proveniente de um Deus que ama a todos incondicionalmente.

Para nós, missionárias scalabrinianas que caminhamos junto com os migrantes e refugiados, Leão XIV é o pastor que nos encoraja em nossa doação diária através da “Teologia da Ferida”. Ele nos recorda que uma Igreja que não se deixa ferir pela dor do mundo dificilmente poderá curá-lo, elevando a proximidade com o sofrimento humano de um simples recurso de imagem para uma exigência fundamental do Evangelho. Essa visão alimenta o desejo de uma Igreja Sinodal, que atua como antídoto contra o clericalismo e a estagnação, buscando ser uma instituição que não observa a caridade de longe, mas procura a proximidade real.

Segundo o Pontífice, a verdadeira paz é o fruto de uma Igreja que sabe escutar o Espírito através do grito dos excluídos e que reconhece no estrangeiro o próprio Cristo. Desde suas primeiras palavras, o Papa expressou uma sensibilidade peculiar às questões sociais, reiterando que a harmonia e a paz só são possíveis quando a dignidade e os direitos fundamentais de cada pessoa são respeitados. Assim, a missão scalabriniana encontra eco em seu magistério, onde o desarmamento do espírito e a acolhida ao vulnerável se tornam as bases para a construção de uma sociedade mais justa.

A concretude do amor cristão

Podemos dizer que a publicação da Exortação Apostólica Dilexi Te (“Eu te amei”) selou este primeiro ano. O documento é um chamado à ação pragmática, no qual Leão XIV adverte que o amor de Cristo pelos pobres não pode ser reduzido a uma abstração teológica ou a um assistencialismo pontual.

No texto, o Papa afirma: “Estou convencido de que a opção preferencial pelos pobres gera uma renovação extraordinária tanto na Igreja como na sociedade, quando somos capazes de nos libertar da autorreferencialidade e conseguimos ouvir o seu clamor” (DT 7). A partir disso, ele convida as comunidades a se configurarem ao Coração de Cristo por meio do encontro com os pequenos. O Papa alerta, ainda, para o risco de substituir o Evangelho por ideologias mundanas ou juízos injustos, frisando que “se não quisermos sair da corrente viva da Igreja, que brota do Evangelho, não podemos esquecer os pobres”.

Um horizonte de continuidade e esperança

Leão XIV não rompe com o passado; ele o fecunda com novas urgências. Ao levar adiante o legado de Francisco, o Pontífice garante que a reforma da Igreja seja um processo irreversível de conversão ecológica e pastoral. O tema central deste pontificado é a tradução da fé em atitudes: o “Eu te amei” divino exige uma resposta humana que se manifeste em políticas de acolhimento e estruturas de justiça, onde todas as pessoas possam ter acesso a uma vida digna.
Percebemos essa atitude de Leão XIV também na intenção de oração para este mês de maio, quando pede para rezarmos juntos “por uma alimentação para todos”, através de gestos concretos que transformem “a lógica do consumo egoísta em cultura de solidariedade”.

Esse primeiro ano do pontificado de Leão nos deixa a certeza de que a Igreja é aquela que não teme a sua própria fragilidade. É no reconhecimento das feridas que se revela a força da Ressurreição. Que o seu ministério continue a ser este testemunho de esperança para todos os que buscam em Deus um refúgio e, na Igreja, um lar de justiça e paz.

Ir. Eléia Scariot – missionaria scalabriniana