Há uma pergunta que atravessa todo o Evangelho segundo São Marcos e, de certo modo, atravessa também a nossa vida: quem é Jesus? Não se trata de uma curiosidade teórica, mas de uma decisão existencial. Desde o início, o evangelista já apresenta a resposta — Jesus é o Filho de Deus (Mc 1,1) —, mas, ao longo da narrativa, ele nos conduz por um caminho em que essa verdade precisa ser descoberta, acolhida e vivida.
São Marcos escreve de forma direta, sem introduções longas. Jesus não aparece criança, não há relatos de sua infância. Ele surge já adulto, ensinando e agindo. E isso não é um detalhe: o Evangelho já começa colocando o leitor dentro da missão, dentro da tensão, dentro da pergunta. É como se dissesse: “Você também precisa saber quem Ele é”.

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O chamado e o caminho do discipulado
Desde o início, Jesus chama discípulos – que somos nós. Pessoas comuns, no meio de suas atividades, são convidadas a segui-Lo (Mc 1,16-20). O chamado é imediato e exige entrega. Mas há um ponto essencial: os discípulos caminham com Jesus sem compreendê-Lo plenamente. Eles veem, mas não enxergam. Escutam, mas não entendem, pois a compreensão de quem é Jesus acontece gradualmente.
Um exemplo disso é quando Jesus pergunta: “E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mc 8,29). Pedro responde: “Tu és o Cristo”. Ele acerta, mas não completamente. Porque, logo em seguida, quando Jesus anuncia Sua Paixão, Morte e Ressurreição (Mc 8,31), Pedro o repreende. Ele acredita em Jesus, mas ainda não acredita num Jesus que irá se entregar, sofrer, morrer…
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O Messias além das expectativas humanas
Aqui está um dos pontos centrais do Evangelho de São Marcos: Jesus é o Messias, mas não segundo as expectativas humanas. Ele não vem como líder político, não vem para instaurar um reino terreno, não vem para resolver apenas problemas imediatos. Ele vem como Servo Sofredor (Isaías 53). Seu caminho passa pela cruz. E isso desconcerta. Desconcertou os discípulos e continua desconcertando hoje.
A lógica do Reino de Deus
Por isso, Jesus insiste em formar Seus discípulos. Ensina que quem quiser ser o primeiro deve ser o último e servo de todos (Mc 9,35). Ensina que é preciso perder a vida para ganhá-la (Mc 8,35). Ensina que o Reino de Deus não segue a lógica do poder, mas a lógica do amor ao próximo.
Essa lógica aparece também na forma como Jesus se relaciona com as pessoas. Ele acolhe os que estão à margem: os doentes, os pecadores, os excluídos, os pagãos. Mostra que o Reino não é conquistado por mérito, mas acolhido com fé. A mulher que sofre há anos é curada pela fé (Mc 5,34). O cego reconhece o Messias antes de muitos que enxergavam (Mc 10,47). Uma estrangeira compreende aquilo que muitos do povo de Deus não compreenderam (Mc 7,28-29).
Em contraste, aqueles que deveriam reconhecer — os doutores da Lei — rejeitam. Conhecem a Escritura, mas não reconhecem o Autor da Escritura. Veem os sinais, mas não creem. E assim se cumpre um drama central no Evangelho: os de fora entram, e muitos de dentro ficam de fora.
Um convite pessoal
Por isso, a pergunta que São Marcos faz ao longo de todo o Evangelho continua ecoando hoje: Quem é Jesus para você? E mais ainda: Você está disposto a segui-Lo — não apenas até os milagres, mas até a cruz — para, com Ele, viver a ressurreição?
Professor Denis Duarte
Especialista em Bíblia e Cientista da Religião
@prof.denisduarte





