HIPERCONECTIVIDADE

Como construir relacionamentos que nos levam para o céu?

Vivemos em um tempo de conexões rápidas, mas, paradoxalmente, de relacionamentos fragmentados. Conectamo-nos de forma tão veloz que essa pressa atropela a nossa capacidade de construir relações verdadeiras.

A hiperconectividade proporciona o contato imediato com centenas ou milhares de pessoas, mas o relacionamento não se pauta apenas em conexões, e sim em construção. A conexão é o contato imediato que nos liga ao outro; contudo, com essa mesma rapidez, ao deparar-se com os dissabores próprios do convívio, ela é desligada. Na linguagem digital, surge o tão famoso “cancelamento”.

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Da conexão à construção

A construção exige etapas rigorosas. Ela é capaz de nos tirar da superficialidade e nos levar a uma profunda relação, que resgata o sentido intrínseco do homem, um “ser de relações”. Essa relação se desdobra em diversos níveis: imanente (consigo mesmo) e transcendente (com Deus, com o mundo e com o próximo). A relação é um aspecto essencial do ser humano; se ele a nega, consequentemente, se desumaniza. O ser humano tem a necessidade de relacionar-se, pois é no encontro que ele experimenta o real sentido da sua própria natureza.

Para construir um relacionamento que nos leve para o céu, é exigida uma presença real. No livro “Os quatro amores” (1960), C. S. Lewis previu o “maior bug de 2026” muito antes de o primeiro servidor ser ligado: a desumanização dos afetos. O resultado? Uma multidão conectada através do 5G, mas totalmente desconectada do seu sentido existencial.

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“Os quatro amores” na era digital

Lewis nos apresenta quatro faces do amor que hoje parecem distorcidas:

Afeição

É o amor pelo familiar. No Instagram, ela virou exposição. O excesso de câmeras matou a naturalidade do convívio; amamos a “imagem” da família, mas não a sua rotina.

Amizade

Não é sobre quem concorda comigo; ela exige o choque da diferença e o caminhar juntos em direção a uma verdade comum.

Eros

É o desejo pelo outro. A modernidade, porém, quer apenas o prazer que o outro proporciona. Queremos “tudo” do outro, mas morremos de medo da intimidade real.

Caridade (Ágape)

É o amor que não pede nada em troca. Em tempos de cancelamento, o Ágape é o silêncio que perdoa e a mão que sustenta.

Gosto muito de uma frase de Lewis nessa obra: “Não existe investimento seguro. O simples fato de amar é uma vulnerabilidade.” Em outras palavras, não existe relacionamento sem risco. Relacionar-se nos deixa vulneráveis porque nos pede a entrega total de nós mesmos e exige a coragem de acolher o outro por inteiro.

O outro como “sacrário”

O mundo digital pode nos levar a tratar as pessoas como perfis abstratos. No entanto, o cristão é chamado a tratar o próximo como “sacrário”, como “templo vivo” do Espírito Santo. Por isso, quero desafiar você hoje: saia da segurança das telas e tenha a coragem de se abrir a verdadeiros relacionamentos.

Alessandra Soares Hummel Satim
Membro da Comunidade Canção Nova desde 2023, no modo de compromisso do Núcleo