Obediência cristã

Apresentação do Senhor no Templo: humildade e esperança

Jesus entrou no templo por três motivos

A apresentação do Senhor no templo está narrada no Evangelho de São Lucas, no capítulo dois, versículos vinte e dois a trinta e dois. Segundo o texto sagrado, “Maria e José levaram Jesus a Jerusalém, a fim de apresentá-lo ao Senhor” (Lc 2,22). Jesus é apresentado em um lugar que, para o povo da antiga aliança, representa a presença de Deus. Aqui, particularmente, o templo de Jerusalém era o centro religioso do antigo Israel, e Jesus, por meio deste gesto simples, entra formalmente na história da fé de Israel.

Créditos: Arquivo CN.

Considerando o contexto da época, Jesus entra no templo para ser apresentado por três motivos, a fim de cumprir aquilo que a antiga Lei de Moisés prescrevia. Em primeiro lugar, a consagração do primogênito ao Senhor, conforme está narrado no livro do Êxodo e retomado por Lucas: “Todo primogênito do sexo masculino deve ser consagrado ao Senhor” (Lc 2,23; cf. Ex 13,2.12). Quando o povo de Deus saiu da escravidão do Egito, os primogênitos dos egípcios morreram, enquanto os de Israel foram poupados. Essa apresentação é, portanto, uma recordação da Páscoa, da passagem e da salvação. A apresentação do primogênito era uma oferta: o primogênito não significava necessariamente apenas o primeiro entre muitos, mas podia indicar também o primeiro e único, como foi o caso de Jesus.

Em segundo lugar, a purificação da mulher após o parto, narrada em Levítico, no capítulo doze. Após o parto, a mulher era considerada ritualmente impura e precisava ser purificada no templo por meio de um rito específico. Maria, porém, era virgem, como professa o dogma da fé, antes, durante e depois do parto; e, por obediência, humildade e solidariedade para com o povo, submete-se à Lei.

Em terceiro lugar, segundo o que diz Lucas no capítulo dois, tudo isso acontece para cumprir a Lei do Senhor. Como afirma Mateus no capítulo cinco, “Jesus não veio para abolir a Lei, mas para cumpri-la”. Jesus, portanto, é o verdadeiro Templo (cf. Jo 2,19-21), que acolhe e dá pleno sentido a ele.

Considerando esse contexto, é possível afirmar que José, pai adotivo de Jesus; Maria, sua mãe; e o próprio Jesus, Deus encarnado, assumem para si uma obediência humilde à Lei. Trata-se de uma humildade que não questiona, mas aceita, na simplicidade da fé. Quantas vezes nós, diante da possibilidade de nos confessarmos, de participarmos da missa ou de rezarmos o santo terço, resistimos porque nos achamos autossuficientes e caímos na tentação de pensar que bastamos a nós mesmos? Eis que a Sagrada Família, símbolo de perfeição, segue com humildade a Lei antiga.

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A figura de Simeão e sua fidelidade, aberto à ação de Deus

Ainda no texto, ao tratar da humildade, encontramos a figura de Simeão, apresentado como justo, isto é, fiel à Aliança; piedoso, aberto à ação amorosa de Deus e como aquele que, com paciência, espera a consolação do Senhor.

A justiça, a piedade e a esperança de Simeão são motivadas, segundo o texto, pelo Espírito Santo, que estava sobre ele, que lhe revelava e o conduzia ao templo. Assim, o reconhecimento do Messias não acontece por acaso, mas é obra do próprio Deus.

Quando Simeão acolhe nos braços o menino Jesus, que acabara de nascer e estava sendo apresentado no templo, o significado é profundo: o Antigo Testamento acolhe o Novo Testamento que acaba de nascer. Nas mãos de Simeão, a promessa encontra o início do seu cumprimento. Com razão, disse o justo e piedoso Simeão: “Meus olhos viram a tua salvação”. A salvação que, como recorda o Papa Bento XVI, não é uma ideia, mas uma pessoa: Jesus Cristo, o Ungido e Salvador. Essa salvação ultrapassa Israel sem negá-lo, pois a história de Israel é acolhida e levada à plenitude em Jesus.

Portanto, diante da apresentação do Senhor, somos chamados a viver como José, Maria e Jesus, na obediência à Palavra de Deus; e a viver, como Simeão, a espera confiante, sabendo esperar sem desespero diante das dores, das solidões e das humilhações. Quem vive uma humildade obediente, como Simeão, verá a salvação que vem de Deus. Amém.

Padre Leandro Rodrigues dos Santos
Arquidiocese de Curitiba
Mestre em teologia na Universidade Salesiana de Roma
Reitor do Seminário Propedêutico São João Maria Vianney