A fé como dom de Deus e o exemplo inabalável de Maria
“A fé é um dom de Deus, uma virtude sobrenatural infundida por Ele” (CATECISMO, n. 153). Portanto, o ato de acreditar não é fruto apenas de um esforço humano, mas é também ação da graça de Deus e do movimento do Espírito em nós. Em outras palavras, o Senhor vem em nosso auxílio para que acreditemos e, quanto mais unidos a Ele, tanto mais cresceremos na fé.
O Catecismo da Igreja Católica afirma também que a fé “é a virtude teologal pela qual cremos em Deus e em tudo o que nos disse e revelou, e que a Santa Igreja nos propõe para crer, porque Ele é a própria verdade. Pela fé, o homem livremente se entrega todo a Deus. Por isso, o fiel procura conhecer e fazer a vontade de Deus” (n. 1814). Desta forma, compreendemos que não é sentimento, e sim virtude, sem a qual não conseguimos viver nossa relação com Jesus.

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A diferença entre conhecimento histórico e entrega espiritual
Com a ausência da fé, nossa experiência com Ele vai ser a mesma de quem estuda um personagem da história: veremos o Senhor como alguém que existiu num tempo, num espaço e morreu deixando um legado, ou poderemos acreditar também que Cristo cumpriu o seu papel e está no Céu, indiferente a tudo o que vivemos por aqui.
Crer é ir além disso. É confiar em Jesus e no que Ele disse a ponto de nos entregarmos ao seu projeto hoje, de integrar a “vontade de Deus” à nossa, deixando-o assumir o comando das coisas hoje, na realidade em que vivemos de pandemia, quarentena, isolamento, problemas econômicos, dificuldades familiares, doenças e tantas outras questões. A virtude da fé vai se fortalecendo em nós a cada resposta de entrega total e confiança que depositamos em Deus, mesmo nos tempos difíceis.
Maria: o modelo perfeito de fé
Maria é para nós modelo de alguém que acreditou integralmente no Senhor. Ao receber o anúncio do anjo, ela não hesitou, mas deu uma pronta resposta ao que tinha sido proposto a ela por Deus. Desse modo, sem pensar nos desafios que viveria a partir deste “sim”, entregou-se e aderiu ao projeto do Senhor para a sua vida. Ela creu que o Pai poderia fazer nela algo impossível aos olhos humanos, como foi a concepção de Jesus.
A firmeza de Nossa Senhora diante das provações
Essa fé em Maria mantém-se inabalável, mesmo nas piores condições: quando precisou fugir para o Egito porque Herodes queria matar Jesus; quando ouviu a profecia de Simeão no dia da apresentação do Senhor no Templo ou quando Jesus se perdeu aos 12 anos. A fé sem limites da Virgem é evidenciada no momento da Paixão e Morte do Senhor: Maria acredita, mesmo quando encontra Jesus indo para o Calvário; não lhe falta a fé quando estava de pé aos pés da Cruz. Sentia dor ao ver seu Filho morrendo, sofria pela falta de fé de muitos e por ver o corpo de Jesus dilacerado; entretanto, não deixou de confiar. Ela não estava indiferente a tudo isso. Pelo contrário, como mãe, sente na pele e na alma a dor do seu Filho, porém não se desespera nem deixa de acreditar que tudo aquilo estava sob a vontade de Deus. Continuou a ter fé também na hora em que pegou seu Filho nos braços, sem vida, e o sepultou. Em Maria, a fé não era infundada. No que ela acreditava? No que Jesus falou: que haveria de ressuscitar!
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Maria nos sustenta
Na sua audiência geral do dia 1º de abril de 2015, o Papa Francisco falou: “No Sábado Santo, a Igreja identifica-se mais uma vez com Maria: toda a sua fé está reunida nela, a primeira e perfeita discípula, a primeira e perfeita crente. Na obscuridade que envolve a criação, ela permanece sozinha a manter acesa a chama da fé, esperando contra qualquer esperança (cf. Rm 4, 18) na Ressurreição de Jesus”.
Portanto, no momento mais difícil na vida de fé dos apóstolos, Maria foi quem sustentou a fé da Igreja. Se olharmos as Escrituras, veremos que não há relatos de Maria indo ao sepulcro no domingo de manhã, como as mulheres que foram lá para embalsamar o corpo de Jesus (cf. Lc 24, 1-8). Depois do anúncio de Madalena, Pedro e João também foram ao túmulo. João até afirma que, lá no sepulcro, “viu e creu” (cf. Jo 20, 8).
Essa afirmação do Papa nos sugere que, enquanto os apóstolos viveram — da Sexta-Feira Santa ao Domingo da Páscoa — a tristeza de quem ainda não acreditava na ressurreição, Maria, no Sábado Santo, mesmo sofrida, viveu a fé de que Cristo iria ressuscitar. É provável que ela não tenha ido ao sepulcro porque acreditava, contra toda a esperança, na Ressurreição de Jesus. E até por isso o sábado é o dia dedicado a Maria.
A fé que precisamos cultivar hoje
A fé é, portanto, uma das virtudes que sustentou Nossa Senhora e que sustenta todo cristão. Diante das piores dificuldades e das situações mais adversas, como essa que a humanidade está vivendo — da pandemia que nos põe isolados e sem certezas do que vai ser amanhã ou na dúvida sobre quais atitudes devemos tomar — é a partir da fé que precisamos agir. Da fé que mantém acesa a esperança que nos conserva fiéis, ainda que tudo em nossa volta pareça ruir.
Neste momento, importa ter em nossos corações a Palavra de Deus, a Tradição e o Magistério da Igreja, que nos mostram que a morte não é a última palavra e que a nossa fé é pascal: passa pela morte e termina com a vida. Hoje, podemos pedir ao Senhor, com a intercessão da Virgem Maria, o dom e a virtude da fé, para que ela nos conduza com a graça e a ação do Espírito. Na nossa vida nada acontece por acaso! Em todas as situações, precisamos ver com os olhos da fé.






