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Matrimônio e abertura à fecundidade: o amor que gera vida

Entre o conforto e o compromisso: o que ainda esperamos do amor?

Em uma cultura marcada pelo medo de compromissos definitivos e pela busca constante de conforto, falar de fecundidade no matrimônio pode parecer deslocado. No entanto, a Igreja continua a afirmar, com profunda coerência antropológica, que o matrimônio é, por sua própria natureza, aberto à vida. O Catecismo ensina que o amor conjugal é ordenado ao bem dos esposos e à geração e educação dos filhos (CIC 1652).

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Essa abertura, contudo, não deve ser compreendida de maneira reducionista, como se o valor do matrimônio dependesse exclusivamente da capacidade biológica de gerar filhos. A bioética personalista de Elio Sgreccia amplia essa compreensão ao afirmar que a fecundidade é, antes de tudo, uma expressão do amor entendido como dom.

Fecundidade além do biológico: o amor como dom

Ser fecundo significa ser capaz de sair de si, de acolher e gerar vida — seja ela biológica, educativa, social ou espiritual. Casais que não podem ter filhos biologicamente não vivem um matrimônio incompleto. Eles continuam plenamente chamados a uma fecundidade real, expressa no cuidado, no serviço, na hospitalidade e no amor que transborda para além do próprio casal.

O que preocupa hoje não é apenas a redução do número de filhos, mas a mudança de mentalidade. Em muitos casos, filhos são vistos como ameaça à liberdade, enquanto vínculos mais fáceis de controlar e menos exigentes ocupam esse espaço. Essa inversão revela uma dificuldade contemporânea de aceitar que o amor verdadeiro envolve risco, sacrifício e responsabilidade.

A abertura à vida não significa irresponsabilidade, mas confiança. Confiança de que a vida é dom e de que o amor conjugal é chamado a ser maior do que o medo. Quando o casal se fecha deliberadamente à fecundidade, fere a lógica do amor como entrega total.

Métodos naturais e a harmonia com a natureza humana

Nesse contexto, métodos naturais de reconhecimento da fertilidade, como o Método Billings, tornam-se especialmente relevantes. Eles respeitam o corpo da mulher, promovem o diálogo conjugal e estão em sintonia com uma visão integral da pessoa humana, pois ensinam a cooperar com a natureza, e não a dominá-la.

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A abertura à vida como gesto contracultural e de confiança

Em uma cultura que evita vínculos duradouros e transforma o medo em critério de decisão, a abertura à fecundidade surge como um gesto profundamente contracultural. Vale perguntar: o que perdemos quando deixamos de gerar vida — não apenas biologicamente, mas também em sentido humano e social? Talvez a crise não esteja na fecundidade, mas na dificuldade de confiar que o amor verdadeiro exige mais e, justamente por isso, vale a pena.

Fabiana Azambuja é membro da Comunidade Canção Nova desde 1997. Mestre em Filosofia Personalista. Especialista em Aconselhamento terapêutico e Bioética. Educadora do Método de Ovulação Billings desde 1998. FEMM Teacher Training Program. Algumas das contribuições em publicações: Artigos no livro “Adolescentes a caminho do Mestre”, Edições CNBB e Artigos no livro “Itinerário para Namorados”, Comissão Nacional da Pastoral Familiar. Autora do livro “Gerar vida no Amor, com responsabilidade”, pela Editora Canção Nova.

Referências Bibliográficas

IGREJA CATÓLICA. Catecismo da Igreja Católica. São Paulo: Loyola, 2000. (cf. especialmente n. 1652).

SGRECCIA, Elio. Manual de Bioética. Vol. I: Fundamentos e ética biomédica. São Paulo: Loyola, 2009.

SGRECCIA, Elio. A pessoa humana e a bioética. São Paulo: Loyola, 2013.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DO MÉTODO BILLINGS. Método de Ovulação Billings. Melbourne: WOOMB International, documentos institucionais.