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Crise de vocações ou falta de escuta? O que precisamos mudar hoje?

O despertar da cultura vocacional

Quando refletimos sobre a pastoral vocacional na Igreja, precisamos começar pelo essencial: a sua primeira finalidade é despertar, formar e sustentar uma verdadeira cultura vocacional. E essa cultura não pode ser algo distante ou restrito a poucos. Ela deve estar viva na consciência de todos os cristãos que participam da vida da Igreja, especialmente na comunidade paroquial.

Créditos: Arquivo CN.

O coração do Evangelho e a realidade da messe

Mas o que significa, de fato, ter consciência vocacional? Para responder a isso, é preciso voltar ao coração do Evangelho. Ali, o próprio Cristo nos apresenta uma realidade que atravessa os séculos: “A messe é grande, mas os operários são poucos. Pedi, pois, ao dono da messe que envie operários” (Mt 9,37-38). Nessas poucas palavras, Jesus revela tudo.

Primeiro, Ele constata um fato: a messe é grande. A Igreja é grande. A missão é imensa. Ela se estende por todos os lugares, alcança todas as pessoas, se faz presente nas comunidades, nas paróquias, nas famílias. A messe está aí, diante de nós. Mas, em seguida, vem o problema: os operários são poucos. Faltam trabalhadores para essa obra tão vasta. Faltam vocações. Faltam padres. E essa não é apenas uma constatação de hoje — é uma realidade que o próprio Cristo já havia apontado.

A estratégia divina: o poder da oração

E então vem aquilo que mais surpreende: a solução. Jesus não propõe estratégias humanas, não sugere planos complexos, não apresenta métodos organizacionais. Ele diz simplesmente: “Pedi”. A resposta é a oração.

À primeira vista, isso pode parecer pouco. Mas, na verdade, é tudo. O Concílio Vaticano II nos recorda que o povo de Deus é formado por todos: pastores e fiéis, ministros ordenados e leigos, religiosos e religiosas. E todos, sem exceção, participam da vida e da missão da Igreja. Isso significa que a responsabilidade pelas vocações não é de alguns, mas de todos.

O fundamento de todo chamado

É por isso que podemos afirmar, sem medo de errar: a oração é o primeiro e mais eficaz promotor vocacional. Sim, o testemunho de vida conta. Uma comunidade viva atrai. Um padre fiel inspira. Famílias comprometidas ajudam a semear vocações. Tudo isso é importante — e muito. Mas nada disso substitui o fundamento de tudo: o chamado de Deus.

A vocação não nasce de um projeto humano. Ela nasce no coração de Deus. E, no entanto, Deus quis precisar da nossa oração. Ele quis nos envolver. Ele quis que participássemos desse mistério. De tal modo que, quando o povo reza, Deus chama. Quando o povo pede, Deus responde. Quando a Igreja suplica, o Senhor suscita vocações.

A qualidade das vocações: legitimidade e santidade

Um povo que reza por vocações não fica sem vocações. Mas é preciso ir além. Não basta pedir vocações de qualquer forma. É necessário pedir bem. Pedir com consciência. Pedir com responsabilidade. Devemos pedir vocações legítimas — homens que possam, de fato, ser ordenados, sem impedimentos canônicos para tal, pois nem todo homem pode ser padre. E devemos pedir vocações santas — homens que vivam na graça, que desejem crescer nela e que perseverem nesse caminho. Porque a vida espiritual não admite estagnação. Como ensina São João Clímaco, autor da Escada do Céu, quem não avança, retrocede. Na vida com Deus, parar já é começar a voltar atrás.

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Um dever moral e inadiável

Por isso, não se trata apenas de pedir mais padres, mas de pedir padres segundo o coração de Deus. No fim das contas, tudo nos leva a uma verdade simples e exigente: nós temos um dever. Um dever moral. Um dever espiritual. Um dever que não pode ser delegado: rezar. Rezar todos os dias. Rezar com fé. Rezar com insistência. Rezar pedindo a Deus que conceda à sua Igreja padres santos e legítimos. Porque Deus age, sempre age, mas Ele quis, misteriosamente, vincular a sua ação à nossa oração. Ter consciência vocacional é entender isso. É deixar de ser espectador e assumir o próprio lugar. É perceber que, de alguma forma, as vocações que a Igreja terá amanhã passam, hoje, pela oração que fazemos ou deixamos de fazer.

E talvez tudo comece com algo muito simples: uma oração sincera, feita com fé, todos os dias. Amém.

Padre Leandro Rodrigues dos Santos
Arquidiocese de Curitiba Mestre em Teologia na Universidade Salesiana de Roma
Reitor do Seminário Propedêutico São João Maria Vianney
Pároco da Paróquia Santíssimo Sacramento em Curitiba